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O
que não se deve apagar da memória
"Sobreviventes do Holocausto"

Ao
final da Segunda Guerra Mundial, tropas inglesas
e norte-americanas registraram
com horror, a existência de enormes valas
coletivas onde eram enterrados e escondidos
os corpos das vítimas das atrocidades cometidas
pelos nazistas alemães.
É
praticamente impossível assistir ao documentário
"Sobreviventes do Holocausto" e não
se sensibilizar com toda a dor e sofrimento sentidos
pelos ex-prisioneiros judeus dos campos de concentração
e extermínio da Alemanha nazista. Trata-se,
sem dúvida alguma, de um documento valioso
para os estudiosos da história, especialmente
para aqueles que tem se dedicado a uma análise
mais cuidadosa da ascensão, apogeu e ocaso
dos regimes nazista e fascista na Alemanha e na
Itália no período pós-1ª
Guerra Mundial (1920-1945).
Resultado
de uma iniciativa grandiosa da Fundação
"Survivors of the Shoah" (traduzido literalmente
como "Sobreviventes do Holocausto"; destacando-se
que a palavra Shoah vem do hebraico, língua
original dos judeus), organização
criada no período em que era produzido o
filme "A Lista de Schindler", de Steven
Spielberg. Faz-se necessário destacar que
a fundação surgiu a partir dos esforços
do próprio cineasta, que se empenhou para
a constituição de grupos de pesquisa
que pudessem colher depoimentos de sobreviventes
ao redor do mundo.
Foram
conseguidos mais de 50 mil depoimentos, todos eles
filmados e/ou gravados em áudio. O interesse
maior era fazer com que os estudantes percebessem
a gravidade do ocorrido a partir de declarações
dadas por pessoas que estiveram nos campos de concentração
e que, muitas vezes por verdadeiro milagre, conseguiram
sobreviver. É notável como a lembrança
de memórias tão dolorosas continue
a provocar, ainda que mais de 50 anos depois do
ocorrido, lágrimas nos depoentes (e no público).
Totalmente
compreensível, entretanto, em vista da desmedida
violência aplicada pelos carrascos nazistas
a todos aqueles que tiveram a infelicidade de viver
o inferno na Alemanha hitlerista.
Para
que possamos entender corretamente o que significou
o Holocausto, faz-se necessária a compreensão
da palavra, por isso, recorremos a definição
dada no dicionário Aurélio:
holocausto
. [Do gr. holókauston, 'sacrifício
em que a vítima era queimada inteira',
pelo lat. tard. holocaustu.] S. m. 1. Entre
os antigos hebreus, sacrifício em
que se queimavam inteiramente as vítimas;
imolação. 2. A vítima
assim sacrificada. 3. P. ext. Sacrifício,
expiação. 4. Fig. Abstração
da vontade própria para satisfazer
a de outrem. 5. Restr. A execução,
em massa, de judeus e/ou de outras minorias
perseguidas, como ciganos, homossexuais,
etc., durante o nazismo. [Com cap. e antecedido
do artigo def., nesta acepç.] |
Percebemos então que há uma referência
direta ao ocorrido durante o período em que
vigorou o nazismo na Alemanha; a palavra holocausto
é, também apresentada, como sinônimo
de sacrifício, imolação, expiação
e definida como momento em que as vítimas
eram queimadas (dentro de outro contexto, na época
dos antigos hebreus). Há, certamente, uma
relação entre os acontecimentos da
Antiguidade e aquilo que ocorreu durante o predomínio
nazista na Alemanha.
Essa
relação pode ser percebida, certamente,
na idéia de corpos se queimando, de violências
sofridas e de expiações
(expiação . [Do lat. expiatione.]
S. f. 1. Ato ou efeito de expiar (1); castigo, penitência,
cumprimento de pena). Seria insensato não
atentar o leitor de que se tratam de punições
aplicadas dentro de conjunturas completamente diversas,
aproximadas somente no que tange a violência,
as punições e aos castigos corporais
impostos as vitimas. Além disso, ressalte-se
que há uma evidente desproporção
no tocante a quantidade de vítimas e, também,
nos fatores de motivação dos dois
períodos.
Voltando
ao mais (infelizmente) célebre dos holocaustos,
vale também localizar o leitor quanto ao
fenômeno nazista, para isso, conto com o auxílio
da Enciclopédia da Folha, onde pude encontrar
a seguinte explicação:
Nazismo
- Ideologia do Partido Nacional-Socialista
dos Trabalhadores da Alemanha, que governou
a Alemanha sob Adolf Hitler de 1933 a 1945.
Combinava duas doutrinas essenciais: a
crença fascista na unidade nacional,
garantida por um estado unipartidário
no qual o líder supremo personifica
o desejo nacional, e a crença racista
na superioridade do povo ariano, que sustentava
que as outras raças (como os eslavos
e judeus) deveriam ser subjugadas -- e,
caso necessário, exterminadas. A
derrota de Hitler e a reação
mundial à sua política genocida
levaram ao virtual desaparecimento do nazismo
das principais correntes políticas.
Ele mantém, no entanto, influência
em determinados grupos marginais de extrema
direita. |
A
partir dessa definição começamos
a entender os motivos que levaram os nazistas a
empreender uma das mais odiosas e arrasadoras políticas
de perseguição de todos os tempos.
Especialmente porque o Nazismo é apresentado
como uma crença racista, que pregava a superioridade
dos arianos e que tentava submeter os demais grupos
(identificados como inferiores) a seus interesses
e necessidades. Tudo isso, associando a exploração
dos demais grupos étnicos à necessidade
de expansão e enriquecimento da Alemanha
e do regime nazista. O pior de tudo é constatar
que, na definição, ao seu final, destaca-se
que o nazismo continua presente no mundo, mesmo
que, teoricamente, em grupos marginais de extrema
direita.
Como
lidar com isso? De que forma extirpar, por completo,
o nazismo e suas variações desse planeta?
A preservação da memória e
sua divulgação a partir de projetos
como o que foi desenvolvido pela Fundação
"Sobreviventes do Holocausto" constituem
uma das principais formas de evitar que a chaga
nazista retorne e volte a ter força. Pode
parecer pouco, mas se pudermos contribuir pregando
em favor da tolerância, da compreensão
e da paz entre os povos...
As ações de Adolf Hitler promoveram
o surgimento dos guetos, dos campos de concentração
e posteriormente, dos campos de extermínio
nazistas. Nesses campos as famílias eram
divididas, indo as mulheres para determinados setores
e os homens para outros. Os que eram considerados
fisicamente debilitados eram mortos com maior rapidez
para evitar gastos desnecessários; os demais
eram explorados como escravos até o fim de
suas forças.
O Filme
Realizado
dentro de técnicas de filmagem convencionais,
o documentário não parece, por sua
própria estrutura narrativa, ser capaz de
envolver os espectadores; há, no entanto
que se ressaltar que o tema, que ganha vida a cada
um dos vários depoimentos apresentados na
tela, prende os espectadores e os coloca em contato
direto com um dos maiores crimes de todos os tempos.
Prisioneiros
queimados vivos nos fornos crematórios, famílias
separadas e destruídas pela insensatez e
brutalidade dos carrascos nazistas, prisioneiros
que tinham que se manter com porções
reduzidíssimas de alimentos para não
morrerem de fome, homens e mulheres que tinham que
cavar suas próprias covas, abusos sexuais,
experimentos "científicos" que
se mostravam apenas como formas de punir e castigar
cruelmente os prisioneiros,...
São
tantas as atrocidades cometidas pelos nazistas alemães
que se torna difícil resumi-las em algumas
linhas. Os depoimentos contidos no documentário
expõem parte das dificuldades vividas pelos
prisioneiros, seria impossível prever até
que ponto chegaram, mesmo que pudéssemos
dispor de declarações de todos os
sobreviventes existentes no mundo, até porque,
se apagaram com as vítimas alguns dos piores
e mais atrozes métodos de extermínio
e tortura empregados pelos seguidores de Hitler.
As
histórias narradas referem-se não
apenas ao período dos campos de concentração
(e posteriormente, os de extermínio em massa);
iniciam-se com a subida de Hitler ao poder em 1933,
deixando bem claro que desde o princípio,
o "führer" pretendia seguir a risca
o que havia escrito em seu livro "Mein Kampf"
(Minha Luta), onde podemos encontrar os preceitos
essenciais da ideologia nazista.
Depois
de assistir ao filme, muito provavelmente você
acabará se identificando com um dos depoentes,
que ao se recordar de um trágico evento do
qual participara e que resultara na morte de um
judeu no forno crematório, dizia que jamais
poderia se esquecer dos gritos dados pelo pobre
homem colocado vivo no calor das chamas. Nós
também saímos chamuscados e parecemos
ouvir, várias vezes, o derradeiro grito de
dor e sofrimento das vítimas...
A
profusão de imagens do holocausto e da 2ª
Guerra Mundial estimularam o cineasta norte-americano
Steven Spielberg a produzir uma de suas maiores
realizações, o premiado "A Lista
de Schindler" com tamanho realismo e envolvimento
que redundaram no projeto "Sobreviventes do
Holocausto", outra importante contribuição
para a luta contra a intolerância.
Aos Professores
1-
Um ótimo trabalho poderia ser feito
com a pesquisa de imagens e a composição
de um histórico da perseguição
aos judeus e demais minorias hostilizadas pelos
nazistas. Um conjunto de painéis, trabalhados
artisticamente como reproduções (desenhos,
colagens, arte digital, mosaicos,...), com a definição
de legendas produzidas a partir de pesquisa em bibliografia
poderia ser de grande valor para sensibilizar os
alunos e também o restante da escola a partir
de uma exposição.
2-
A leitura do livro "O Diário de Anne
Frank", um verdadeiro e precioso clássico
que nos confronta com as dificuldades vividas pelos
judeus durante o período nazista, seguido
de uma comparação com o trabalho dos
painéis e com os depoimentos visualizados
no documentário "Sobreviventes do Holocausto"
poderia firmar ainda mais uma idéia quanto
ao fenômeno nazista e suas repercussões.
3-
Pesquisas quanto às origens do judaísmo
e sua história, buscando entender os motivos
que fizeram com que eles se espalharam pelo mundo
nos permite entender porque se tornaram parias na
Alemanha e sofreram tão intensa perseguição.
4-
A busca por depoimentos pode continuar a ser feita
pelos alunos. Caso vivam em cidades grandes, onde
a comunidade judaica seja expressiva (como São
Paulo), a pesquisa de campo, com entrevistas é
a mais indicada. Se não for possível
ir atrás da informação viva,
porque não utilizar a internet e conversar
on-line com pessoas que tenham parentes ou que tenham
vivido essa terrível experiência?
João Luís Almeida Machado
Mestre em Educação,
Arte e História da Cultura (Universidade
Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo); Professor
universitário atuando na Faculdade Senac
em Campos do Jordão; Professor de Ensino
Médio e Fundamental em Caçapava, SP;
escreve semanalmente na coluna Cinema e Educação
do Portal Planeta Educação
Envie e-mails de comentários, sugestões
e críticas para:
profjoaoluis@planetaeducacao.com.br
Ficha Técnica
Sobreviventes do Holocausto
(Survivors of the Holocaust)
País/Ano de produção:-
EUA, 1996
Duração/Gênero:-
70 min., Documentário
Disponível em VHS
Direção de Allan
Holzman
Produtores: Steven Spielberg, June
Beallor, James Moll e Jacoba Atlas.
Links
- http://www.estado.estadao.com.br/edicao/pano/96/03/29/provs292.html
- http://www.planetaeducacao.com.br/cinema/lista_schindler.asp
(em
inglês)
- http://www.imdb.com/title/tt0117792/
- http://www.vhf.org/
(página da Fundação Sobreviventes
do Holocausto) |