| Brilhantismo
incompreendido
"Gênio Indomável"

Quantas
vezes passamos em nossas vidas de professores por alunos que
nos deslumbram por sua incrível capacidade de compreender
e acompanhar nossos raciocínios e reflexões
nas mais diversas áreas do conhecimento? Tornam-se
ainda mais instigantes para nós por estarmos diante
de pessoas que ainda não tiveram a oportunidade de
aprofundar seus estudos como nós, como profissionais
da educação, especializados em diversas matérias
ou conteúdos pudemos fazer.
Essas
pessoas muitas vezes são tão inteligentes que
podem superar a capacidade de seus mestres e, por incrível
que pareça, podem ter as mais diversas origens sociais
(diferentemente do que se apregoa em muitos cantos, de norte
a sul desse planeta, inclusive em nossa terra brasilis, o
conhecimento não é privilégio dos nobres,
a quem foi legada uma melhor condição sócio-econômica!).
No entanto, a escola os trata como a todos os outros, não
parece interessada em valorizar suas habilidades e suas potencialidades.
Muitos professores acabam fechando suas portas a esses alunos
por não saberem exatamente o que devem fazer em relação
a eles ou ainda por temerem que os pupilos possam superá-los
e colocá-los em situação de desvantagem
perante a academia a que pertencem.
Essas
verdadeiras pérolas (dessa forma acho que já
estou respondendo a pergunta com a qual iniciei esse texto),
de tão raras que são, deveriam ter a seu alcance
os recursos necessários para que pudessem desenvolver
ainda mais suas capacidades e, dessa forma, para que chegassem
a reverter para a sociedade em que vivem, resultados de trabalhos
que teriam sido capazes de realizar em vista desse incentivo
a que teriam tido acesso.
O
filme "Gênio Indomável", do sensível
diretor Gus Van Sant (de sucessos independentes como "Kids"
e "Garotos de Programa" onde atuou como produtor
e diretor ou ainda do já comentado nessa coluna "Encontrando
Forrester") , estrelado pelos astros Robin Williams,
Matt Damon e Ben Affleck, caminha na direção
dessas primeiras reações, esperadas, dos mestres
em relação a estudantes que podem constituir-se
em ameaças a seu reinado, a sua estabilidade, a seu
conhecimento por possuírem esse arsenal de habilidades
guardadas dentro de si.

Tudo
começa quando um notável mestre de uma conceituada
instituição universitária norte-americana
coloca no quadro-negro um problema matemático que julga
ser de impossível solução pelos alunos
que freqüentam suas aulas. Constitui-se tal atividade
num desafio aparentemente intransponível para os grupos
com os quais esse educador está trabalhando, mas, como
toda "pedra no sapato" que se preze, quem sabe um
deles pudesse, num grande esforço, solucioná-lo.
Alguns
dias depois de ter apresentado o aparente "enigma da
pirâmide", o professor é surpreendido com
a resposta anotada numa das lousas do corredor da universidade,
assim como depara-se com a solução do problema
equacionada em suas diversas etapas. Teve que capitular e,
atônito, passou a perguntar aos quatro cantos pelo realizador
de tal intento, já que imaginava-o impossível
para seus pupilos. Cria-se um ar de mistério pois ninguém
se apresenta. Um novo problema, ainda mais difícil,
é então disponibilizado para as salas e, para
o espanto geral, dias depois, algum "Einstein" de
plantão apareceu para resolvê-lo anonimamente.
O que foi descoberto a seguir surpreendeu ainda mais ao professor
e a todos que faziam parte dessa referida comunidade acadêmica,
o autor de tal displante foi um dos jovens responsáveis
pela limpeza e manutenção do ambiente, uma pessoa
que nem ao menos freqüentava os cursos e que circulava
pelo local como servente da instituição.
O
personagem Will Hunting, interpretado por Matt Damon (que
ganhou em parceria com Ben Affleck o Oscar de melhor roteiro
original por esse filme), tem no entanto, uma ficha das mais
encrencadas, tratando-se de um jovem violento e problemático,
proveniente de área suburbana e aparentemente mal-relacionado
(seu grupo de amigos é pouco afeito a estudos e muito
propenso a confusões); mesmo assim, trata-se de um
talento promissor, desses que não se acha em qualquer
esquina, do tipo que tentamos fazer surgir em nossa labuta
diária na sala de aula mas que, apesar de nossos esforços
e do trabalho pesado de alguns de nossos alunos para atingir
tal objetivo, não depende somente de suor ou de muitas
horas debruçados sobre livros, fazendo contas, estudando
conceitos (obviamente que, atitudes como essas são
fundamentais para a formação e aperfeiçoamento
de nossos alunos para que venham a se tornar profissionais
de alto nível, no entanto, algumas pessoas parecem
ter nascido para determinadas funções e, nenhum
empecilho as parece derrubar de sua rota rumo ao sucesso).
O que fazer? Essa pergunta leva o professor universitário
a buscar o auxílio de renomados psicólogos para
resolver os dilemas de Will e, dessa forma, encaminhá-lo
para uma brilhante carreira. O único que parece entendê-lo
é Sean McGuire (vivido pelo ator Robin Williams, que
dá carisma ao personagem), mesmo Will tendo passado
pelas mãos de pessoas mais estimadas ou consideradas
que McGuire. O diálogo que se estabelece entre eles
parece ser a possibilidade de resolução de problemas
que se acumulam desde o passado do jovem. O desenlace da trama
se dá por conta de opções que são
apresentadas ao tal "gênio indomável"
Will Hunting, suas escolhas, acertadas ou não, passam
em boa parte, pelo entendimento com McGuire através
de suas conversas.

De
certa forma, podemos dizer que nossa melhor arma para encarar
as dificuldades de relacionamento, seja com alunos que apresentam
enorme potencial, seja com estudantes que tem baixo rendimento
ou mesmo com aqueles que levam uma vida escolar regularizada
(e que também estão sujeitos a intempéries
ao longo da jornada!), acaba sendo o bom e velho bate-papo,
o diálogo sugerido no filme de Van Sant.
Quantos
de nós parecemos ter perdido essa velha receita. Não
custa nada tentar revê-la, ela ainda pode render grandes
dividendos para todos.
João Luís Almeida Machado
Mestre em Educação, Arte e História
da Cultura (Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São
Paulo); Professor universitário atuando na Faculdade
Senac em Campos do Jordão; Professor de Ensino Médio
e Fundamental em Caçapava, SP; escreve semanalmente
na coluna Cinema e Educação do Portal Planeta
Educação
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para:
profjoaoluis@planetaeducacao.com.br
Ficha Técnica:
Gênio Indomável
(Good Will Hunting)
País/Ano de produção: EUA,
1997
Duração/Gênero: 116 min.,
drama
Disponível em vídeo e DVD
Direção de Gus Van Sant
Elenco: Robin Williams, Matt Damon, Ben Affleck
e Minnie Driver.
Links:
-
http://www.cineguia.com.br/index.shtml?cod_filme=CNA712&rg=0
- http://e-pipoca.ig.com.br/filmes_zoom.cfm?id=916
- http://www.adorocinema.com/filmes/genio-indomavel/genio-indomavel.htm
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