| A
benção divina ao cinema brasileiro
"O Auto da Compadecida"

Povo
religioso, simples, de pé no chão, acuado pela
seca, atormentado pelo fantasma da fome e em constante luta
contra a miséria. Um breve perfil dos sertanejos nordestinos
poderia apresentar todas essas informações.
Acrescentaria-se, sem dúvida, a opressão a que
foram (e ainda hoje são) submetidos por famílias
de poderosos coronéis, que possuem terras e almas por
vastas áreas de todo aquele Brasil.
Durante
um longo período, e através de várias
obras literárias e suas adaptações para
o cinema, pudemos perceber a figura desses sertanejos como
a de homens de baixa estatura, mirrados pela alimentação
irregular (permeada por ciclos de escassez alimentar), de
pele queimada pelo forte sol que assola a região diariamente,
de mão marcada pela labuta diária no plantio
da cana ou do algodão (do cacau, do tabaco,...), de
roupas simples e de pés no chão.
Povo
constantemente cerceado em sua liberdade pelas restrições
impostas pelos caciques políticos, que comandavam do
alto de sua autoridade os seus currais eleitorais; marcado
em seu comportamento pelas imposições morais
da Igreja Católica; castrado em seus posicionamentos
pelo analfabetismo e pela falta de informação.
Apesar
de tudo isso, o "sertanejo é um forte" (como
nos disse Euclides da Cunha). Homens de muita perseverança,
de fibra, de grande disposição, sempre dispostos
a vencer as adversidades que se impõem ao longo de
seus tortuosos caminhos. Criadores de formas marcantes de
expressão cultural como a literatura de cordel; que
possuem a música em sua corrente sanguínea,
como parte integrante de sua natureza; realizadores de obras
de estética original e própria através
de seu artesanato.
João
Grilo e Chicó, personagens de uma das obras-primas
da literatura nacional, "O Auto da Compadecida",
de Ariano Suassuna, representam a transposição
de todas as características apresentadas anteriormente
acrescidas a uma grande esperteza. Dá enorme gosto
ler o livro. Igualmente vale a pena assistir ao filme de Guel
Arraes. Retratos de uma brasilidade que às vezes parece
distante dos habitantes do centro-sul e que, no entanto, também
fazem parte de cada um de nós.
O
Filme

A
doença do cachorro de Dora (protagonizada pela engraçadíssima
Denise Fraga) e de Eurico (Diogo Vilela), donos da padaria
de uma pequena cidade do interior do Nordeste brasileiro,
faz com que os espertos João Grilo (vivido pelo ótimo
Matheus Nachtergaele) e Chicó (personagem do competentíssimo
Selton Melo) tenham que importunar padre João (Rogério
Cardoso). Em nome de seus patrões, João Grilo
e Chicó pedem ao pároco local que abençoe
o pobre animal, para que o mesmo possa se recuperar de sua
enfermidade.
Como
enfrentam forte resistência do padre, resignado ante
a possibilidade de rezar em favor de um animal de estimação,
inventam uma história dizendo que o cão pertenceria
a um poderoso coronel (Paulo Goulart) da região (e
não simplesmente a mulher do padeiro). Contavam com
o fato de que o coronel raramente aparecia na cidade para
poderem levar adiante seu plano. Para seu desespero, o coronel
aparece na cidade e tem como destino principal a igreja, onde
pretende falar com padre João...
O
diálogo travado entre o padre e o coronel coloca João
Grilo e Chicó em sérios apuros, entre os quais,
voltar a convencer o padre a rezar em favor da alma do cachorro
da padeira, que a essa altura já falecera. Novas mentiras
e o surgimento de um falso testamento do cachorro resolvem
o problema. Para complicar a situação, surgem
na história um bando de cangaceiros (liderados pelo
Cangaceiro Severino, personagem de Marco Nanini), um bispo
(Lima Duarte) e um romance inesperado entre a filha do coronel
e Chicó.
Permeado
por histórias engraçadas, inventadas por Chicó,
e recheado de situações hilárias protagonizadas
por João Grilo, um verdadeiro mestre na arte de contar
histórias e mentiras, o filme surpreende no final,
quando vários personagens centrais se encontram com
Deus (Maurício Gonçalves), com o Diabo (Luís
Melo) e com Nossa Senhora, a Compadecida (Fernanda Montenegro,
numa ponta). Uma verdadeira preciosidade de nossa televisão
(era originalmente uma minissérie) transposta para
o cinema (onde foi grande sucesso de público e crítica).
Imperdível.
Aos
Professores

1-
Indicar a leitura de Ariano Suassuna é chover no molhado,
mas não custa nada lembrar que a literatura brasileira
é riquíssima e que serve de referência
fundamental para que possamos entender um pouco mais de nosso
povo e de nosso país. Ler "O Auto da Compadecida"
devia ser a regra, não como alguma coisa imposta, mas
como uma forma de nos encontrarmos com nossas raízes,
com nossa brasilidade, com o melhor de nosso senso de humor
fino e qualificado. Proponha a seus alunos a leitura do livro
e, posteriormente, deixe que eles vejam o filme!
2-
Realizar entrevistas e pesquisas de campo a respeito da vida
do sertanejo nordestino atualmente pode ajudar a complementar
(e reafirmar ou reorientar) a visão que temos da vida
nessa região. As relações sociais, o
trabalho, o modo de se vestir e se alimentar, as tradições
religiosas, as dificuldades próprias dessa localidade,...
No caso das pessoas que vivem distantes, pesquisas e entrevistas
através da internet podem facilitar o trabalho; outra
opção seria procurar pessoas que vieram das
regiões sertanejas e entrevistá-las.
3-
Um dos fatores decisivos para compreender os problemas da
região é o sistema político que predominou
e ainda domina regiões e cidades do interior nordestino.
A "indústria da seca", os "votos de
cabresto", os "currais eleitorais", os "eleitores
fantasmas" e tantos outros dispositivos utilizados no
passado e no presente do Nordeste brasileiro (e também
em outras regiões), fazem parte de uma herança
das mais desagradáveis, o coronelismo. Estimule seus
alunos a buscar mais informações sobre esse
fenômeno!
4-
Outra notável marca da região é a economia
agrária, pautada na exploração de gêneros
tropicais como o açúcar, o tabaco, o algodão
e o cacau. Como anda a economia nordestina atualmente? O clima
foi fator determinante para o predomínio dessas culturas
na agricultura local? De que forma variaram as técnicas
agrícolas entre o passado colonial e o presente da
região? Que outras atividades desenvolveram-se ao longo
da história local? Que tal preparar atividades com
gráficos e painéis demonstrativos da evolução
econômica da região sertaneja? É outro
viés a ser explorado para a plena compreensão
do mundo retratado por Ariano Suassuna.
João Luís Almeida Machado
Mestre em Educação, Arte e História
da Cultura (Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São
Paulo); Professor universitário atuando na Faculdade
Senac em Campos do Jordão; Professor de Ensino Médio
e Fundamental em Caçapava, SP; escreve semanalmente
na coluna Cinema e Educação do Portal Planeta
Educação (www.planetaeducacao.com.br).
Envie e-mails de comentários, sugestões e críticas
para:
profjoaoluis@planetaeducacao.com.br
Ficha
Técnica
O Auto da Compadecida
País/Ano de produção:-
Brasil, 1999
Duração/Gênero:- 107
min., Comédia
Disponível em VHS e DVD
Direção de Guel Arraes
Roteiro de Guel Arraes, Adriana Falcão
e João Falcão.
Elenco:- Selton Melo, Matheus Nachtergaele,
Denise Fraga, Marco Nanini, Fernanda Montenegro, Lima Duarte,
Paulo Goulart, Diogo Vilela, Rogério Cardoso, Luís
Melo, Maurício Gonçalves, Bruno Garcia, Virginia
Cavendish.
Links
-
www.adorocinemabrasileiro.com.br/filmes/auto-da-compadecida/auto-da-compadecida.asp
- http://e-pipoca.ig.com.br/filmes_zoom.cfm?id=1165
- http://www.cineguia.com.br/index.shtml?cod_filme=CNA3828&rg=0
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