| Quando
o sertão quase virou mar
"Guerra de Canudos"

A saga dos migrantes nordestinos em busca de melhores condições
de vida tem se repetido ao longo da história do Brasil
de forma constante. Em alguns momentos o drama desses retirantes
rendeu muito mais do que tragédias familiares ou dramas
pessoais. Um desses episódios marcantes foi a brutal
Guerra de Canudos, ocorrida no sertão da Bahia. Descontentes
com a seca, a fome e a espoliação dos coronéis
que dominavam o interior do nordeste, vários homens
e mulheres se renderam as promessas de que seriam levados
por um beato a salvação, a terra escolhida por
Deus, ao paraíso prometido nos dizeres bíblicos.
Há um misto de falta de informação (ou
ignorância), credulidade religiosa extremada, desesperança
com as condições em que viviam e insatisfação
total com os desmandos dos poderosos do açúcar
que nos ajudam a entender os motivos que levaram tão
grande número de pessoas a seguir Antônio Conselheiro,
o tal beato que lhes prometia o ceú às custas
de enormes sacrifícios e dores de cada um dos peregrinos.
A medida que sua fama aumentava e o povoado do Belo Monte
surgia no meio de um terreno árido e de poucas perspectivas,
mais e mais pessoas se dirigiam para a pequena vila desses
excluídos.
Aumentava também a preocupação dos donos
de terras que, receosos de que o exemplo dado por Conselheiro
e seus seguidores pudesse criar novas vilas como o Belo Monte
e ameaçasse a sagrada propriedade buscaram o auxílio
do novo governo republicano para que pudessem derrotar a ameaça
que se impunha. Para tanto criaram algumas justificativas
que fizeram com que para a região fossem despachadas
algumas dezenas de soldados, equipados com recursos obsoletos,
mal treinados e sem qualquer conhecimento prévio sobre
a região e o que lhes esperava.
O resultado não podia ser outro, arrasados pelos temíveis
jagunços liderados por um lunático que se considerava
o Messias em busca de Canaã, os soldados debandaram
e desse ato veio a certeza de que o adversário era
muito mais poderoso do que se imaginava a princípio.
O início da história, narrado acima retrata
apenas parcialmente o que foi chamado em uma das várias
obras sobre o ocorrido como sendo "a guerra do fim do
mundo" escrita por Mario Vargas Llosa; não deixa
de ter lógica a afirmação contida no
título da obra de Llosa pois, Conselheiro e seus seguidores
eram muito mais do que apenas fanáticos religiosos,
constituiam-se num retrato do Brasil que mesmo depois da terrível
violência que se abateu sobre aquela região e
aquelas pessoas, continua a existir. Tanto é assim
que anos depois, em uma de suas obras de referência
(Retirantes), o pintor Cândido Portinari, retratou o
fenômeno das migrações internas que ocorre
periodicamente em terras brasileiras. Recentemente, situações
idênticas foram alvo da fotografia do premiadíssimo
brasileiro Sebastião Salgado, ampliando seu foco para
as misérias do mundo e visualizando um pouco do Brasil
que poucos habitantes das cidades tiveram a oportunidade de
conhecer.

A miséria que move os migrantes de ontem e de hoje,
é a mesma do período da Guerra de Canudos, assim
como, continua ironicamente "alimentando" novas
travessias, fugas dos autênticos "campos de concentração"
que se estabelecem nas regiões mais secas do sertão
nordestino, onde o gado emagrece e morre esturricado, onde
as pessoas ficam doentes e desnutridas, podendo-se enxergar
seus ossos como se elas também fossem prisioneiras
vitimadas pelo holocausto.
O
diretor Sérgio Rezende, que já produziu outros
filmes que apresentavam temática histórica como
"Lamarca" e "Mauá - O imperador e o
rei", reuniu um elenco de atores globais (Paulo Betti,
José Wilker, Cláudia Abreu, Marieta Severo,
Selton Mello), fez uma boa reprodução de época,
criou uma narrativa baseada na saga de uma entre as várias
famílias de migrantes que acompanharam o beato Conselheiro
e produziu um filme de caráter épico. Utilizou
toda a dramaticidade da vida dos retirantes e a movimentada
história da ação das tropas brasileiras
em confronto com os conselheiristas e recriou o choque entre
os emblemas do novo (a república recém-empossada)
e do arcaico (o império defendido por Conselheiro em
algumas de suas pregações).
Wilker
como Conselheiro representa uma guinada de 360° na história
do cinema nacional, o ator que foi um ícone no final
dos anos 1970 como o Vadinho de "Dona Flor e Seus Dois
Maridos" e que representou um dos viajantes da alegre
e mística caravana de "Bye Bye Brasil" voltava
ao interior do país, dessa vez não mais como
um malandro, enganador, jogador e mulherengo. Dessa vez, ele
era a encarnação do mal para uns e da salvação
para outros, um religioso extremado, que condenava os abusos
do álcool e da carne.
"Guerra
de Canudos" também nos deixa com dúvidas,
quanto ao caráter dos envolvidos no conflito do título,
quanto a quem estava com a razão, quanto a o que aconteceria
se o Belo Monte não fosse destruído. O filme
serve como um elemento para que entendamos a destacada fibra
do sertanejo, descrita por Euclídes da Cunha no clássico
livro "Os Sertões" e para que possamos vislumbrar
mazelas do Brasil de ontem que continuam muito vivas hoje
em dia. A miséria e a fome dos flagelados da seca que
migram para regiões mais prósperas continua
e não nos deixa esquecer!

Indicado para se utilizar em aulas de literatura, história,
geografia, filosofia, atualidades ou ética. Nos possibilita
discutir não apenas o conflito vivido no final do século
XIX, nos primeiros anos da república brasileira mas,
também, as questões da atualidade (migrações,
miséria, fome, a geografia da pobreza), o clássico
livro de Euclídes da Cunha, o Movimento dos Sem-Terra
(só a título de sugestão, procurem fotos
do conflito, tiradas no final da Guerra, e comparem com o
material do livro de Sebastião Salgado, "Terra"!),...
João Luís Almeida Machado
Mestre em Educação, Arte e História
da Cultura (Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São
Paulo); Professor universitário atuando na Faculdade
Senac em Campos do Jordão; Professor de Ensino Médio
e Fundamental em Caçapava, SP; Colunista para assuntos
de Educação no Portal Planeta Educação
Envie comentários, sugestões e críticas
para:
profjoaoluis@planetaeducacao.com.br
Ficha Técnica
Guerra de Canudos
País/Ano de produção:
Brasil, 1997
Duração/Gênero: 170 min.,
drama/épico
Disponível:- VHS e DVD
Direção de Sérgio Rezende
Roteiro de Paulo Halm e Sérgio Rezende
Elenco: Paulo Bétti, José Wilker,
Cláudia Abreu, Marieta Severo, Selton Mello, Tuca Andrada,
Tonico Pereira, José de Abreu.
Links
- http://www.cineguia.com.br/index.shtml?cod_filme=CNA20011&rg=0
- http://epipoca.ig.com.br/filmes_zoom.cfm?id=248
- http://www.adorocinema.com/filmes/guerra-de-canudos/guerra-de-canudos.htm
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