| Sonhos
e Frustrações
da Burguesia
“A Época da Inocência”

inocência . [Do lat. innocentia.]
S. f. 1. Qualidade de inocente. 2. Falta de culpa;
inculpabilidade. 3. Candura, pureza. 4. Simplicidade, ingenuidade.
Martin Scorsese é um dos maiores cineastas
norte-americanos de todos os tempos. Poucos se
atrevem a duvidar disso. Muitos assinariam uma
afirmação como essa sem qualquer
receio. Sua maior virtude? Sem dúvida alguma
reside na ousadia. Como cineasta tanto pelo virtuosismo
e esmero que percebemos com clareza em praticamente
todos os seus filmes quanto pelos temas fortes
e estimulantes. Mesmo em filmes considerados “menores” em
sua filmografia nota-se essa grandeza e genialidade. É o
caso, por exemplo, da adaptação da
obra de Edith Wharton, “A Época da
Inocência”, para o cinema.
Tanto no filme como no livro há uma forte
crítica a burguesia nova-iorquina do século
XIX, mais especificamente as pessoas dessa camada
social que comandavam a cidade naquele período.
Os maiores focos de contrariedade referem-se ao
fato de que essa classe social, responsável
pela destituição da nobreza do poder
político e das esferas de maior status social
na Europa, fez-se refém da mesma ao adotar
modelos e padrões de comportamento típicos
da época em que barões, condes, viscondes
e duques davam as cartas no mundo.
Ostentavam abertamente sua riqueza em grandes banquetes
e recepções, durante suas aparições
nos espetáculos teatrais e óperas,
em suas mansões luxuosas e decoradas numa
tentativa de repetir padrões reconhecidos
em chateaus e palácios europeus. As roupas,
se não seguiam os mesmos padrões
do século anterior (quando a nobreza prevalecia
política e socialmente), também eram
utilizadas para demonstrar autoridade e requinte,
por isso, eram comuns as sedas e veludos, as estolas
de peles, as cartolas e os casacos vistosos.
Se não praticavam o ócio, tão
comum aos nobres europeus, os burgueses norte-americanos
se davam o direito de relaxar em seus jardins ou
casas de campo, praticar esportes em grandes clubes
(apenas para que seus iguais pudessem vê-los
e comentar a respeito de suas virtudes atléticas
e sua boa saúde financeira) ou viajar pelo
mundo, especialmente, pela Europa.
Além disso, mantinham uma fachada de felicidade
e realização tanto no ambiente familiar
quanto no profissional, quando muitas vezes, isso
não era condizente com a realidade que estavam
vivendo. Era necessário fazer um jogo de
cena que iludisse os demais componentes dessa “corte” contemporânea
para que ninguém pudesse notar fracassos
pessoais ou empresariais. Pura hipocrisia...
O Filme
 Madame Olenska (Michelle Pfeiffer) é uma
mulher separada que retorna da Europa e se estabelece
em Nova Iorque para reatar seus laços familiares.
A sociedade da época (século XIX)
não a recebe bem, apesar de reconhecer que
ela tinha motivos para ter se afastado de seu marido,
um nobre europeu.
No período de volta de Madame Olenska, sua
prima, a doce e ingênua May (Winona Ryder)
estava prestes a se casar com Newland Archer (Daniel
Day-Lewis), um promissor advogado, proveniente
de importante e abastada família local.
Newland foi, entretanto, escolhido para cuidar
da separação de Madame Olenska. Por
esse motivo, passa a encontrá-la com grande
freqüência. Isso acabou gerando uma
grande proximidade entre os dois, que se tornou
um tórrido romance.
Como reagiria a conservadora sociedade local ao
relacionamento entre Olenska e Newland? A situação
era ainda mais constrangedora partindo-se do fato
de Madame Olenska ser prima de May, noiva e futura
esposa de Newland. As coisas pioravam ainda mais
se levarmos em conta o perfil da mulher traída,
considerada ingênua, elegante e terna.
Fotografia e figurinos memoráveis compondo
com a qualidade reconhecida da direção
de Martin Scorsese e com a atuação
impecável do trio de atores principais,
Daniel Day-Lewis, Michelle Pfeiffer e Winona Ryder
(indicada ao Oscar e vencedora do Globo de Ouro
de melhor atriz por esse papel) tornaram esse filme
um grande sucesso, digno de ser visto e revisto.
Aos Professores
 1- A utilização de romances de época
como ponto de apoio para a compreensão de
diferentes períodos históricos é fundamental.
Edith Wharton, Machado de Assis, Charles Dickens, Émile
Zola ou Aluísio Azevedo podem referendar
a visão de uma determinada época
ou tempo a partir de suas descrições
do cotidiano. Passamos, inclusive, a ter uma noção
mais clara de como seria viver em realidades como
as mostradas em suas obras. É de valor inestimável
que haja uma cooperação e um trabalho
conjunto e coordenado entre as áreas de
literatura e história.
2- Para muitos estudantes do Ensino Médio
e das séries finais do Ensino Fundamental
não é muito clara a diferença
entre os períodos Moderno e Contemporâneo
da história. O uso de filmes como “A Época
da Inocência”, onde existem semelhanças
muito grandes entre o modo de vida da burguesia
e da nobreza pode afirmar as semelhanças
e coincidências (quanto ao modo de se vestir,
a etiqueta, os ambientes, o requinte e o luxo,...),
mas deve também, estimular uma reflexão
quanto às diferenças e os motivos
que nos levam a caracterizar tais épocas
a partir de diferentes denominações
(Moderna e Contemporânea).
3- É possível traçar paralelos
entre o período retratado no filme (final
do século XIX, nos Estados Unidos), onde
se mostra a forma como vivia a burguesia de então
com o modo como vivemos atualmente? Partindo do
princípio que também vivemos dentro
de uma sociedade burguesa, teoricamente essa comparação
pode ser realizada. Como poderíamos fazer
isso? Que tal propor aos estudantes um levantamento
de dados quanto aos hábitos, relacionamentos
entre as pessoas, formas de se vestir, moradias,
festas e jantares apresentados no filme de Scorsese
e nos tempos atuais?
4- O título do filme “A Época
da Inocência” pode fazer com que iniciemos
uma discussão com os estudantes quanto ao
sentido do termo “inocência” no
contexto da história de Edith Wharton. Pode-se
perguntar, por exemplo, se há inocentes
na história? Quais as qualidades dos personagens
caracterizados ou entendidos como inocentes? A
sociedade nova-iorquina do filme como um todo,
age de forma “inocente” ou procura
medir suas ações de forma calculada
antes de realizá-las? A fria recepção
da sociedade nova-iorquina a Madame Olenska contradiz
o título do filme, não concordam?
O astuto e culto advogado Newland Archer tinha
uma real compreensão de tudo o que se passava
a seu redor? A doce e ingênua May foi enganada
durante a história e jamais chegou a saber
o que realmente estava acontecendo entre Archer
e Olenska?
João Luís
Almeida Machado
Mestre em Educação, Arte e História
da Cultura (Universidade Presbiteriana Mackenzie,
em São Paulo); Professor universitário
atuando na Faculdade Senac em Campos do Jordão;
Professor de Ensino Médio e Fundamental
em Caçapava, SP; escreve semanalmente na
coluna Cinema e Educação do Portal
Planeta Educação
Envie e-mails de
comentários, sugestões
e críticas para:
profjoaoluis@planetaeducacao.com.br
Ficha Técnica
A Época da Inocência
(The Age of Innocence)
País/Ano de produção:- EUA,
1993
Duração/Gênero:- 130 min.,
Drama
Direção de Martin Scorsese
Roteiro de Martin Scorsese e Jay Cocks
baseado na obra de Edith Wharton
Elenco:- Daniel Day-Lewis, Michelle Pfeiffer, Winona
Ryder, Jonathan Pryce, Geraldine Chaplin, Robert
Sean Leonard, Richard E. Grant, Mary Beth Hurt. Links
- cineclick.virgula.terra.com.br/cinemateca/ficha_filme.php?id_cine=8846
- adorocinema.com/filmes/epoca-da-inocencia/epoca-da-inocencia.htm
- e-pipoca.cidadeinternet.com.br/filmes_zoom.cfm?id=769
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