| Imortal
e atualíssimo
"Tempos Modernos"

A palavra "Clássico" carrega em si o conceito
daquilo que é eterno, que possui uma série de
características que o tornam imortal, entre o que poderíamos
considerar como sendo básico em termos de apresentação
num produto cultural que carrega esse "rótulo"
estariam a linguagem (inovadora, elaborada, provocativa, sedimentada,
que atinge a todos, que está sempre em dia mesmo muito
depois de produzida), a forma (esteticamente renovadora, revolucionária,
que fala e atinge todos os sentidos) e o conteúdo (idéias,
conceitos, propostas, teses - todas a nos fazer pensar, refletir).
Um
filme como "Tempos Modernos", de Charles Chaplin
( que por si só já pode ser considerado um clássico
pois conseguiu ao longo de toda a sua produção
realçar a linguagem, a estética, o formato e
o conteúdo das produções cinematográficas,
sendo considerado por muitos como um dos maiores, senão
o principal, entre todos os cineastas do século XX)
se ajusta como uma luva no conceito de clássico.
Há
várias seqüências que são geniais
desde o princípio do filme. Entretanto, as que ocorrem
dentro das fábricas constituem-se em trechos antológicos,
que se não estão, deveriam ser colocados entre
os mais importantes e significativos da história do
cinema mundial, como por exemplo, o trecho em que Carlitos
(o personagem símbolo das criações de
Chaplin) é engolido pelas engrenagens das máquinas
da empresa onde trabalha como operário ou, numa etapa
posterior da história, quando um mecânico (com
o qual trabalha Carlitos) fica preso no meio do maquinário.
Há
uma simbologia específica que permeia tais momentos
do filme, como no caso da primeira seqüência descrita,
representativa no sentido de apresentar a crítica chapliniana
em relação a modernidade, a forma como estamos
lidando com o avanço da tecnologia, o modo como estamos
sendo integrados as engrenagens dentro de um sistema, como
se fossemos também molas que complementam e articulam
o movimento das máquinas e de todo processo produtivo.
Críticas como essa renderam muitos problemas a Chaplin,
que inclusive foi perseguido e obrigado a sair dos Estados
Unidos durante um longo período de sua vida (os problemas
dele com as autoridades norte-americanas aumentaram ainda
mais depois do filme "O Grande Ditador", outra de
suas obras-primas).

Na
parte em que o mecânico fica retido entre rolos, parafusos
e demais mecanismos que movimentam a fábrica, a ironia
se dá por conta das atitudes de Carlitos no momento
em que é acionado o apito que sinaliza a hora do almoço,
mesmo diante da situação de dificuldade vivida
por seu imediato superior, o operário vivido por Chaplin
deixa de tentar auxiliá-lo em sua tentativa de sair
da enrascada em que se encontra, pega sua marmita e começa
a comer. As reclamações do mecânico-chefe
são encaradas pelo operário como sendo provenientes
da fome e da vontade de almoçar do mesmo! O que poderia
ser considerado como mais um dos vários momentos cômicos
do longa-metragem é mais uma crítica social,
relacionada a sujeição do homem contemporâneo
a escravidão do relógio, com seus horários
todos pré-estabelecidos, com seu almoço ou seu
jantar atrelados a determinados momentos específicos
do dia, mesmo que em alguns dias, não estejamos com
fome; com seu lazer estipulado para os finais de semana ou
para as folgas alternadas das escalas e turnos estabelecidos
pelas empresas; com suas férias tendo que ser vividas
no prazo que for dado pelas companhias e assim vai, com os
ponteiros oprimindo a espontaneidade e a criatividade dos
homens.
No
início do filme, quando um grande relógio nos
mostra a hora da entrada dos operários na fábrica,
os enquadramentos se deslocam rapidamente para um amontoado
de homens apressados, dirigindo-se a seus empregos e, num
rápido corte e edição, esses trabalhadores
foram substituídos por ovelhas e carneiros, numa alusão
ao fato de que estamos trafegando nesse mundo sem uma clara
definição de nossos rumos, seguindo as orientações
de "pastores" que não conhecemos em grande
parte dos casos.
Em
variados momentos, o filme nos apresenta possibilidades de
refletir sobre situações relativas ao trabalho
no mundo industrial e as relações entre patrões
e empregados. Uma dessas situações apresentadas
nos mostra Carlitos desempregado, vagando pelas ruas, próximo
a uma esquina, quando um caminhão ao fazer a curva,
deixa cair uma bandeira de segurança atrelada a carga
(que supomos ser vermelha, tendo em vista a prática
adotada em casos como o descrito). Imediatamente ele pega
a bandeira e faz sinais para o caminhoneiro tentando avisá-lo
da perda de tal objeto e começa a caminhar na direção
do veículo, nesse exato instante, uma passeata de trabalhadores
em greve vira a esquina e se locomove na mesma direção
de Carlitos, que por ter em suas mãos uma bandeira
vermelha e estar a frente dos demais, pode ser entendido como
líder desse movimento de operários. Entra em
cena a polícia que o acaba prendendo como responsável
pela agitação.
Outros
segmentos como o da máquina que alimenta os operários
sem que eles tenham que parar de trabalhar, o período
de trabalho de Carlitos numa loja de departamentos ou seu
período de desemprego são ilustrativos das dificuldades
do mundo capitalista industrializado e ainda nos permitem
visualizar os sérios problemas acarretados pela Crise
de 1929 na economia norte-americana e mundial.
Uma verdadeira aula de cinema que nos dá possibilidades
de discutir situações do início do século
XX que são extremamente atuais, como a crítica
ao sistema vigente (que recentemente foi trabalhada no futurista
e sombrio mega-sucesso "Matrix"), as relações
entre os homens e a tecnologia, a questão do tempo
numa sociedade que se move com extrema rapidez e a própria
natureza humana (afinal de contas, o que estamos fazendo por
aqui? Por que temos que nos mover com tanta pressa? O que
realmente tem valor nessa nossa breve existência nesse
planeta?).

Como
não poderia deixar de ser, Chaplin nos faz rir e nos
faz chorar, alimenta nossas emoções num vai-e-vem
constante, como se estivéssemos numa autêntica
montanha-russa (e das melhores), parece estar numa constante
busca pelo nosso lado mais humano, parece estar tentando nos
estimular a viver com maior intensidade essa nossa humanidade.
Essencial.
João Luís Almeida Machado
Mestre em Educação, Arte e História
da Cultura (Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São
Paulo); Professor universitário atuando na Faculdade
Senac em Campos do Jordão; Professor de Ensino Médio
e Fundamental em Caçapava, SP; escreve semanalmente
na coluna Cinema e Educação do Portal Planeta
Educação (www.planetaeducacao.com.br).
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e-mails Comentários, sugestões e críticas
para:
profjoaoluis@planetaeducacao.com.br
Ficha Técnica
Tempos Modernos
(Modern Times)
País/Ano de produção:
EUA, 1936
Duração/Gênero: 87 min.,
comédia
Distribuição: Continental Vídeo
Direção de Charles Chaplin
Elenco: Charles Chaplin, Paulette Goddard,
Tiny Sandford.
Links
http://us.imdb.com/Title?0027977
(em inglês)
http://www.cineguia.com.br/index.shtml?cod_filme=CNA2322&rg=0
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