| Em
harmonia com a natureza e com os homens
"Dança com Lobos"

Um projeto ousado e inovador. Pelo menos do ponto de vista
da narrativa, que inverte o que historicamente havia sido
utilizado pela indústria cinematográfica norte-americana.
Entregue a um astro consagrado que teria que superar sua condição
de ator e tornar-se também diretor. Convenhamos que
não se trata de tarefa das mais fáceis, principalmente
se levarmos em conta a história que se pretendia contar
e o período em que o filme iria ser feito, o início
dos anos 1990, quando as platéias do mundo inteiro
não estavam muito interessadas em prestigiar filmes
desse gênero (alguns críticos acreditavam que
esse tipo de filme havia sido sepultado e jamais voltaria
a ter grande procura, a não ser como curiosidade).
O responsável por esse intento foi Kevin Costner, credenciado
pelo sucesso de "Os Intocáveis" e de "Campo
dos Sonhos", apesar de ainda não ter tido a oportunidade
de realizar um projeto de grande porte e ciente das dificuldades
que poderia encontrar no tocante a aceitação
dos espectadores, ele aceitou o desafio e produziu o grande
vencedor do Oscar de 1990 (premiado como melhor filme, diretor,
roteiro adaptado, fotografia, montagem e trilha sonora) e
do Globo de Ouro de 1991.
O gênero western ou far-west que na década de
1980, excetuando-se alguns poucos filmes que repercutiram
(como o divertido "Silverado" onde Costner faz parte
do elenco), estava em franca decadência e descrédito,
ganhou fôlego e vigor na nova roupagem introduzida pelo
filme "Dança com Lobos". O politicamente
incorreto que caracterizava as produções sobre
o Velho Oeste americano, onde os vilões ganhavam status
de celebridades, os xerifes tinham autorização
para matar indiscriminadamente e os índios eram apresentados
como selvagens a serem domados como os cavalos e búfalos
das pradarias daquela região, foi substituído
por um filme que trabalha com sensibilidade o encontro entre
o mundo dos brancos e o universo dos índios.
Não que isso possa apagar as atrocidades cometidas
nas guerras envolvendo os peles vermelhas e os cara-pálidas.
Não que com isso o objetivo seja reescrever a história,
marcada por disputas de terras, destruição da
cultura indígena e muitas mortes. Os registros da história
existem para comprovar que tudo isso aconteceu e que temos
que rever essa etapa da existência humana para que novos
massacres não ocorram.
"Dança com Lobos" nos apresenta uma diferente
figura do índio, mais próximo da natureza, relacionando-se
dentro de sua tribo, estranhando o visitante proveniente de
outra cultura (o personagem de Costner, Tenente Dunbar), aceitando
o intruso mas também cobrando a adaptação
do mesmo a seu modo de vida (a transformação
do tenente Dunbar no índio 'Dança com Lobos',
que nos parece expontânea mas que, nos faz pensar se
ele poderia viver naquela comunidade se não se submetesse
a tal mudança) e lutando pela sobrevivência de
sua comunidade, de sua cultura, de sua mãe natureza.

O
espírito do filme de Costner nos envia necessariamente
para a carta enviada pelo Chefe Seattle ao presidente dos
Estados Unidos, em 1850, como resposta a uma proposta de compra
de suas terras. Nela transparecem as idéias de que
somos como fios que compõem um tecido grandioso e que,
como tal, dependemos dos outros fios assim como os outros
dependem de nós para a composição do
todo, da vida, da sobrevivência coletiva. Ele perguntava
naquele documento se os brancos iriam tratar dos animais,
das águas dos rios, da floresta e do ar como tratava
seus irmãos ou seus pais. Antecipava o questionamento
ecológico (globalmente organizado a partir de conferências
realizadas no final dos anos 1960) em mais de 100 anos. Usava
metáforas como "selvagens indígenas"
e "cidades de pedra" para falar sobre civilização
e progresso. Afinal de contas, quem era o civilizado nessa
história?
A guarda de uma região fronteiriça entre os
limites das terras dos brancos e dos índios estabelece
o início da história de Dunbar. A tênue
linha que separa os universos desses povos e de suas culturas
estava prestes a se quebrar. Os medos que os mantinham afastados
são superados pela espectativa de entender o outro,
o diferente e, principalmente, pela necessidade do contato
humano.
A
relação que se estabelece a partir de então,
totalmente nova para ambos, mostra que os monstros que se
encontravam nas roupas, nas armas ou nos acampamentos não
eram senão, traços da humanidade dos dois grupos,
separados pelos hábitos, pela origem étnica,
pela história anterior de suas civilizações,
cara-pálidas e peles vermelhas não eram, enfim,
tão diferentes!

Esse filme pode abrir debates sobre o choque entre culturas
diferentes, estimular pesquisas a respeito dos indígenas,
fazer com que os alunos entrem em contato com comunidades
que vivam próximas. Uma boa dica pode ser comparar
a imagem do índio com a que tínhamos antes (baseada
em filmes antigos ou revistas em quadrinhos como "Tex").
Outra alternativa é ler o livro "Enterrem meu
coração na curva do rio" para compreender
um pouco dessa rica cultura de nossos irmãos indígenas!
Coloque o filme na lista dos obrigatórios, vale a pena!
João Luís Almeida Machado
Mestre em Educação, Arte e História
da Cultura (Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São
Paulo); Professor universitário atuando na Faculdade
Senac em Campos do Jordão; Professor de Ensino Médio
e Fundamental em Caçapava, SP; Colunista para assuntos
de Educação no Portal Planeta Educação
Comentários, sugestões e críticas. Envie
e-mails para:
profjoaoluis@planetaeducacao.com.br
Ficha Técnica
Dança
com Lobos
(Dances with wolves)
País/Ano
de produção: EUA, 1990
Duração/Gênero: 183 min.,
western/drama
Disponível:- VHS
Direção de Kevin Costner
Roteiro de Michael Blake
Elenco: Kevin Costner, Mary McDonnell, Graham
Greene,
Rodney A. Grant.
Links
- http://epipoca.ig.com.br/filmes_zoom.cfm?id=690
- http://www.cineguia.com.br/index.shtml?cod_filme=CNA2567&rg=0
- http://www.adorocinema.com/filmes/danca-com-lobos/danca-com-lobos.htm
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