| Que
país é esse?
"Central do Brasil"

Um
dos maiores méritos do novo cinema brasileiro reside
na importância dada pelos cineastas ao grande público.
Cada vez mais se percebe que a linguagem dos filmes deve ser
acessível e que, tramas muito complexas ou que pretendem
atingir a uma elite intelectualizada não atraem grandes
contingentes de espectadores. Isso não quer dizer que
os roteiros tenham que abdicar da inteligência, afinal
de contas, popular não quer dizer culturalmente pobre,
dispondo de parcos recursos visuais, linguísticos,
de fotografia, cenografia, vestuário ou música.
O reconhecimento das qualidades dessa produção
brasileira tem sido feito dentro e fora do país, através
dos institutos especializados, da crítica jornalística,
da expressiva bilheteria obtida além-mar e, principalmente,
da boa receptividade em festivais e premiações
que ocorrem em diversas partes do planeta.
"Central do Brasil" de Walter Salles (que, apesar
de não possuir ainda uma vasta produção
cinematográfica, já se tornou um dos ícones
desse novo período do cinema nacional, diga-se de passagem,
merecidamente) é um desses filmes brasileiros que fizeram
uma carreira internacional de grande destaque, tendo sido
inclusive indicado aos Oscar de melhor filme estrangeiro e
melhor atriz (para Fernanda Montenegro), o que levou o Brasil
a viver um autêntico clima de Copa do Mundo naquele
ano, tamanha era a torcida pelo sucesso de nossos conterrâneos
nessa disputa (perdemos para "A Vida é Bela").
As qualidades do filme já foram analisadas em diversos
artigos, mundo afora, principalmente no que se refere aos
quesitos fílmicos, sendo-lhe atribuídas elogiosas
referências na maior parte dessas publicações,
no entanto, "Central" deve ser observado como um
ótimo material para entender o Brasil, para que possamos
esclarecê-lo para nossos alunos.
A história de Dora (Fernanda Montenegro, em atuação
excepcional), que escreve cartas na estação
Central do Brasil para pessoas analfabetas já constitui
um quadro ao qual devemos nos ater. Quantas e quantas pessoas
nesse país-continente ainda não sabem ler ou
escrever? Que consequências o drama do analfabetismo
traz para nosso país? Dá para imaginar o que
significa não ser capaz de ler uma placa, um cartaz,
o letreiro de um ônibus ou um artigo de jornal? Será
que algum dia conseguiremos deixar para trás essa tremenda
maldade a que estão submetidos alguns milhões
de brasileiros? O que podemos fazer para superar essa chaga
que anualmente mata milhares de possibilidades para cada um
desses analfabetos?
O encontro de Dora com Josué (Vinicius de Oliveira,
estreando com o pé direito, numa interpretação
de encher os olhos), um menino que perde a mãe num
acidente (e que está a milhares de quilometros do pai,
que mora no Nordeste) e que subitamente se vê abandonado
numa estação rodoviária sem qualquer
perspectiva de salvação pode parecer providencial
e, assim o seria se estivéssemos falando de um filme
com final previsível, o que não é o caso
dessa obra de Walter Salles Jr.

Dora não é nenhuma santa, pelo contrário,
é pecadora dessas que imaginamos poder arder no inferno.
Ela cobra para escrever e enviar as cartas para pessoas que
vivem a margem desse incrível mundo das letras mas
nunca as envia. Se apropria de casos, intimidades e detalhes
da vida dessa gente sem que eles se deêm conta disso
e não permite que o que lhe foi comunicado chegue as
pessoas as quais se destinavam verdadeiramente essas notícias.
Ironicamente ela passa a ser portadora de uma nova mensagem,
em carne e osso, que responde pelo nome de Josué, sem
que nem ao menos estivesse interessada nisso.
Como
não queria perder tempo com o menino, chega a oferecê-lo
a um traficante de orgãos e vende-o sem grandes problemas
para sua consciência. Chegamos a outro ponto importante
do filme, nesse momento percebemos a perniciosidade do capitalismo
num país atrasado como o nosso. Vender crianças,
orgãos, negociar seres humanos em troca de dólares
no lucrativo e ilícito mercado negro (movimentado por
verdadeiras máfias ao redor do globo) constitui o ponto
mais baixo de qualquer existência.
Fugindo
dessas realidades pavorosas da cidade grande, a ex-professora
Dora e o menino orfão de mãe percorrem o interior
do Brasil, de ônibus, como caronas de um caminhoneiro
ou na carroceria de um caminhão que transporta romeiros.
Seguem país adentro, chegam a lugares improváveis
na nossa imaginação (mas que estão lá,
acreditem, para que possamos conhecê-los e ajudar a
mudar sua condição de atraso), descobrem um
país muito diferente daquele a que estavam acostumados
na cidade grande, percebem a intensa religiosidade que reveste
as comunidades pelas quais passam e vivenciam um pouco da
pobreza que assola nosso sertão.

"Central do Brasil" é um filme exemplar no
que se refere a sua capacidade de nos emocionar e mobilizar
perante situações críticas pelas quais
passam milhares (ou milhões) de pessoas em vastas áreas
de nosso país. Nos permite dissertar sobre o tema,
comparar diferentes realidades, identificar paisagens, entender
o sentimento religioso dessa população humilde
e nos posicionar perante grandes problemas nacionais. Me fez
lembrar de Euclides da Cunha, que descreve aquela região
e as pessoas que lá vivem e faz menção
a essa capacidade de sobrevivência dos sertanejos nordestinos
em sua imortal obra "Os Sertões". Será
que Canudos realmente desapareceu? Veja e reveja.
João Luís Almeida Machado
Mestre em Educação, Arte e História
da Cultura (Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São
Paulo); Professor universitário atuando na Faculdade
Senac em Campos do Jordão; Professor de Ensino Médio
e Fundamental em Caçapava, SP; Colunista para assuntos
de Educação no Portal Planeta Educação
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e-mails de comentários, sugestões e críticas
para:
profjoaoluis@planetaeducacao.com.br
Ficha Técnica
Central do Brasil
País/Ano de produção:
Brasil, 1998
Duração/Gênero: 112 min.,
drama
Distribuição: Universal (UIP)
Direção de Walter Salles Jr.
Roteiro de Marcos Bernstein/ Walter Salles
Jr./ João E. Carneiro
Elenco: Fernanda Montenegro, Vinicius de
Oliveira, Marília Pêra, Otávio Augusto,
Othon Bastos.
Links
- http://www.cineguia.com.br/index.shtml?cod_filme=CNA674&rg=0
- http://www.adorocinema.com/filmes/central-do-brasil/central-do-brasil.htm
- http://www.cinemaemcena.com.br/crit_editor_filme.asp?cod=296
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