| Limites
tênues entre homens e máquinas
"A.I. - Inteligência Artificial"

Sempre que o nome de Steven Spielberg está envolvido
em uma produção, espera-se que o filme em questão
seja um grande campeão, de bilheteria, de boas críticas
e resenhas ou de ambas. Não há outra alternativa
para o prodigioso cineasta, que carrega em seu currículo,
desde que começou a brilhar intensamente lá
pelos idos de 1970, sucessos como "Tubarão",
"Contatos Imediatos do 3º Grau", "E.T.",
"Caçadores da Arca Perdida", "A Cor
Púrpura", "A Lista de Schindler" e "Parque
dos Dinossauros", entre outros. Mas, como todo ser humano
normal, de quando em quando, da produção ou
direção de Spielberg surgem alguns fracassos
(quem se lembra de "1941", "Além da
Eternidade" ou "O Império do Sol").
No ano de 2001, o mercado cinematográfico mundial estava
agitado pela menção de que Spielberg estava
trabalhando um projeto que originalmente pertencia a outro
grande cineasta, Stanley Kubrick ("O Iluminado",
"Barry Lindon", "Dr. Fantástico",
"Spartacus", "Nascido para matar",...).
E o melhor de tudo, com as bençãos de Kubrick,
que acreditava que o único que poderia encaminhar o
projeto em questão seria o próprio Spielberg.
Esse filme era "A.I. - Inteligência Artificial".
A época em que vivemos, marcada por projetos como a
clonagem, o investimento no surgimento de máquinas
que sejam capazes de "pensar" por si próprias,
a biotecnologia e a alteração genética
dos alimentos entre outras grandes transformações
propostas pela ciência, abriu possibilidades para que
os sonhos se tornassem ainda maiores e que, a criação
de "replicantes" (robôs que são cópias
perfeitas de seres humanos) prevista no filme "Blade
Runner" de Ridley Scott voltasse a tona.
"A.I. - Inteligência Artificial" trabalha
esse tema. No período em questão, esses seres
terão se tornado tão comuns entre nós
que não causariam mais espanto ou admiração.
Apesar de muito parecidos com o que somos, seríamos
capazes de diferenciá-los da espécie humana
sem maiores dificuldades, principalmente pela dificuldade
de fazer com que robôs (por mais que se pareçam
fisicamente com homens, mulheres e crianças) externem
seus sentimentos (sofram, amem, tenham dor, chorem ou riam
com naturalidade).
"A.I" gira em torno do personagem David Swinton,
vivido pelo ótimo ator Haley Joel-Osment, um novo protótipo
de robô/replicante, que coloca a tecnologia no limite,
com uma tênue e praticamente invisível linha
divisória entre homem e máquina. Estaríamos
nos aproximando do fim das diferenças que separam seres
alimentados por óleos, cabos e chips do que somos.

Ao
se colocar o garoto/robô numa casa de família,
abalada pela doença terminal de seu filho, numa tentativa
de fazer com que David viesse a preencher o vazio deixado
pela criança, surge uma situação das
mais delicadas. A recuperação surpreendente
da criança enferma torna o ambiente insuportável
para os pais e as crianças. David é extremamente
devotado aos pais e, constantemente sabotado pelo "irmão",
enciumado, que quer se livrar dele. A situação
extenuante termina de forma trágica para o robô,
abandonado num mundo cheio de problemas e desigualdades.
O
efeito estufa, a corrupção dos costumes e a
incompreensão dos homens reinam nesse século
XXI. O menino-robô peregrina por esse mundo e tenta,
a todo custo, entender o que o cerca na busca de seu lar,
de seus pais e da segurança com que estava acostumado.
Encontra outros replicantes como ele e, seres humanos muito
parecidos com seus "pais", sem jamais desconfiar
que entre eles poderia haver uma aproximação
(não foi capaz de entender o abandono a que foi submetido).
É humilhado, colocado em situações em
que esteve muito próximo da destruição
e segue acreditando numa redenção (nos pais
e na volta para casa).
Nesse
momento passamos a nos perguntar: Devem existir limites para
a ciência? Ao se criarem alimentos transgênicos,
clones ou robôs que pensam e sentem (como no filme),
a ciência não coloca em risco a existência
dos seres humanos? Quem nos deu o direito de alterarmos a
natureza através de experimentos como os citados ou
de outros não mencionados? Que repercussões
podem advir de mudanças tão grandiosas como
essas? A tecnologia, qualquer que seja ela, é realmente
necessária? O que acontecerá conosco se continuarmos
avançando da forma como estamos?
O
mundo obviamente divide-se entre os que defendem entusiasticamente
a ciência e seus projetos, os que acreditam que determinados
avanços são válidos e outros nem tanto
e aqueles que rejeitam a maioria dos implementos trazidos
pelos pesquisadores. Não se trata de escolher uma dessas
opções mas, acima de tudo, de criar um canal
de debates envolvendo a sociedade civil, os cientistas e os
governos dos países para que a questão ética
não seja esquecida. Para que a lisura prevaleça
entre as pessoas que encabeçam essas transformações
e que, em nenhum momento o que está sendo criado possa,
num futuro breve, causar prejuízos a humanidade.

Não significa brecar ou interromper o que está
sendo feito pela ciência, mas, analisar outros fatores
(não apenas os técnicos) como os sociais, os
políticos, os econômicos e os culturais relacionados
a esses experimentos.
Para as escolas, "A.I." pode representar o início
de debates e estudos nessa área, com o envolvimento
da biologia, da história, da geografia, da ética,
do estudo das atualidades,...
Não perca!
João
Luís Almeida Machado
Mestre em Educação, Arte e História
da Cultura (Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São
Paulo); Professor universitário atuando na Faculdade
Senac em Campos do Jordão; Professor de Ensino Médio
e Fundamental em Caçapava, SP; Colunista para assuntos
de Educação no Portal Planeta Educação
Comentários,
sugestões e críticas. Envie e-mails para:
profjoaoluis@planetaeducacao.com.br
Ficha Técnica
A.I - Inteligência Artificial
(A.I. - Artificial Inteligence)
País/Ano de produção:
EUA, 2001
Duração/Gênero: 145 min.,
ficção científica
Disponível:- VHS e DVD
Direção de Steven Spielberg
Roteiro de Steven Spielberg e Stanley Kubrick
Elenco: Haley Joel Osment, William Hurt,
Jude Law, Frances O´Connor, Ben Kingsley.
Links
- http://www.cineguia.com.br/index.shtml?cod_filme=CNA3917&rg=0
- http://epipoca.ig.com.br/filmes_zoom.cfm?id=1953
- http://www.adorocinema.com/filmes/ai/ai.htm
- http://www.aimovie.com
(site official)
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