| Trabalhadores
despertos
"Germinal"

O título do livro e do filme nos confunde um pouco
e, se não estivermos a par da temática da obra
de Émile Zola, que deu origem ao filme de Claude Berri,
podemos passar por esse filme na locadora sem percebê-lo
e sem dar a ele o devido valor. Não nos enganemos,
essa produção do cinema francês merece
ser vista e apreciada tanto pelos amantes da sétima
arte quanto pelos estudiosos da literatura, da história,
das relações humanas e dos movimentos de trabalhadores.
"Germinal"
refere-se ao processo de gestação e maturação
de movimentos grevistas e de uma atitude mais ofensiva por
parte dos trabalhadores das minas de carvão do século
XIX na França em relação à exploração
de seus patrões; nesse período alguns países
passavam a integrar o seleto conjunto de nações
industrializadas ao lado da pioneira Inglaterra, entre os
quais a França, palco das ações descritas
no romance e representadas no filme.
A
forma contundente como as ações ocorrem no filme
tornam a crueza dos acontecimentos extremamente chocante para
os espectadores, no entanto, esse discurso um tanto quanto
agressivo por parte do diretor Berri tem o firme propósito
de conclamar os espíritos da audiência e chamar
a atenção para as dificuldades e a rudeza do
mundo operário do século XIX.
Vilipendiado,
roubado, esgotado, trabalhando em condições
totalmente impróprias, inseguro, sujeito a acidentes
que podem ceifar-lhe a vida ou decepar-lhe um braço
ou uma perna, assim nos é mostrado o proletariado francês
nas telas. Inserido na escuridão das minas de carvão,
sujo, cumprindo jornadas de 14, 15 ou 16 horas, recebendo
salários baixíssimos e tendo que ver sua família
toda se encaminhar para o mesmo tipo de trabalho e péssimas
condições, pouco resta aos trabalhadores senão
a luta contra aqueles que os oprimem.
A
obra literária é do período que marca
o surgimento da Internacional Comunista, por isso há
menções a Marx e Engels e também ao anarquismo
(um dos personagens centrais da trama assume o discurso dos
pensadores que propuseram o anarquismo até as últimas
conseqüências, mesmo tendo em vista as desgraças
que isso poderia causar naquele contexto específico).

Um
trabalho paralelo envolvendo a leitura de trechos selecionados
do livro sendo monitorado pelos professores da área
de literatura, acompanhado por uma passagem em filosofia pelas
obras dos intelectuais que abordaram os temas das lutas de
classes e uma elucidativa aula sobre as condições
em que se desenvolveu o movimento trabalhista ao longo do
século XIX na Europa por parte do professor de história
fariam com que a compreensão do filme e, conseqüentemente,
do fenômeno da confrontação entre patrões
e empregados fosse melhor assimilada pelos estudantes.
A
história do filme gira em torno de uma família,
que se encontra nas mencionadas condições de
miséria e penúria listadas nos parágrafos
anteriores, o chefe dessa família, vivido pelo grandalhão
Gerárd Depárdieu (considerado um dos melhores
atores franceses de todos os tempos, que também trabalhou
em outros importantes filmes com temática histórica
como "Danton - o processo da revolução"
e "1492 - A Conquista do Paraíso") se vê
então obrigado a tomar providências e para isso
é estimulado pela chegada de um novo operário,
que já possui vivência em termos de criação
e fomentação de movimentos reivindicatórios.
O primeiro passo dessa dupla passa a ser, então, criar
condições de sobrevivência para os trabalhadores
tendo-se em vista que uma greve poderia se prolongar por um
longo período de tempo, por isso, criam uma caixa de
resistência, com a qual todos os operários deveriam
contribuir. A diminuição dos salários
e o pouco caso dos patrões em relação
à segurança e a saúde dos trabalhadores
aumenta ainda mais as tensões.
Paralelamente
a história dos trabalhadores podemos acompanhar a burguesia
e seu cotidiano de brioches, grandes refeições,
luxuosas residências e total descaso em relação
ao mundo que existe além dos seus portões.
O
contraste também é proposital, tem por objetivo
acirrar os ânimos de quem assiste e fazer com que as
pessoas tomem partido (obviamente dos trabalhadores), por
isso, deve-se destacar quando se trabalhar esse filme, a questão
ideológica. Como obra que procurou ser fiel aos acontecimentos
do período em que foi escrita, a perspectiva para os
operários não é das melhores.

Uma
boa reprodução de época, acompanhada
por atuações convincentes, a escolha acertada
das locações onde o filme foi produzido e a
excelente trama que se desenvolve paralelamente as disputas
entre burgueses e trabalhadores tornam o filme uma ótima
pedida para facilitar o estudo dessa difícil e complicada
questão. Assistam!
João
Luís Almeida Machado
Mestre em Educação, Arte e História
da Cultura (Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São
Paulo); Professor universitário atuando na Faculdade
Senac em Campos do Jordão; Professor de Ensino Médio
e Fundamental em Caçapava, SP; escreve semanalmente
na coluna Cinema e Educação do Portal Planeta
Educação
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para:
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Ficha Técnica:
País/Ano de produção:-
França, 1993
Duração/Gênero:- 158
min., drama
Disponível em vídeo
Direção de Claude Berri
Elenco:- Gerárd Depárdieu,
Miou-Miou, Jean Carmet,
Renaud, Jean-Roger Milo.
Link:
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http://intervista.imdb.com/Title?0107002
(em inglês)
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