3 X Cursos = ?
Brasil, o país que abriu 3 cursos superiores
por dia nos últimos 5 anos

O que o cidadão poderia pensar se o governo
pudesse criar o equivalente a 3 postos de saúde
por dia ao longo de todo um ano? Com certeza
essa notícia significaria a resolução
dos problemas da área de saúde
em todo o país.
E se as prefeituras conseguissem emendar 3 atividades
educacionais ou culturais todos os dias envolvendo
um enorme número de crianças e
adolescentes? Isso poderia significar um menor
envolvimento desse contingente da população
com as drogas ou a violência.
Imagine então que três prefeituras,
todos os dias, conseguissem montar bibliotecas
e disponibilizar seus acervos a todos os munícipes?
Seriam mais de mil bibliotecas criadas a cada
ano, isso certamente poderia levar a uma melhoria
nos resultados das crianças e jovens
nas escolas (entre muitas boas conseqüências).
Outra alternativa seria pensar que se todos
os dias, de cada cidade brasileira, fossem poupados
3 reais do dinheiro público que invariavelmente
vai parar nos bolsos de políticos corruptos,
seriam devolvidos para investimentos em diversas áreas
(educação, saúde, habitação,
transportes, saneamento,...), somente em São
Paulo, o equivalente a mais de mil e quinhentos
reais por dia, quatrocentos e cinqüenta
mil reais por mês e, perto de cinco milhões
de reais por ano...
A essa altura o leitor deve estar pensando a
respeito de minha fixação pelo
número 3, afinal de contas desde o início
desse editorial, falei sobre postos de saúde,
bibliotecas, atividades culturais e dinheiro
público sempre a partir dessa quantidade.
O que motivou essa “fixação”?
Li no jornal de domingo que as faculdades privadas
brasileiras tem criado, ao longo dos últimos
cinco anos, em média, 3 novos cursos
por dia. Repito, para que a necessária ênfase
seja dada, 3 novos cursos por dia. Talvez fosse
necessária uma nova repetição
para que o internauta pudesse pensar melhor
a respeito disso, 3 novos cursos por dia...
Os números são, de fato, impressionantes.
Em 1998, existiam no Brasil, em instituições
particulares ou públicas, 6.950 cursos.
Em 2002, esse número havia crescido para
14.399 cursos. O índice mais do que dobrou!

Ótima notícia!
Se formos afoitos (e otimistas) podemos imaginar
que o surgimento desses cursos é notícia
tão boa que deve ser comemorada com champagne.
Novas salas de aula, mais empregos diretos e
indiretos sendo criados, oportunidade para que
um contingente muito maior de estudantes possa
ingressar na faculdade, o surgimento de cursos
que ainda não existiam por aqui,...
Informação esperada!
Com tantos recursos sendo destinados a educação,
seria mais que razoável que obtivéssemos
esses resultados a partir do início desse
século. Foram tantos projetos na área
educacional geridos pelo governo anterior e
iniciados pelo atual, que os dados refletem
a seriedade do trabalho e o investimento que
deve reverter num constante e progressivo desenvolvimento
sócio, político e econômico...
Será que a notícia é mesmo
tão boa?
Se pensarmos que o crescimento representou uma
maior ingerência das instituições
privadas no ensino superior, podemos imaginar
que o governo está se isentando das responsabilidades
que lhe cabem na educação. Ao
mesmo tempo podemos questionar se esse crescimento
assombroso foi respaldado por preocupações
e investimentos que tornassem essa expansão
totalmente qualificada no que tange a formação
dos professores, a disponibilização
de livros (novas bibliotecas), a criação
de laboratórios adequados e plenamente
equipados, salas de aula com os recursos necessários,...
Essa manchete representa uma verdadeira bomba!
Os pessimistas de plantão podem argumentar
que as redes privadas de ensino, sequiosas de
lucros altos, com certeza montaram estruturas
que não respondem adequadamente as exigências
do governo e do mercado; devem criticar essa
privatização exagerada e a falta
de investimentos maciços nas universidades
públicas; com certeza questionarão
o destino das verbas arrecadadas pelo MEC e
pelas Secretarias da Educação
de estados e municípios...

Afinal, O que devemos pensar a respeito desses
números?
Talvez todos os citados anteriormente, do otimista
ao pessimista, passando pelas opiniões
intermediárias tenham alguma coisa importante
a nos dizer. Vejamos:
- Quando o pessimista
se manifesta de forma preocupada com o destino
das verbas públicas
reservadas à educação...
Devemos, certamente nos manifestar e buscar
esclarecimentos em relação ao
destino dado a esse dinheiro. Será que
ele não está sendo repassado pelo
governo a iniciativa privada para bancar esse
crescimento? Se está, quais são
os termos que regem essa associação?
Isso reverte em políticas sociais como
a disponibilização de crédito
educativo e bolsas de estudo para alunos carentes?
- A qualidade
dos cursos montados é preocupação
das maiores que devemos ter quanto a esse assunto.
Iniciei esse editorial postulando algumas situações
relacionadas a quantidade de cursos montados
diariamente no Brasil nos últimos 5 anos
(três, em média). Imaginem se os
Postos de Saúde montados não tivessem
equipamentos, remédios, enfermeiros formados
ou médicos que já tivessem completado
suas especializações. Seria caótico
não acham? O que aconteceria se as bibliotecas
abertas não tivessem seus acervos atualizados
e mantivessem a mesma quantidade de livros desde
sua inauguração? Não seriam
tão positivas para a comunidade, não
concordam? A inspeção e averiguação
dos novos cursos pelo MEC e demais organismos
estatais deve ser constante e rigorosa. Não
devemos permitir que o ensino superior seja
sucateado com a oferta de cursos que pouco se
diferenciam em relação às
etapas anteriores de estudo. As faculdades e
universidades têm a responsabilidade de
formar profissionais de diversas áreas.
Esses estudantes, futuros advogados, médicos,
administradores, professores, engenheiros e
tantas outras profissões responderão
pelas necessidades reais de muitas pessoas e
pelo futuro de nosso país... Não
dá para brincar com isso!
- Sem dúvida
alguma, o crescimento da procura estimulou o
crescimento do ensino superior e foi, por sua
vez, resultante do aumento expressivo de matrículas
no ensino médio
ao longo dos últimos anos. O mercado
tem exigido maior especialização.
Os investimentos em educação tornaram-se
prerrogativa básica para que o Brasil
possa competir no mercado mundial de igual para
igual com gigantes europeus, asiáticos
ou com os Estados Unidos. Ao destinar, por força
de lei, percentuais elevados dos orçamentos
municipais, estaduais e mesmo federal e criar
a Lei de Responsabilidade Fiscal, os governos
brasileiros mostraram firme propósito
de efetivar uma educação de qualidade.
Os resultados começaram a aparecer agora,
no século XXI.
- Quanto aos
otimistas, vale destacar que esses novos cursos
realmente representaram oportunidades para muita
gente. Trabalho para professores, funcionários;
investimentos na construção
civil (para a construção de novas
instalações); venda de recursos
para abastecer essas novas faculdades (de lousas
e giz a computadores e livros); os novos cursos
vieram responder as necessidades de setores
em franca expansão ou o advento de novas áreas
de trabalho (especialmente no comércio,
nos serviços e, mais particularmente,
no turismo).
O que acontecerá a partir desses acontecimentos?
Que tal 3 idéias quanto ao futuro para
fechar essa reflexão?
1- O tempo sacramentará os modelos educacionais
que atuarem de forma profissional, respondendo
com responsabilidade e investimentos a ampliação
de sua estrutura (contratando pessoal altamente
especializado, atualizando recursos materiais,
dando pleno suporte a seus estudantes,...).
2- Desvios de verbas e gerenciamento inadequado
de recursos públicos levarão muita
gente para a cadeia. A sociedade passará a
fiscalizar mais freqüentemente os investimentos
em todas as áreas, especialmente na educação.
Isso reverterá em melhor qualidade dos
serviços em geral... (parece sonho, espero
que se concretize).
3- O Brasil se consolidará como uma liderança
mundial. Continuaremos a ter problemas, alguns
muito sérios, mas a resolução
de questões fundamentais será encampada
pela população que pressionará os
governos e atuará para a melhoria geral
da vida no país. Isso será, claramente,
resultado de uma educação mais
qualificada, da Educação Infantil
ao Ensino Superior... (podemos, certamente,
chegar lá).
Obs. Uma boa notícia constatada nos últimos
dados estatísticos divulgados pelo MEC
e pelo INEP é que aumentou o número
de mestres e doutores atuando nas faculdades
e universidades brasileiras. Esse dado vale,
verdadeiramente, celebrar! Para melhores informações,
dê uma navegada nos sites do MEC e do
INEP, cujos links estão disponíveis
ao final desse artigo.
João Luís
Almeida Machado
Mestre em Educação,
Arte e História
da Cultura (Universidade
Presbiteriana Mackenzie,
em São Paulo); Professor universitário
atuando na Faculdade Senac em Campos do Jordão;
Professor de
Ensino Médio e Fundamental
em Caçapava, SP; escreve semanalmente
na coluna Cinema e Educação do
Portal Planeta Educação.
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Links
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