| Colhendo
maçãs
"Regras da Vida"

Nossas
memórias registram consciente e inconscientemente praticamente
tudo aquilo que acontece ao nosso redor. Mesmo quando estamos
concentrados num determinado assunto, quando devotamos nossa
atenção a um interlocutor específico
ou nos esforçamos para fixar nossos olhos num livro
ou filme, tudo aquilo que constitui pano de fundo em nossa
ação, vai sendo registrado em nossos "bancos
de dados", nossos cérebros.
É
por isso que nos lembramos de detalhes dos locais onde vivemos,
estudamos, trabalhamos ou nos divertimos. Isso explica por
que nós não esquecemos das roupas de alguns
de nossos professores, da cortina da casa que alugávamos
para passar o verão na praia, das cores espalhafatosas
que algumas de nossas tias usavam para pintar suas unhas ou
de certos outdoors para os quais nem parecíamos estar
olhando.
Apesar
disso, tenho que reconhecer que somos limitados e que pouco
sabemos do mundo em que vivemos. Mesmo adicionando os conhecimentos
que nos são proporcionados pela literatura, pelas artes
plásticas, pela televisão, pela internet, pelo
teatro, por jornais (e revistas) e pelo cinema, tenho que
continuar afirmando nossa pequeneza diante do imenso montante
de informações e acontecimentos que circulam
e ocorrem diariamente no mundo (lembrem que não me
refiro apenas ao que está aparecendo nos noticiários,
mas a tudo aquilo que acontece na vida de cada um dos bilhões
de habitantes desse planeta).
Isso
ficou ainda mais claro para mim depois de ter visto o emocionante
filme "Regras da Vida", de Lasse Hallström.
Por
mais que já tenha ido a instituições
que prestam assistência a crianças órfãs;
mesmo contribuindo ocasionalmente com campanhas que auxiliam
pessoas que passam por imensas carências materiais;
ainda que acompanhe pela imprensa e pela internet as campanhas
promovidas por instituições governamentais,
pela ONU ou mesmo por ONGs e procure ajudar dentro das limitações
que nos são impostas pelos compromissos profissionais
e pessoais; tenho que admitir que não seria capaz de
esclarecer exatamente como é a vida de uma criança
que é criada num orfanato.
Tampouco
seria capaz de lhes dizer exatamente como se deve colher uma
maçã ou estipular de que qualidade é
a dita fruta. Nunca tive, igualmente, a oportunidade de pescar
lagosta (felizmente, entretanto, já pude saborear essa
deliciosa iguaria). Não sei como fazer um parto e,
por isso, acho que não sou capaz de ajudar numa circunstância
como essa. São experiências que não fazem
parte de tudo aquilo que já pude vivenciar ao longo
de minha existência (assim como, posso assegurar, há
muitas coisas vividas por mim e por cada um de nós
em particular, que jamais serão vividas ou conhecidas
senão pelas poucas pessoas que estiveram conosco).
Pude
ver como essas coisas ocorrem no filme estrelado por Tobey
Maguire, Charlize Theron e pelo incansável e irrepreensível,
Michael Caine. Confiram!
O Filme

Homer
Wells (Tobey Maguire, conhecidíssimo mundialmente por
ter encarnado o Homem Aranha no cinema) é uma criança
que não parece destinada a ter um futuro dos mais felizes.
É, para princípio de conversa, uma criança
indesejada, largada por sua mãe na clínica de
um orfanato que socorre mulheres que ficam grávidas
e não querem ter seus filhos.
Por
duas vezes, quando ainda era um bebê e uma criança
em seus primeiros anos de vida, foi adotado e devolvido ao
orfanato. Porém, caiu nas graças do médico,
Dr. Wilbur Larch (Michael Caine em mais uma soberba atuação),
e das enfermeiras. Acabou sendo criado no orfanato e teve
um ótimo professor de medicina no Dr. Larch. Aprendeu
as técnicas para parto e pôde presenciar (sem
que viesse a participar), de abortos promovidos a pedido das
jovens mulheres (que preferiam ver o diabo a ter esses filhos).
Vivia
encerrado no orfanato, onde continuava a dividir seu quarto
com as outras crianças. Dividia outras funções
com o médico e as enfermeiras. Contava histórias
e ajudava na projeção do único filme
disponível na instituição, uma cópia
defeituosa do clássico "King Kong". Escutava
todas as noites, quando Dr. Larch ia dormir, um afetuoso comprimento
de boa noite:- "Boa noite, príncipes do Maine.
Boa noite, reis da Nova Inglaterra".
Teve
a oportunidade de conhecer um jovem casal que foi ao orfanato
para a realização de um aborto antes que se
completasse o terceiro mês de gestação.
Pediu a eles uma carona para conhecer o mundo. A partir desse
momento, sua vida mudou muito. Deixou de ser mais um dos órfãos
ou o assistente do Dr. Larch e foi vivenciar experiências
inéditas para ele.
Homer
conheceu o mar. Tornou-se um colhedor de maçãs
(e como aprendeu rápido esse trabalho). Viu como se
pescavam lagostas e pode comê-las. Viveu entre pessoas
simples, num galpão destinado a trabalhadores temporários
especializados na colheita de maçãs. Presenciou
as desgraças patrocinadas numa guerra. Apaixonou-se
e teve que decidir entre ficar e voltar, entre seus novos
amigos e seus velhos e estimados companheiros de orfanato,...
Divirta-se
e encante-se com essa bela história!
Aos
Professores

1-
Incentivem seus alunos a olharem com mais atenção
para o mundo e para as coisas que acontecem ao redor deles.
Peça-lhes que olhem mais para os outros, para que aprendam
mais com aquilo que é a vivência de outras pessoas.
Olhamos muito para nós mesmos, para nossos problemas,
para o nosso cotidiano. Perdemos um pouco de nossa capacidade
de sermos mais solidários, mais compreensivos; queremos
falar e impor nossos pensamentos, não sabemos ouvir
e aceitar o que os outros têm a nos dizer.
2-
Como temos agido dessa maneira com extrema freqüência,
achamos que esse comportamento é natural e aceitável.
Temos por isso, medo dos outros, das atitudes dos outros,
achamos que todo mundo quer nos passar para trás (o
que não deixa de ser verdade enquanto não mudarmos
nossas atitudes). Reina uma grande desconfiança, que
polui o ambiente e não nos deixa crescer, não
nos permite melhorar.
3-
Toda e qualquer mudança passa por uma reavaliação
de nossos parâmetros, de nossos comportamentos e, em
muitos casos, a reformulação de nossa filosofia
e ética de vida. Trata-se de uma tarefa hercúlea,
que exige músculos e, acima de tudo, inteligência
e sensibilidade. Os professores podem e devem auxiliar seus
alunos nessa grande jornada. O primeiro passo tem que ser
dado pelos próprios mestres, são os primeiros
que devem se reavaliar.
4-
Não há receitas de bolo que possam nos auxiliar
nessas mudanças. Devem imperar mudanças que
sejam feitas de forma a privilegiar o respeito, a consideração,
o trabalho sério, a dignidade humana, a fraternidade
e o amor entre os homens. Parece pouco, mas muitas pessoas
já foram, literalmente, crucificadas por isso...
João Luís Almeida Machado
Mestre em Educação, Arte e História
da Cultura (Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São
Paulo); Professor universitário atuando na Faculdade
Senac em Campos do Jordão; Professor de Ensino Médio
e Fundamental em Caçapava, SP; escreve semanalmente
na coluna Cinema e Educação do Portal Planeta
Educação
Envie e-mails de comentários, sugestões e críticas
para:
profjoaoluis@planetaeducacao.com.br
Ficha Técnica
Regras da Vida
(The Cider House Rules)
País/Ano de produção:- EUA,
1999
Duração/Gênero:- 130
min., Drama
Disponível em VHS e DVD
Direção de Lasse Hallström
Roteiro de John Irving
Elenco:- Tobey Maguire, Michael Caine, Charlize
Theron, Delroy Lindo, Paul Rudd, Jane Alexander, Kathy Baker,
Kate Nelligan, Kieran Culkin.
Links
-
http://e-pipoca.cidadeinternet.com.br/filmes_zoom.cfm?id=148
- http://www.adorocinema.com/filmes/regras-da-vida/regras-da-vida.htm
- http://www.cineguia.com.br/index.shtml?cod_filme=CNA0063&rg=0
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