| Ele
fez de suas vidas algo extraordinário
"Sociedade dos Poetas Mortos"

O professor John Keating entra na sala de aula assobiando,
é o primeiro dia do ano letivo, passa pelos alunos
e desperta olhares curiosos, encaminha-se para uma outra porta,
de saída para o corredor, todos seus pupilos ainda
estão de sobreaviso, curiosos e sem saber o que fazer.
Keating olha para eles e faz um sinal, pedindo que os estudantes
o acompanhem. Todos chegam a uma sala de troféus da
escola, onde ao fundo podem ser vistas fotos de alunos, remontando
ao início do século, fazendo-nos voltar ao começo
das atividades da escola. Pede-se silêncio e, que a
atenção de todos volte-se para os rostos de
todos aqueles garotos que freqüentaram aquela tradicional
instituição de ensino em outros tempos.
O
que aconteceu com eles? Para onde foram? O que fizeram de
suas vidas? Suas vidas valeram a pena? Perguntas como essas
são lançadas aos alunos. Muitos ainda sem saber
o que estariam fazendo ali, afinal, não era para estarmos
estudando literatura inglesa e norte-americana?
Desconforto
e desconserto. O personagem do professor Keating, vivido pelo
eclético e versátil (além de extremamente
talentoso) Robin Williams, conseguiu o que queria. Deixou
seus alunos em dúvida. Iniciou seu relacionamento com
eles tentando demovê-los de sua passividade, provocando-os
a uma reflexão sobre a vida. Afinal, será que
estamos fazendo valer nossa existência? "Carpe
Diem", ou seja, aproveitem suas vidas, passou a ser como
uma regra de ouro a partir de então para alguns de
seus alunos, afinal, vejam o exemplo daqueles que já
estiveram por aqui (retratados nessas fotografias esmaecidas,
amareladas) e pensem se vocês querem que o tempo passe
e vocês venham a se tornar "comida de vermes"
em seus caixões sem que nada do que tenham feito por
aqui tenha repercutido (como, acreditem, muitos desses jovens
das fotografias o fizeram, deixando passar a vida sem perceber
a riqueza contida na mesma).
Para
fazer com que suas existências tenham valor vocês
devem viver com intensidade cada dia que lhes é dado,
cada momento que lhes é concedido, cada experiência
a qual tem acesso, diz com sabedoria inconteste o ilustre
mestre Keating. Por isso, repete, "Carpe Diem".
"Sociedade
dos Poetas Mortos" foi, em seu ano de lançamento
(1989), candidato ao Oscar em várias categorias, levou
para casa o prêmio de melhor roteiro (com enorme justiça
dado a Tom Schulman) e, para a decepção de muitos
(entre os quais me incluo), não foi agraciado como
a melhor produção daquela temporada. Uma injustiça
irreparável tendo em vista a qualidade do roteiro,
a mão sensível do diretor Peter Weir, a atuação
de Robin Williams e do jovem elenco que depois ganharia notoriedade
em outras produções pelas suas grandes habilidades
dramáticas (principalmente Robert Sean Leonard e Ethan
Hawke) e a fotografia excepcional com locações
lindíssimas.

Como
já se viu, trata-se da história de um grupo
de jovens alunos que tem o privilégio de trabalhar
com um professor visionário, de atitudes inesperadas,
que os instigou a pensar por conta própria (o que lhe
rende críticas dos colegas e da instituição)
e que arrebatou-lhes os corações. Por ter sido
aluno dessa escola, Keating teve sua vida acadêmica
retratada nos famosos "Year books" das "high
schools" norte-americanas e, entre as informações
sobre esse nobre aluno, consta uma a respeito de ter participado
de uma tal "sociedade dos poetas mortos". Essa informação
desperta a curiosidade dos alunos, que lhe pedem informações
acerca das atividades desse grupo. Informados de que se tratava
de uma turma de alunos que se reunia para ler poesias e aproveitar
tudo aquilo que aqueles grandes escritores tinham produzido
para seu próprio prazer e engrandecimento, resolvem
fazer com que a "Sociedade" ressurja.
Não
é só a sociedade que retoma suas atividades,
todos os alunos envolvidos se vêem as voltas com uma
verdadeira renovação em suas existências,
todos encontram novos interesses e vocações,
todos parecem ter despertado de um sono profundo, de uma letargia
tão envolvente que parecia tragar-lhes a juventude
sem possibilidade de volta.
O
professor Keating deu a eles uma oportunidade sem igual e,
ao mesmo tempo, fez com que os estudantes fossem se encantando
com a literatura (que nos fala daquilo que é essencial,
verdadeiramente fundamental em nossas vidas, o amor, a amizade,
a paz, a dor e as desilusões; segundo Keating, estudar
para que nos tornemos advogados, engenheiros ou médicos
é importante, mas o que torna nossas existências
válidas tem a ver com o espírito, com o prazer
e, a poesia, a literatura, são fontes riquíssimas
nesses quesitos).
Ao
lidarmos com adolescentes muitas vezes, por conta do excesso
de atividades, dos programas extensos que temos que cumprir,
das avaliações ou do nosso próprio descaso,
deixamos de vê-los como pessoas em formação,
que alimentam sonhos e fantasias (que muitos de nós
parecemos ter esquecido lá atrás, no tempo de
nossas próprias juventudes), que planejam verdadeiras
revoluções (dizem que quando temos 16 anos queremos
incendiar o mundo e que, ao chegarmos a idade adulta, nos
tornamos bombeiros; a maturidade é saudável,
no entanto, devo dizer que preservar alguns focos de incêndio
acesos em nossos corações e mentes também
é fundamental. Sonhar é preciso!) e que, necessitam
desesperadamente de nosso apoio e orientação,
de nosso carinho e atenção.

Keating
incorpora nosso idealismo, nossa pureza de princípios.
Os alunos simbolizam a força e a vitalidade do novo,
dos elementos de transformação que esperamos
venham a transformar esse mundo num espaço muito mais
justo, mais equilibrado. Há no entanto, os choques
com as forças conservadoras, com a opressão
da ordem que não aceita desequilíbrios (mesmo
sabendo-se que eles trarão recompensas e melhorias).
Nesses confrontos nem sempre o que está por vir é
o que gostaríamos que acontecesse.
"Sociedade
dos Poetas Mortos" é um filme imperdível
para quem ama a educação, para quem alimenta
ideais de reformular, para quem tem um profundo respeito e
preocupação com essa juventude com que trabalhamos.
Discutir esses temas todos, reformular as nossas práticas,
alimentar nossos sonhos, rever posturas e condutas e, principalmente,
olhar para nós mesmos e para nossos alunos em busca
daquilo que nos faça sentir orgulho do que fizemos
em nossas vidas, vale o ingresso. Boa diversão e "Carpe
Diem"!
João
Luís Almeida Machado
Mestre em Educação, Arte e História
da Cultura (Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São
Paulo); Professor universitário atuando na Faculdade
Senac em Campos do Jordão; Professor de Ensino Médio
e Fundamental em Caçapava, SP; escreve semanalmente
na coluna Cinema e Educação do Portal Planeta
Educação (www.planetaeducacao.com.br).
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e-mails Comentários, sugestões e críticas
para:
profjoaoluis@planetaeducacao.com.br
Ficha Técnica:
Sociedade dos Poetas Mortos
(Deads Poets Society)
País/Ano de produção:- EUA,
1989
Duração/Gênero:- 128
min., drama
Distribuição:- Abril Vídeo
Direção de Peter Weir
Elenco:- Robin Williams, Robert Sean Leonard,
Ethan Hawke e Josh Charles
Links:
-
http://us.imdb.com/Title?0097165
(em inglês)
- http://www.cineguia.com.br/index.shtml?cod_filme=VNA1163&rg=0
- www.adorocinema.com/filmes/sociedade-dos-poetas-mortos/sociedade-dos-poetas-mortos.htm
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