| 'O
Amor nos tempos da Cólera'
"A Vida é Bela"

Quando
Begnini pulou, vibrando pela conquista do Oscar conquistado
por seu filme "A Vida é Bela", os brasileiros
sentiram-se um pouco frustrados, afinal de contas entre os
derrotados daquela noite encontrava-se o premiadíssimo
filme nacional "Central do Brasil". Alguns de nós
sentimos uma certa desolação e alimentamos um
pouco de raiva daquele italiano sorridente, como se tivessemos
perdido a final de uma Copa do Mundo.
Esse
sentimento de perda (agravado pelo fato de termos concorrido
e perdido em anos anteriores com "O Quatrilho" e
"O que é isso, companheiro?") fez com que
"A Vida é Bela" fosse durante algum tempo,
desconsiderado pelos brasileiros (comentários como
"não foi merecido", "o Oscar privilegia
aspectos comerciais" ou "o lobby a favor do filme
de Begnini foi mais poderoso" tornaram-se comuns durantes
os dias que se seguiram a premiação), o que,
diga-se de passagem, impediu que muitas pessoas viessem a
assistir a essa grande realização do cinema
italiano.
Há que se desconsiderar as críticas que se fazem
a Roberto Begnini como ator já que ele interpreta a
sí mesmo; ele parece ser uma caricatura de alguém
quando na verdade está apenas sendo ele próprio.
Não que isso tire os méritos desse trabalho
ou de outros realizados ou protagonizados por esse ator e
diretor italiano, pelo contrário, Begnini é
acima de tudo muito engraçado e, suas peripécias
interpretativas dão aos filmes nos quais trabalha um
sabor próprio das grandes comédias européias,
fazendo com que ele ingresse no clube dos atores que se aproximam
do estilo do mestre Charles Chaplin (guardadas as devidas
proporções no que se refere a obra, época,
contexto e capacidade criativa de cada um deles).
O maior mérito de "A Vida é Bela"
reside em sua mensagem lírica, muito particular ao
cinema italiano através da obra de muitos cineastas
(vide neo-realismo italiano dos anos 1950-1960 ou a obra de
diretores do porte de Fellini). A história da família
de judeus separados pela bárbarie promovida mundo afora
pelos nazistas alemães e pelos fascistas italianos
poderia, a princípio, parecer-se com a de muitos outros
filmes produzidos antes ou depois de "A Vida é
Bela", no entanto, o realce dado pelo diretor a relação
forte que une pai e filho tocam o coração de
todos, mesmo daqueles mais duros ou insensíveis.
Me lembro com clareza da situação em que fiquei
quando fui ao cinema assistir esse filme, sentado em minha
cadeira por no mínimo mais cinco minutos para me recuperar
de todo sentimento e emoção transmitidos pelo
filme para o público, no que fui acompanhado por várias
outras pessoas (inclusive minha esposa) que por lá
se encontravam, paralisadas diante de um espetáculo
doloroso e encantador.
O
filme conseguiu tocar num tema espinhoso sem provocar grandes
convulsões pois apesar de apresentar o aprisionamento
e a vida de Guido (Begnini) e Giosué (o menino Giorgio
Cantarini) num campo de concentração, em momento
algum é ofensivo ou agride o espectador com imagens
degradantes de violências praticadas contra os prisioneiros
e, além disso, satiriza os oficiais alemães
e italianos em algumas ocasiões (o que motivou inúmeras
críticas por parte de especialistas em história,
que acharam que a forma suavizada de apresentação
dos campos de concentração na Itália
poderiam confundir uma boa parcela do público).

Esse filme não tinha a intenção de chocar
o público, trazendo a tona denúncias ou incorporando
imagens fortes ao cotidiano das pessoas (o que aconteceu,
por exemplo, com "A Lista de Schindler"), tentando
fazer com que elas se horrorizassem com os acontecimentos
daquela época. Um dos ingredientes principais desse
longa-metragem consistia em falar sobre a guerra e sobre os
dissabores de um conflito como esse, isso é perceptível
ao longo das quase 2 horas de projeção, porém,
acima de tudo isso estava a questão da família.
O
esforço feito pela mãe Dora (Nicoletta Braschi,
esposa de Begnini na vida real), se encaminhando para os trens
que estavam enviando prisioneiros para o campo de concentração,
sem que tivesse sido presa ou forçada, apenas para
que pudesse ficar próxima do marido e do filho que
para esse destino tinham sido enviados, constitui uma sequência
forte, de aguerrimento, de solidariedade e de muito amor.
As formas encontradas por Guido para iludir o filho sobre
os propósitos que os levaram a tal infortúnio,
mascarando a realidade infeliz na qual estavam inseridos e
preservar a inocência e a lucidez do menino são
extremamente representativas de sentimentos muito fortes,
de laços indissolúveis e de uma marcante proximidade
que deveria sedimentar a relação entre todos
os pais, mães e seus filhos.
"A
Vida é Bela" é um filme contextualizado
na Itália da 2ª Guerra Mundial que nos traz uma
mensagem de fé e esperança no ser humano, apesar
de toda a destruição ao redor dos protagonistas.
Diverte, embala os sonhos, faz-nos mais próximos de
nossos filhos, acalenta um sonho feliz de vida familiar e
nos faz chorar. Nisso lembra muito Chaplin, nessa "montanha-russa"
ou "Carrossel" de emoções aliada a
pantomina do personagem de Begnini, que tem uma forte reminiscência
chapliniana.
Assistir é garantia de fortes emoções.
Na escola significa falar de valores que estão em descrédito
ou caindo em desuso. Distanciamento entre pais e filhos é
situação cada vez mais corriqueira. Estimular
o diálogo entre as partes é, a cada dia que
passa, mais e mais, uma tarefa nova da escola. Esse filme
representa uma das grandes chances de se fazer isso. Que tal
uma sessão reunindo pais e filhos na escola?

Obs.: Que me perdoe o ilustríssimo
escritor colombiano Gabriel Garcia Marquez mas, o título
desse artigo é quase uma cópia do nome dado
a uma de suas obras ("O amor nos tempos do Cólera"),
isso me pareceu bastante apropriado em virtude do tema do
filme "A Vida é Bela", como fiz trasparecer
através do artigo, em que se fala tanto de amor paterno
e materno numa época de dor, violência e muito
ódio como a guerra.
João Luís Almeida Machado
Mestre em Educação, Arte e História
da Cultura (Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São
Paulo); Professor universitário atuando na Faculdade
Senac em Campos do Jordão; Professor de Ensino Médio
e Fundamental em Caçapava, SP; Colunista para assuntos
de Educação no Portal Planeta Educação
Envie e-mails Comentários, sugestões e críticas
para:
profjoaoluis@planetaeducacao.com.br
Ficha Técnica
A Vida é Bela
(La vita è Bella)
País/Ano de produção:
Itália, 1997
Duração/Gênero: 112 min.,
comédia/drama
Disponível:- VHS e DVD
Direção de Roberto Begnini
Roteiro de Roberto Begnini e Vincenzo Cerami
Elenco: Roberto Begnini, Nicoletta Braschi,
Giorgio Cantarini, Giustino Durani.
Links
- http://e-pipoca.ig.com.br/filmes_zoom.cfm?id=912
- http://www.cineguia.com.br/index.shtml?cod_filme=CNA0185&rg=0
- http://www.adorocinema.com/filmes/vida-e-bela/vida-e-bela.htm
- http://www.miramax.com/lifeisbeautiful
(site oficial)
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