| Quando
ninguém
era inocente
“Desmundo”
 Um
mundo de desbravadores. Homens de grande coragem
e enorme valor, que abandonaram sua terra de origem
e viajaram para terras habitadas por animais selvagens
e bugres (índios) hostis. Sua contribuição,
de valor inestimável, permitiu que o Brasil
e o restante das Américas se integrasse
ao mundo civilizado e muito mais evoluído
que existia na Europa da modernidade.
A primeira vista, os cem anos iniciais de colonização
da América e do Brasil em particular, nos
parecem nas descrições das aulas
de história como um período monótono,
de poucas realizações. Fala-se, por
exemplo, no fracasso das Capitanias Hereditárias,
na instalação de engenhos de açúcar,
na chegada dos negros para trabalharem como escravos,
das tentativas de invasões francesas,...
Tudo parece um tanto quanto insosso, sem graça,
sem sabor.
Parecemos nos esquecer que não havia qualquer
traço do Brasil que conhecemos hoje naqueles
tempos. No século XVI o Brasil era uma terra
praticamente virgem, usada em pequena escala por
poucos índios que por aqui plantavam mandioca,
caçavam, pescavam e viviam de forma idílica,
como a reproduzir a idéia do paraíso
perdido na terra, sem pudor e sem pecado.
Quando os europeus por aqui chegaram, diferentemente
do que pensamos, não vieram trazendo o melhor
de sua civilização no convés
de seus navios...
Vinham os “náufragos, traficantes
e degredados” aos quais se referiu Eduardo
Bueno em um de seus best-sellers a respeito dessa
primeira parte de nossa história colonial.
Homens rudes, tão selvagens quanto os mais
temíveis dos verdadeiros brasileiros, os índios.
Pessoas inescrupulosas, violentas e que vinham
para a América em busca de oportunidades
derradeiras de sobreviver, de resistir e, de preferência,
de ganhar algum dinheiro.
“Desmundo”, do cineasta Alain Fresnot,
nos coloca em sintonia com a realidade desse Brasil
do século XVI, desconhecido de muitos. Um
país literalmente “bronco”,
um tanto quanto bárbaro. Tão viril
e embrutecido que o filme, apesar de belíssimo,
muito bem filmado, com reprodução
de época esmerada e atores de primeiríssima
qualidade, não foi bem aceito pelo grande
público.
Costumo dizer a meus alunos que o cinema glorifica
e embeleza a história. Princesas e príncipes
não eram tão belos, tão saudáveis
quanto às produções européias
e norte-americanas querem nos fazer crer. Tinham
doenças que os debilitavam seriamente e
viviam freqüentemente não mais que
30 anos. Não tomavam banho regularmente,
não cuidavam dos dentes, apresentavam um
forte cheiro corporal,...
Fresnot teve a ousadia de retratar o século
XVI como um período em que os personagens
eram toscos, rudimentares. Ao tirar o glamour da
maquiagem dada pelo cinema, criou uma verdadeira
pérola, um filme digno de ser visto e revisto.
Mais um gol de placa do cinema nacional.
O Filme
 Os primeiros portugueses que se estabeleceram no
Brasil, além de uma origem duvidosa, provenientes
muito mais do limbo do que do luxo das cortes,
viveram uma experiência das mais desgraçadas
entre as muitas que são contadas a respeito
de nosso país. Tinham que “mostrar
os dentes” o tempo todo, mostrando força
e se apegando as leis de sobrevivência na
selva (literalmente) para poderem conquistar terras,
domar o gentio (negros da terra) e estabelecer
produção.
Caçar índios, diga-se de passagem,
mais que necessidade se tornou negócio lucrativo
nesses primeiros tempos. Supria as necessidades
de um país onde inexistiam braços
para manter o esforço das lavouras que brotavam
em vários cantos. Cumpria-se também
uma função “civilizatória” ao
colocar os “negros da terra” em contato
com a religião católica.
As índias, além de tudo, supriam
as necessidades sexuais dos europeus que haviam
se instalado nessas terras sem a companhia de suas
esposas ou de qualquer outra mulher branca. Alain
Fresnot nos convida a examinar a história
das mulheres que eram “importadas” da
Europa para se casar com os “fidalgos” locais.
A personagem central, Oribela (numa notável
performance de Simone Spoladore) é uma dessas órfãs,
recolhidas pelas ruas, pelos abrigos dos sem-teto
e sem-família ou nos conventos. Vem ao Brasil
para se casar com Francisco (Osmar Prado, assustador
e muito convincente), um desses degredados que
se dignificou com as terras e escravos que adquiriu
por aqui.
O embate entre Oribela, religiosa fervorosa educada
num convento, e o violento e grosseiro Francisco,
foco central da narrativa, fica ainda mais complexo
com a entrada em cena do mercador e cristão-novo
(judeu convertido ao catolicismo, por força
da necessidade) Ximeno Dias (Caco Ciocler), por
quem Oribela demonstra simpatia...
Forte e provocante, o filme nos convida a uma reflexão
a respeito desse primeiro Brasil dos portugueses.
Imperdível!
Aos Professores
 1- É interessante tentar fazer uma ponte
entre “Desmundo” e a minissérie “A
Muralha”, da TV Globo, que nos colocou em
contato com o Brasil dos bandeirantes. Em ambos
os casos, a intenção dos realizadores
era a de nos colocar num tempo cujos registros,
escassos, dão margem à criação
de uma realidade menos dolorosa que aquela realmente
vivida pelas pessoas dos séculos XVI e XVII.
Pensando nisso, os produtores se esforçaram
para compor um quadro mais amargo, viril e embrutecido
da vida no Brasil de então. Vale comparar
e traçar paralelos para tentar averiguar
quem conseguiu mostrar melhor esse Brasil tão
rude.
2- Os livros de Eduardo Bueno, criticados por alguns
historiadores puristas, colocaram a história
do Brasil desse período em destaque. Evidenciaram
nossas origens relacionando-as a bandidos, órfãos,
degredados e amotinados, pessoas sem escrúpulos
que para cá vinham em busca de oportunidades
derradeiras de se recuperar. Trabalhar alguns textos
dos livros desse autor como elementos que permitam
um aprofundamento em relação aos
acontecimentos descritos no filme “Desmundo” é essencial
para que os estudantes compreendam que a narrativa
relaciona-se com a realidade pesquisada daquele
período.
3- Vivemos numa sociedade que ainda preserva entre
suas bases o patriarcalismo. A família atual,
especialmente nos grandes centros, parece cada
vez mais distante dessa realidade, onde o pai concentra
os poderes, as responsabilidades e exige em troca,
a submissão dos demais membros da família
a suas demandas e exigências. “Desmundo” trabalha
esse tema e pode servir para que façamos
uma revisão do patriarcalismo e para que
possamos pesquisar a forma como as famílias
brasileiras se organizam atualmente.
4- Que tal fazer um levantamento do trabalho de
reprodução de época desenvolvido
em “Desmundo”? Verifiquem os figurinos,
as construções, as armas e os utensílios
e procurem livros que apresentem imagens que reproduzam
o período em que a trama se desenvolve.
Monte quadros comparativos e painéis onde
as imagens do filme possam ser colocadas lado a
lado com as ilustrações disponíveis
nos livros. Enumerem os acertos e os erros cometidos
pela produção.
João Luís
Almeida Machado
Mestre em Educação, Arte e História
da Cultura (Universidade Presbiteriana Mackenzie,
em São Paulo); Professor universitário
atuando na Faculdade Senac em Campos do Jordão;
Professor de Ensino Médio e Fundamental
em Caçapava, SP; escreve semanalmente na
coluna Cinema e Educação do Portal
Planeta Educação
Envie e-mails de
comentários, sugestões
e críticas para:
profjoaoluis@planetaeducacao.com.br
Ficha Técnica
Desmundo
País/Ano de produção:- Brasil,
2003
Duração/Gênero:- 101 min.,
Drama
Direção de Alain Fresnot
Roteiro de Sabina Anzuategui, Anna Muylaert e Ana
Miranda
Elenco:- Simone Spoladore, Osmar Prado,
Caco Ciocler, Beatriz Segall, Cacá Rosset,
Berta Zemel, José Eduardo, Arrigo Barnabé. Links
- e-pipoca.cidadeinternet.com.br/filmes_zoom.cfm?id=4567
- adorocinema.cidadeinternet.com.br/filmes/desmundo/desmundo.htm
- cineclick.virgula.terra.com.br/cinemateca/ficha_filme.php?id_cine=10659
- www.cineguia.com.br/index.shtml?cod_filme=CNA15137&rg=0
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