| Abaixo
a Intolerância, "Black is beautiful"
"Um Grito de Liberdade"

As cenas iniciais nos colocam no meio de um gueto. Poderíamos
imaginar se tratar de mais um filme sobre o holocausto, não
é. A palavra gueto é rapidamente associada ao
genocídio dos judeus na 2ª Guerra Mundial praticado
pelos nazistas. Nos parece que associá-la a outros
momentos da história não é adequado,
acreditamos que perseguições e violências
semelhantes ao que ocorreu na Alemanha entre 1939 e 1945 não
devam ter acontecido nas mesmas proporções em
outras regiões do planeta.
No
entanto, as imagens marcantes de crianças sendo espancadas,
mulheres gritando em desespero, homens tentando se defender
de agressões covardes e gratuitas nos são apresentadas.
Tanques invadindo locais deploráveis, sem as mínimas
condições de higiene, propícias ao surgimento
de doenças, onde vivem pessoas aos milhares, estão
ao alcance de nossos olhos. Impossível não se
sensibilizar com tão evidente falta de humanidade.
Estamos presenciando cenas da década de 1970, ocorridas
na África do Sul, num sub-distrito de Capetown (a cidade
do Cabo). As vítimas de toda essa insanidade são
os negros, os agressores são os brancos.
Os registros que deram base para as fortes seqüências
filmadas pelo premiado e experiente diretor inglês Richard
Attemborough (o mesmo que filmou o épico "Ghandi")
vieram de dois livros, escritos pelo jornalista sul-africano
Donald Woods, que vivenciou os acontecimentos e pode, dessa
forma, fazer relatos denunciando toda a violência e
a intolerância características do regime de segregação
racial sul-africano, o Apartheid.
Além de ter visto, ouvido e sentido na própria
pele todo ódio incontido dos brancos em relação
aos seus conterrâneos negros, Woods teve a oportunidade
de viver proximamente ao ativista Stephen Biko. Inteligência
privilegiada, Biko se tornou uma liderança respeitada
dentro de sua comunidade desde os tempos em que era estudante,
aproveitando-se das poucas chances de estudar concedidas pelos
governantes brancos sul-africanos à maioria negra do
país.
A estruturação da sociedade do apartheid fazia
prevalecer a lógica mesquinha da divisão injusta
dos meios e recursos, das oportunidades e bens materiais,
legando a comunidade negra, majoritária em termos quantitativos,
as piores condições de vida e de trabalho, a
humilhação de ter que pedir autorização
para se deslocar de um lugar para o outro, a separação
de famílias para que pudessem sobreviver (os empregos
eram concedidos em locais distantes, homens e mulheres acabavam
se encontrando apenas nas folgas e nos finais de semana),
os salários irrisórios, as moradias que eram
verdadeiros guetos (favelas, cortiços ou como queiram
chamar).

A
violência aplicava-se sob a égide de um estado
de caráter fascista, a base de pancadaria e de submissão
a condições totalmente desumanas. Woods (interpretado
no filme pelo versátil Kevin Kline) é um jornalista
liberal, que faz críticas a ação desmesurada
do governo, mas que, vive em subúrbio luxuoso, afastado
de toda a conturbação característica
dos bairros pobres onde residem os negros. Parece atento ao
que acontece ao seu redor, mas não consegue perceber
todas as mazelas e diferenças que matam milhares, que
mutilam outros tantos, que ferem os corpos assim como as almas.
E o pior, tudo acontecendo por conta da diferença da
cor da pele.
Biko
(protagonizado pelo excelente Denzel Washington, premiado
com o Oscar duas vezes, por seu desempenho em "Tempo
de Glória" e "Dia de Treinamento"),
é um dos alvos mais freqüentes dos editoriais
escritos por Woods. Do alto de toda a sua sabedoria de membro
da classe dominante, o jornalista acredita que a ação
de líderes negros como Biko aumenta o ódio racial,
faz crescer o número de situações de
enfrentamento, distancia a comunidade negra dos brancos e
estimula a segregação ao invés de combatê-la.
Quando
Woods e Biko se conhecem, quebram as barreiras do silêncio
impostas pelo estado racista a Biko e estabelecem conexões
entre si que reforçam a idéia de que o diálogo,
a compreensão e as concessões são o melhor
caminho para solucionar o problema sul-africano. A admiração
mútua logo se torna mais marcante e o carisma do líder
Biko atinge em cheio o jornalista liberal que passa a utilizar
seu espaço no jornal para pregar em favor do fim do
apartheid. A perseguição aos negros atinge então
seu confortável lar de classe dominante num luxuoso
distrito reservado a elite branca.
O que lhe parecia distante, próprio dos subúrbios
poeirentos em que residiam os negros, também podia
chegar a sua casa, atingir a sua família, obrigá-lo
a se calar. Os amargos "remédios" dados pelos
racistas sul-africanos a Biko e a Mandela (preso desde a década
de 1960 tendo sido solto apenas no final dos anos 1980) atingiam
Woods. O doce sonho de que toda a situação vivida
pelo país poderia ser superada às custas de
planos de governo e boa vontade da população
iam por água abaixo. Que alternativa resta senão
a luta, que possibilidade se apresenta que não seja
o enfrentamento. Biko acreditava ser possível alterar
os rumos do país seguindo as máximas de Ghandi
e Martin Luther King, sem violência.

Qual
foi o custo de toda essa verdadeira guerra civil que se instalou
entre os sul-africanos? Quantos homens e mulheres morreram
vitimados pela discriminação? As feridas desse
verdadeiro genocídio podem se cicatrizar? Será
que um dia superaremos todas as formas de preconceito e aceitaremos
os outros como são? Assistir a "Um Grito de Liberdade"
nos faz refletir sobre essas questões. Alimenta um
debate que a humanidade ainda não conseguiu resolver.
Permite que falemos sobre problemas que ainda existem. Apesar
do fim do regime do Apartheid, será que a situação
de vida dos negros na África do Sul melhorou? Como
serão as relações entre negros e brancos
nesse país hoje em dia?
João
Luís Almeida Machado
Mestre em Educação, Arte e História
da Cultura (Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São
Paulo); Professor universitário atuando na Faculdade
Senac em Campos do Jordão; Professor de Ensino Médio
e Fundamental em Caçapava, SP; escreve semanalmente
na coluna Cinema e Educação do Portal Planeta
Educação
Comentários,
sugestões e críticas. Envie e-mails para:
profjoaoluis@planetaeducacao.com.br
Ficha Técnica
Um Grito de Liberdade
(Cry
Freedom)
País/Ano de produção:-
Inglaterra, 1987
Duração/Gênero:- 157
min., drama
Disponível em vídeo
Direção de Richard Attemborough
Roteiro de John Briley
Elenco:- Denzel Washington, Kevin Kline,
Penélope Wilton.
Links
- http://us.imdb.com/Title?0092804
(em inglês)
|