| A
sedutora França dos nobres
"Ligações Perigosas"

Chordelos
de Laclois teve um ano pródigo em 1988, seu romance
mais conhecido "Relações Perigosas"
foi filmado por dois dos mais conceituados cineastas do mundo
atual, o inglês Stephens Frears e o tcheco naturalizado
norte-americano Milos Forman. Justiça seja feita, a
obra de Laclois é um deleite para quem toma contato
com a mesma, trata-se de uma verdadeira obra-prima. Transposta
para as telas pelas mãos hábeis e competentes
de diretores do porte de Frears e Forman teria que resultar
em grandes filmes.
O
filme de Frears foi tão bem recebido pelo público
e pela crítica que recebeu três prêmios
da Academia (o Oscar) no que há de mais importante
num filme de época, Figurino e Direção
de Arte, além do reconhecimento da grandeza da história
com o prêmio pelo melhor roteiro adaptado, obra do consagrado
roteirista Christopher Hampton. Além disso, havia sido
indicado a 4 outras estatuetas, inclusive a de melhor filme
do ano (Michelle Pfeiffer foi indicada a melhor coadjuvante
feminina, Glenn Close a melhor atriz e o filme ainda recebeu
uma menção técnica com a indicação
a melhor Trilha Sonora). É importante ressaltar que
os prêmios foram merecidos e que, nessa ocasião
a academia pecou apenas pela não indicação
de John Malkovich pelo papel de Visconde de Valmont.
O
cenário da trama é a França do século
XVIII, às vésperas da Revolução,
e os nobres parecem totalmente desavisados do que estava por
acontecer. Tudo acontece nos domínios dessa gente ociosa,
que em virtude de todo o tempo livre de que dispõe,
usam seus dias em atividades como ler, passear pelos jardins,
ir a missa, assistir espetáculos teatrais e óperas,
jogar cartas, tricotar ou maldizer a vida alheia. Entre todas
essas ocupações interessantes e desprovidas
de qualquer sentido produtivo ou coletivo, o que se destaca
com maior ênfase são os jogos de sedução.
A
todo momento se percebem situações em que o
que está em jogo é a conquista de belas damas
ou de rapazes incautos e ingênuos. Desprovidos de qualquer
barreira ou obrigação ética e moral,
os nobres "atacavam" de forma inclemente qualquer
vítima potencial utilizando-se de sutilezas, de uma
linguagem rebuscada, de técnicas sofisticadas de aproximação
e, principalmente, de medidas baixas, cheias de segundas intenções
que os levassem ao triunfo nas situações de
conquista em que estavam envolvidos.
O
mencionado Visconde de Valmont (John Malkovich) e a Marquesa
de Merteuil são, nessa história, os verdadeiros
mestres na arte de vencer esse jogo intrincado. Eles se propõem
a conquistas aparentemente inviáveis diante das circunstâncias
apresentadas, mas nada para eles constitui barreira intransponível.
Há de se ressaltar que quanto mais difícil fosse
a conquista amorosa a ser empreendida, mais estimulante ela
se tornava para cada um deles. Repare inclusive que entre
eles se trava uma disputa emocionante e que, vencer significava
a glória total (eles tentam a todo momento conquistar
um ao outro e, negacear a proximidade do oponente era muitas
vezes uma jogada de mestre).

A
proposta principal do Visconde é a de vencer a resistência
da Madame de Tourvel (Michelle Pfeiffer, linda e numa de suas
melhores interpretações), conhecida pelo seu
apreço pelos valores da moralidade católica,
bem casada e aparentemente imbatível, por isso mesmo
um alvo preferencial para o devasso Valmont. Entre eles trava-se
uma disputa fortíssima que envolve a fé, os
bons costumes, o respeito ao cônjuge e a ética
(personificados na personagem de Pfeiffer) frente a frente
com a imoralidade, a leviandade, a mentira e a lascividade
(do visconde vivido por Malkovich).
Na
outra frente de "batalha", a marquesa de Mertuil
(Glenn Close, uma das maiores atrizes americanas) tenta desgraçar
a moça (Uma Thurman) prometida em casamento a um de
seus ex-amantes. Para isso ela conta com o auxílio
do Visconde de Valmont e, com o sincero e devotado amor sentido
por um professor de música (a estréia de Keanu
Reeves em filmes de porte), de origem humilde, em relação
a donzela.
O
maior mérito do filme reside nos diálogos afiadíssimos
que nos apresentam com clareza a relação dessa
nobreza com o mundo que a cercava, caracterizada por um total
desinteresse no tocante a tudo o que não envolvesse
seus próprios interesses pessoais ou, na melhor das
hipóteses, de grupo (quando chegavam a pensar que formavam
um grupo, o que dificilmente acontecia). O desenvolvimento
da história e suas reviravoltas encantam até
o mais cético dos espectadores, fica difícil
imaginar tanta criatividade nos escritores atuais! A reconstituição
de época é um primor, os ambientes sofisticados
dos palácios e "chateaus" franceses, os lindos
jardins, as carruagens, o vestuário, os objetos apresentados
em cena, os serviçais e muitos outros detalhes desse
cotidiano dos nobres tornam-se um recurso fenomenal para que
entendamos aquela época e seus hábitos.

Assistir
"Ligações Perigosas" é atividade
das mais prazerosas e encantadoras. Trata-se de um filme inteligente
e de muitas possibilidades para o ensino da história
daquele período. Considero tal recurso imprescindível.
Não perca!
João Luís Almeida Machado
Mestre em Educação, Arte e História
da Cultura (Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São
Paulo); Professor universitário atuando na Faculdade
Senac em Campos do Jordão; Professor de Ensino Médio
e Fundamental em Caçapava, SP; Colunista para assuntos
de Educação no Portal Planeta Educação.
Envie e-mails de comentários, sugestões e críticas
para:
profjoaoluis@planetaeducacao.com.br
Ficha Técnica
Ligações
Perigosas
(Dangerous Liaisons)
País/Ano de produção:
EUA, 1988
Duração/Gênero: 120 min.,
drama
Disponível:- VHS e DVD
Direção de Stephen Frears
Roteiro de Christopher Hampton
Elenco: Glenn Close, John Malkovich, Michelle
Pfeiffer,
Uma Thurman e Keanu Reeves.
Links
- http://www.adorocinema.com/filmes/ligacoes-perigosas/ligacoes-perigosas.htm
- http://www.cineguia.com.br/index.shtml?cod_filme=CNA15416&rg=0
- http://us.imdb.com/Title?0094947
(em inglês)
|