| Emoção
a flor da pele
"Uma lição de amor"

Sean
Penn é um dos atores mais talentosos de sua geração.
Não bastasse todo o talento que possui enquanto ator,
Penn é uma das personalidades mais ativas e destacadas
em termos de posicionamentos políticos que ousam desafiar
a ordem estabelecida, opondo-se a direcionamentos e atitudes
do governo americano e, colocando em risco suas economias
para bancar projetos cinematográficos nos quais acredita.
"Uma
lição de amor" vem comprovar a coerência
de Penn, tanto por seu talento dramático (numa atuação
que lhe valeu indicação ao Oscar) quanto por
sua dedicação a causas justas, com as quais
se identifica.
Se
nos lembrarmos que na Antiguidade Clássica, particularmente
entre os romanos, era comum o sacrifício de pessoas
que apresentassem deficiências físicas ou mentais,
podemos dizer que a sociedade evoluiu, aprimorou-se. Se, por
outro lado, imaginarmos que há várias barreiras
que ainda não foram transpostas, principalmente aquelas
que dizem respeito à forma como os deficientes são
encarados e tratados pelas outras pessoas, percebemos que
ainda há muitas mudanças a serem implementadas.
O
personagem Sam (interpretado de forma tocante por Sean Penn)
vive dentro de condições que poderíamos
considerar como adequadas no contexto atual, no que tange
a uma pessoa deficiente que possui a idade mental equivalente
a de uma criança de 7 anos de idade. Tem seu próprio
apartamento, está empregado em uma lanchonete onde
atua como garçom, recebe seus amigos para assistir
vídeos clássicos e cuida de sua filhinha...
É
justamente nesse ponto que as autoridades resolvem interferir,
partindo do princípio de que Sam (Penn) seria incapaz
de resolver os problemas e criar adequadamente a menina, especialmente
a partir do momento em que ela ultrapassasse a capacidade
mental do pai (o que ela estava prestes a fazer). A assistência
social resolve tirar-lhe a guarda da criança e privar-lhe
do direito de pleno exercício da paternidade respaldando-se
na tese de que Sam é deficiente mental.
O
filme nos coloca diante de uma situação singular,
onde percebemos com clareza as impossibilidades de Sam e,
ao mesmo tempo, vivenciamos através das imagens uma
experiência única de paternidade, pautada numa
relação carregada de emoção e
presença, de participação e doação
por parte do pai em relação à filha.
Some-se
a tudo isso, a frieza do sistema judiciário norte-americano,
onde a justiça despreza pormenores que podem ser decisivos
para a solução de um caso traumático
de separação entre pai e filha e temos uma idéia
da trama do filme. Observem também que o contraponto
da experiência vivida por Sam pode ser visto na figura
de sua advogada de defesa, Rita Harrison (Michelle Pfeiffer),
uma linda e bem sucedida profissional que mal tem tempo para
ouvir o que seu filho tem a lhe dizer...

O
filme
Sam
Dawson (Sean Penn) ajeita nervosamente os saquinhos de adoçante
e procura colocá-los em ordem. Todos têm que
estar com o rótulo numa determinada direção
e, com as palavras em posição que permita que
sejam lidas. Essa sua disposição por ordem e
arrumação não consegue fazer com que
deixemos de perceber que Sam é uma pessoa que apresenta
deficiências, visíveis a partir de seus tiques,
de sua movimentação e de sua exasperação.
Em
seu ambiente de trabalho conseguiu cativar aos colegas e,
em sua vida particular, vive rodeado de amigos que, como ele,
também apresentam dificuldades advindas de impossibilidades
mentais.
Um
acontecimento diferenciado, no entanto, marca a vida de Sam
para sempre. Ao abrigar uma mulher sem-teto, acaba fazendo
com que ela engravide. Cumprido o período de gestação,
Sam sai do hospital acompanhado da mãe e com o bebê
no colo. A mãe foge e abandona Sam e a recém-nascida.
Inicia-se dessa forma uma relação totalmente
diferenciada de paternidade.
Sam
acolhe e cuida da criança com o auxílio de uma
vizinha reclusa (vivida pela experiente Dianne Wiest). Alguns
anos passam e a pequena Lucy Diamond Dawson (Dakota Fanning)
se torna uma menina esperta e saudável, próxima
de completar 7 anos de idade.
Quando
a assistência social descobre que Sam (possuidor de
idade mental equivalente a de uma criança de 7 anos)
está criando a pequena Lucy, inicia-se uma luta judicial
pelos direitos de criação e educação
da menina. Lucy passa aos cuidados do juizado e, Sam tem que
provar, com o auxílio de sua advogada Rita Harrison
(Michelle Pfeiffer) que é plenamente capaz de amar
e criar Lucy.
Prepare
suas emoções! E não esqueça de
deixar uma caixa de lenços do lado da poltrona...

Aos
professores
1-
Provoque a sensibilidade de seus alunos. Pergunte a eles como
reagem quando em contato com pessoas que apresentam deficiências
físicas ou mentais. Estimule-os a não agir movidos
por um sentimento de piedade e, sim, a pensar essa relação
como uma oportunidade de crescer, de auxiliar, de aprender
e de desenvolver um sentimento verdadeiro de solidariedade.
Os estudantes têm que entender que devem ajudar as pessoas
deficientes a construir uma auto-estima positiva e de valorização
pessoal e não de misericórdia e compaixão
(lástima).
2-
Há "uma lição de amor" no filme
dada por Sam aos pais e mães que tanto se preocupam
com a manutenção material de seus filhos e deixam
de lado a afeição, a proximidade e a atenção
que as crianças pedem, praticamente demandam e necessitam
cotidianamente de seus pais. Temos prestado muito pouca atenção
a isso e, as conseqüências futuras desse descaso
podem ser percebidas e interpretadas a partir de atos de violência,
apego às drogas, dificuldades de socialização,
desinteresse pelos estudos e tantas outras situações.
É preferível antecipar-se a problemas como esses
a ter que remediá-los posteriormente!
3-
Como o judiciário brasileiro reagiria diante de uma
situação como essa? O filme pode servir como
fio condutor de uma pesquisa de campo, com entrevistas a juízes,
promotores e advogados ou ainda, consulta a códigos
legais relativos a questão de família. Pode-se
ainda questionar até que ponto nossos valores e orientações
de base cristã católica nos levariam a agir
de outra maneira no que se refere à situação
apresentada no filme.
4-
Traçar um paralelo entre os personagens de Sam (Sean
Penn) e Rita Harrison (Michelle Pfeiffer) nos leva a pensar
a respeito do caos que se instaura em nossas vidas em virtude
do ritmo acelerado e do excesso de compromissos com os quais
estamos envolvidos. Deixamos de lado nossa inocência
e nossa meninice para assumirmos responsabilidades, em algum
trecho desse caminho acabamos perdendo o rumo e deixamos de
sorrir, de nos sensibilizar, de amar com intensidade, de nos
divertir...
Obs.
A trilha sonora do filme é recheada de sucessos inesquecíveis
dos Beatles, que serviram de inspiração para
a vida do personagem Sam e o estimularam a dar o nome Lucy
Diamond a sua filha (título de uma das mais famosas
canções do mais conhecido grupo de rock de todos
os tempos, "Lucy in the Sky with Diamonds", que
serviria de mensagem cifrada para LSD, ou seja, ácido
lisérgico, droga das mais pesadas, utilizada com certa
freqüência durante os anos 1960 e 1970).
João Luís Almeida Machado
Mestre em Educação, Arte e História
da Cultura (Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São
Paulo); Professor universitário atuando na Faculdade
Senac em Campos do Jordão; Professor de Ensino Médio
e Fundamental em Caçapava, SP; escreve semanalmente
na coluna Cinema e Educação do Portal Planeta
Educação
Envie
e-mails de comentários, sugestões e críticas
para:
profjoaoluis@planetaeducacao.com.br
Ficha Técnica
Uma lição de amor
(I am Sam)
País/Ano de produção:-
EUA, 2001
Duração/Gênero:- 133
min., Drama
Disponível em VHS e DVD
Direção de Jessie Nelson
Roteiro de Jessie Nelson e Kristine Johnson
Elenco:- Sean Penn, Michelle Pfeiffer, Dianne
Wiest,
Laura Dern, Dakota Fanning, Joseph Rosenberg, Brad Silverman.
Links
-
http://e-pipoca.cidadeinternet.com.br/filmes_zoom.cfm?id=3793
- http://www.adorocinema.com/filmes/licao-de-amor/licao-de-amor.htm
- http://www.cineguia.com.br/index.shtml?cod_filme=CNA23979&rg=0
- http://www.newline.com/sites/iamsam/
(site oficial)
|