| Reflexão
em território inimigo
"Além da Linha Vermelha"

Quando "Além da Linha Vermelha" foi lançado
no cinema, muitos artigos sobre o filme destacaram que o diretor
Terence Mallick não realizava uma produção
a um longo período e que, a mesma situação
havia ocorrido em relação a seus trabalhos anteriores.
Muitos críticos se perguntavam o que acontecia com
Mallick, já que ele não produzia seus filmes
regularmente, como ocorre com a maioria dos cineastas americanos
conceituados.
Se Mallick demora tanto tempo para filmar para que possa ter
idéias de alto nível como as que apresenta ao
longo de "Linha Vermelha", devemos deixa-lo meditar
com tranqüilidade pois é muito difícil
encontrar na produção atual norte-americana
material da qualidade desse filme.
Como
filme de guerra que é, "Linha Vermelha" fica
devendo, pois não se trata de uma película ágil,
rápida, com poucos diálogos e muitas explosões
ou cabeças rolando para tudo quanto é lado.
Não espere o convencional quanto a esse filme. Ele
surpreende por ser acima de tudo cerebral, por buscar dialogar
com os espectadores, por tentar nos mostrar o estado de espírito
dos soldados a partir de seus pensamentos, por nos apresentar
os protagonistas sensibilizados pela destruição
na qual estão envolvidos e buscando forças em
laços familiares ou amorosos muito distantes do front,
onde estão envolvidos com toda a brutalidade de uma
guerra.
Os pensamentos dos soldados alternam-se, cada hora é
um deles que parece nos falar sobre o que seus sentidos captam
da atmosfera em que se encontram, há estados de tensão
profunda numa simples caminhada pela mata, assim como, nesse
mesmo local, os recrutas se perguntam que direito tem de devastar
toda a natureza e a vida que nela se encerra com seus projéteis,
granadas, lança-chamas ou bombas.
As divagações dos soldados passam por temas
que não imaginamos presentes na cabeça de um
militar embrenhado na selva, tentando derrotar seus oponentes
nipônicos, buscando conquistar uma ilha, perdida no
meio do Pacífico, considerada pelos estrategistas e
pelo alto comando militar norte-americano como fundamental
para suas pretensões nessa exaustiva campanha de combate
aos japoneses.

Mas,
afinal, o que nós, soldados, estamos fazendo aqui mesmo?
Que motivos levam-nos a arriscar nossas vidas para tomar o
cume dessa montanha? Por que devemos atirar contra nossos
oponentes se nem ao menos os conhecemos?
Toda
reflexão em torno da qual gira o filme é acompanhada
por uma belíssima fotografia, auxiliada pelas locações
de uma extraordinária paisagem natural. Há seqüências
em que vemos os americanos caminhando lado a lado com os aborígenes
locais e, nos surpreendemos por não termos sido capazes
de imaginar que na guerra também há espaço
para o distanciamento, para que outros interesses, mais relacionados
a uma vida simples e sem o materialismo que permeia o mundo
capitalista, possam existir, como acontece no caso das comunidades
locais representadas no filme. Nelas os soldados parecem a
vontade, como se tivessem encontrado o Paraíso Perdido,
o Éden, onde a pureza e a ingenuidade ainda imperam.
Mas não espere passar incólume pelas horas de
duração do filme (um dos poucos defeitos desse
longa-metragem é que ele é realmente longo,
extenso demais, talvez se algumas seqüências fossem
reduzidas fosse mais agradável aos olhos do grande
público), há momentos de combate, de enfrentamento
e de mortes. Cadáveres surgem e médicos são
a todo momento acionados, mas nada disso ocorre sem que haja
uma reflexão, um pensamento, uma orientação
para que você, espectador, venha a meditar sobre aquilo
que vê.

As qualidades do filme referem-se justamente a proposta bem-sucedida
de fazer com que o público sinta o filme, pense sobre
ele, perceba os dilemas que são vividos numa situação
extenuante como a de uma guerra, entenda os soldados como
homens iguais a cada um de nós, afeitos a paixões,
ao medo, a angústias e ao descontrole em momentos extremos.
"Além da Linha Vermelha" é ótimo
material para uma aula de filosofia, permite debates que podem
alimentar redações, estimula uma releitura da
Segunda Guerra Mundial e nos permite, de quebra visualizar
a geografia daquela região que tão pouco conhecemos.
Vale a pena esperar por Terence Mallick!
João Luís Almeida Machado
Mestre em Educação, Arte e História
da Cultura (Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São
Paulo); Professor universitário atuando na Faculdade
Senac em Campos do Jordão; Professor de Ensino Médio
e Fundamental em Caçapava, SP; Colunista para assuntos
de Educação no Portal Planeta Educação
Envie e-mails de comentários, sugestões e críticas
para:
profjoaoluis@planetaeducacao.com.br
Ficha Técnica
Além da Linha Vermelha
(A red thin line)
País/Ano de produção:
EUA, 1998
Duração/Gênero: 170 min.,
drama/guerra
Disponível:- VHS e DVD
Direção e Roteiro de Terence
Mallick
Elenco: Sean Penn, James Caviesel, George
Clooney, John Cusack, Woody Harrelson, John Travolta, Ben
Chaplin e Nick Nolte.
Links
- www.foxmovies.com/thinredline
(site oficial)
- www.adorocinema.com/filmes/alem-da-linha-vermelha/alem-da-linha-vermelha.htm
- http://e-pipoca.ig.com.br/filmes_zoom.cfm?id=857
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