| Dando
valor as leis e a solidariedade
"Cine Majestic"
Jim
Carrey é realmente um sujeito surpreendente. Começou
sua carreira como um comediante que tinha tudo para ser uma
reedição atualizada do grande Jerry Lewis (para
conferir isso basta ver "O Máscara", "Ace
Ventura" e "Debi e Lóide). Seu destino cinematográfico
pareciam ser as comédias escrachadas, um tanto quanto
apelativas em seu senso de humor. Dizia-se dele que era um
grande "careteiro", que suas "gags" e
malabarismos eram sua grande arte, sua garantia de sucesso
e de boas bilheterias.
Por
melhores que sejam os roteiros e as histórias contadas
nos filmes, esse tipo de interpretação se esgota,
cansa os espectadores e, acaba fazendo com que um artista
de grande sucesso de repente se torne um retumbante fracasso.
Talvez ciente dessa possibilidade, Jim Carrey resolveu enveredar
por caminhos um tanto quanto diferentes e, verdadeiramente
autênticos. A primeira grande prova desse novo desafio
de Carrey foi o bem-sucedido "O Show de Truman"
(a respeito do qual já produzi um artigo que se encontra
disponível no seguinte endereço: http://www.planetaeducacao.com.br/cinema/truman.asp).
Em
"Truman", o astro de cachês vultosos conseguiu
fazer com que sua verve cômica fosse agregada a um surpreendente
talento para o drama. Essa tendência continua e, o reconhecimento
ao trabalho de Carrey tem crescido em todos os lugares, seja
de público ou de crítica.
"Cine
Majestic" é uma nova oportunidade de verificar
o aperfeiçoamento de Jim Carrey. Trata-se de uma história
ambientada nos Estados Unidos dos anos 1950, no auge do Mcartismo.
Fenômeno dos mais aterrorizantes esse tal de Macarthismo,
principalmente para as pessoas que prezam e lutam pelas liberdades
individuais, pela democracia. No início da Guerra Fria,
movidos por uma grande histeria, parlamentares americanos
liderados pelo senador Joseph Mcarthy iniciaram uma grande
"caça as bruxas". As bruxas a que me refiro
não foram queimadas na fogueira mas, na prática,
a perseguição a que foram submetidos deixou-os
chamuscados para sempre.
 
As
vítimas de toda a arbitrariedade contida nessas perseguições
foram os pretensos comunistas que estariam em ação
nos Estados Unidos. Muitos deles nem ao menos sabiam os ditames
da ideologia marxista, como imaginar então que participavam
de grupos simpatizantes dessa linha política. Esse
era o caso do personagem Peter Appleton (Carrey), roteirista
de filmes de segunda linha, em início de carreira e
ávido por chances ainda melhores no disputado mercado
hollywoodiano.
A
capital do cinema foi, a propósito, um dos grandes
alvos dos agentes do Macarthismo. Diretores, roteiristas,
produtores e artistas foram alvos de investigações
e, em muitos casos, foram a tribunais públicos para
se defender das acusações de que eram comunistas.
Muitos tiveram que se retratar publicamente por erros que
nem ao menos haviam cometido. A intolerância desse período
beira as raias da insanidade. Nada poderia justificar tal
histeria e permitir que, utilizando-se de expedientes e agências
governamentais, se agisse de tal maneira.
Voltando
ao filme. Perseguido, Appleton acaba por sofrer um acidente
que o leva a perder a memória. Acaba indo parar numa
pequena cidade interiorana e é confundido com um jovem
(chamado Luke Trimble) daquela localidade que havia partido
para a guerra e nunca regressara. As semelhanças entre
ambos são muito grandes e, a partir desse momento,
as pessoas da cidade tentam reintegra-lo ao cotidiano local.
O
pai do jovem (vivido pelo experiente e competente Martin Landau)
decide reabrir o cinema que pertence a família desde
os anos 1920. Esperava o retorno de Luke para que pudesse
fazer isso. Com o apoio da comunidade e da prefeitura, que
lhes dão suporte material e humano para as reformas
necessárias, ressurge o Cine Majestic. Tudo parecia
ir muito bem, inclusive o romance reatado entre Luke/Appleton
e sua antiga namorada/noiva, até o FBI rastrear os
passos do desaparecido roteirista, acusado de simpatizante
dos "vermelhos"...
 
Os
grandes méritos do filme para o trabalho nas escolas
residem na solidariedade da comunidade ao unir forças
para a reconstrução de um símbolo da
cidade (o Cine Majestic) e o calor com que receberam Luke/Appleton,
a reconstituição de um fenômeno histórico
de grande repercussão na história americana
(o macarthismo) e, principalmente, na firmeza e decisão
do personagem de Carrey ao enfrentar os tribunais que o perseguiam
injustamente.
Ao
lembrar-se dos artigos da constituição americana
que exaltavam o direito as liberdades individuais, como a
liberdade de culto religioso, o direito de expressar suas
opiniões e a oportunidade de veicular as informações
através da imprensa, Appleton (Carrey) traz a tona
um pouco do sonho de todos nós (e não apenas
dos norte-americanos), de que as leis sejam muito mais que
apenas pedaços de papel sem valor. Confira!
Obs:
Sobre o macarthismo vale conferir o filme de Woody Allen chamado
"Testa de ferro por acaso" e a participação
de Robert De Niro em "Acusado por suspeita".
João
Luís Almeida Machado
Mestrando em Educação, Arte e
História da Cultura (Universidade Presbiteriana Mackenzie,
em São Paulo); Professor universitário atuando
na Unitau (Universidade de Taubaté) e na Faculdade
Senac em Campos do Jordão; Professor de Ensino Médio
e Fundamental em Caçapava, SP; escreve semanalmente
na coluna Cinema e Educação do Portal Planeta
Educação (www.planetaeducacao.com.br).
Envie
e-mails de comentários, sugestões e críticas
para:
profjoaoluis@planetaeducacao.com.br
Ficha
Técnica
Cine
Majestic
(The Majestic)
País/Ano
de produção:- EUA, 2001
Duração/Gênero:- 153
min., drama
Disponível em vídeo e DVD
Direção de Frank Darabont
Roteiro de Michael Sloane
Elenco:- Jim Carrey, Martin Landau, Laurie
Holden, Allen Garfield, Amanda Detmer.
Links
-
http://majesticmovie.warnerbros.com
(site oficial - em inglês)
- http://epipoca.ig.com.br/filmes_zoom.cfm?id=3690
- http://www.cineguia.com.br/index.shtml?cod_filme=CNA23591&rg=0
- http://set.peixes.uol.com.br/set/arquivo/arquivo.asp?cod=2608&sub=3
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