| Tentando
resgatar nossos jovens
"Bicho de Sete Cabeças"

O início do filme nos traz a imagem de alguns de nossos
jovens e, no tocante aos professores, a de alunos que trazem
problemas e geram enormes dificuldades para o exercício
de nossa função. Há, inclusive, uma sintomática
sequência que se desenvolve numa sala de aula, onde
o personagem central, Neto (vivido por Rodrigo Santoro, surpreendente
e bastante a vontade no papel) está totalmente desvinculado
daquilo que está acontecendo na sala de aula, literalmente
"no mundo da lua", desprezando solenemente a presença
do professor.
Já
se trata de um bom início de discussões, afinal
de contas, como devemos agir em relação a esses
garotos e garotas que, evidentemente, "embarcaram numa
viagem sem volta" e que estão em nossas aulas
"matando o tempo"? O que fazer quando tivermos indícios
muito fortes de que algum jovem, entre aqueles com os quais
estamos trabalhando, está usando drogas? De que forma
devemos abordar a questão dos tóxicos entre
nossos alunos? Como encaminhar uma discussão com os
pais desses dependentes? O álcool e a maconha, não
são drogas?
Outras
questões importantes que podemos inferir a partir do
filme referem-se a própria conduta da escola no que
se refere a forma como as aulas são conduzidas, seus
métodos, a comunicação e sua efetivação
dentro de uma classe, os recursos que estão sendo utilizados,
o diálogo entre os professores e os alunos e entre
a escola e os pais e, por aí vai; afinal, temos uma
parcela de responsabilidade se pensarmos que, enquanto educadores,
devemos fazer com que nossos alunos aprendam nossos conteúdos
e, também, assumam responsabilidades e tenham posturas
definidas quanto a vida, permitindo que eles tenham condições
de evitar as armadilhas do cotidiano, entre as quais, a droga
se inclui.
É
perceptível, nesse aspecto, que não estamos
cumprindo com nossos compromissos de forma plena. Temos nos
preocupado muito com os conteúdos e pouco com a formação
de conceitos seguros de cidadania, ética e responsabilidade
social. O filme da diretora Laís Bodanzky nos dá
uma alfinetada que deve doer no fundo da alma, que deve servir
para abrir nossos olhos, que deve nos mobilizar em direção
a práticas que nos permitam auxiliar e resgatar nossos
jovens dos caminhos da droga.

Voltemos
ao filme. Neto é um jovem estudante que, como qualquer
pessoa dessa faixa etária (não generalizemos,
há muitos garotos que não medem os riscos e
entram em verdadeiras "frias", mas, há outros
que assumem compromissos, investem numa vida saudável,
estudam e respeitam os pais), arrisca-se de forma irresponsável
em atividades como pichações, viajar com a "galera"
para o litoral sem o consentimento dos pais e sem nem ao menos
informar aonde está, "transar" sem camisinha
e sem conhecer a parceira ou, ainda pior, se envolver com
drogas.
Proveniente de uma família de classe média baixa,
Neto tem pais esforçados porém, pouco informados
e, sujeitos as opiniões alheias. Quando descobre em
que situações seu filho se meteu, especialmente,
ao encontrar um cigarro de maconha na roupa do rapaz, o pai
(vivido pelo experiente Othon Bastos) decide-se pela internação
imediata do jovem num sanatório.
Nessa
instituição, teoricamente uma das melhores disponíveis
na cidade onde se passa a trama, Neto é submetido a
situações absurdas como por exemplo, a tomar
medicamentos sem qualquer avaliação prévia
pelos médicos responsáveis ou ainda, é
submetido a choques e ao convívio com doentes mentais
em estágios avançados de enfermidade.
Seus
apelos para que os pais o tirem dali são encarados
como táticas de um viciado que pagaria qualquer preço
para retornar ao convívio com as drogas, o que só
faz com que se prolongue sua internação. Quando
consegue sair, passa a conviver com o preconceito dos outros
e tem dificuldades de readaptação que o levam
a incorrer em novos erros e descaminhos, levando-o a nova
internação.

Como
escapar desse vai e vem? Como superar esse círculo
vicioso? O que nós podemos fazer (pais, professores,
sociedade em geral)?
Sensibilidade é uma das palavras essenciais nessa relação
delicada. Compreensão e diálogo também
fazem parte do caminho da recuperação. É
ver para crer!
João
Luís Almeida Machado
Mestre em Educação, Arte e História
da Cultura (Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São
Paulo); Professor universitário atuando na Faculdade
Senac em Campos do Jordão; Professor de Ensino Médio
e Fundamental em Caçapava, SP; escreve semanalmente
na coluna Cinema e Educação do Portal Planeta
Educação (www.planetaeducacao.com.br).
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e-mails de comentários, sugestões e críticas
para:
profjoaoluis@planetaeducacao.com.br
Ficha Técnica
Bicho de Sete Cabeças
País/Ano de produção:
Brasil, 2000
Duração/Gênero: 74 min.,
drama
Distribuição: Columbia
Direção de Laís Bodanzky
Elenco: Rodrigo Santoro, Othon Bastos, Cássia
Kiss, Jairo Mattos.
Links
-
www.bichodesetecabecas.com.br
- Site Oficial
- http://www.adorocinema.com/filmes/bicho-de-7-cabecas/bicho-de-7-cabecas.htm
- http://e-pipoca.ig.com.br/filmes_zoom.cfm?id=1993
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