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"Investimento
para o futuro"
ENEM
2003
Ontem,
31 de Agosto de 2003, foi dia de ENEM. Aproximadamente
um milhão e novecentos mil estudantes estavam
inscritos e, ao que parece, a quantidade de faltosos
foi muito reduzida. O dia não parecia dos
melhores para sair de casa, no entanto a esmagadora
maioria dos estudantes do Ensino Média não
deixou para trás o compromisso, foram aos
locais estipulados e tentaram fazer a sua parte.
A
despeito das críticas que são regularmente
feitas por opositores ao sistema de avaliação
proposto no ENEM, ainda na gestão do ministro
Paulo Renato de Souza, durante a administração
do presidente Fernando Henrique Cardoso, os estudantes
tem dado firmes comprovações de que
o Exame Nacional do Ensino Médio veio para
ficar.
Não
se trata apenas de falar em termos de número
de inscritos e de estudantes que compareceram. É
lógico que essas estatísticas são,
também, expressivas e significativas para
uma compreensão contextualizada do ENEM.
Vale
ressaltar, entretanto, que as avaliações
realizadas regularmente, já conseguiram promover
uma notável mudança na educação
brasileira, particularmente nos exames de admissão
para as universidades. Além de contabilizarem
pontos para os alunos poderem agregar aos resultados
dos vestibulares, o ENEM tem proposto, a partir
de suas provas, uma reavaliação da
forma como as provas de vestibulares são
compostas e, necessariamente, propondo que as escolas
de Ensino Médio reestruturem o seu planejamento
e o seu funcionamento.
Os
exercícios do ENEM não pedem ao aluno
apenas que demonstre que seu conhecimento adquirido
e guardado em arquivos no cérebro (conhecimento
bancário; memorização), acumulado
ao longo dos 3 anos do Ensino Médio (e que,
de certa forma parece desprezar o trabalho de mais
de uma década feito na Educação
Infantil e no Ensino Fundamental); propõem
que o avaliado seja obrigado a refletir a respeito
das questões apresentadas utilizando-se de
reminiscências relacionadas ao conteúdo
trabalhado em aulas das diversas disciplinas (focando
no Ensino Médio e, utilizando-se também
do que foi estudado e assimilado nas etapas anteriores);
além disso, faz paralelos com informações
divulgadas pela mídia; pede comparações
ou aproximações com contextos diferenciados;
explora outras linguagens como os gráficos,
as artes plásticas, músicas, histórias
em quadrinhos, infográficos de revistas e
jornais, etc; faz com que em suas questões
seja comum e freqüente o uso de conhecimentos
adquiridos em áreas diversas (matemática
e geografia, literatura e biologia, física
e história,...); discute temas de relevância
social nas propostas de redação; enfim,
procura fazer com que o estudante seja obrigado
a pensar e não apenas reproduzir dados trabalhados
pelos professores em sala de aula.
O
mais interessante é perceber que através
da prova do ENEM, o MEC (Ministério da Educação
e Cultura) procura ser coerente com o que tem proposto
na Lei de Diretrizes e Bases para a Educação
e, mais especificamente, nos Parâmetros Curriculares
Nacionais (PCNs). Ressalta que não devemos
nos ater a considerar apenas o acúmulo ou
volume de informações adquiridas pelos
alunos ao longo do Ensino Médio.
Nem
tampouco, espera que o aluno utilize-se do Ensino
Médio como um preparatório para o
vestibular e ponto final. Pelo contrário,
pede a ampliação da importância
dos estudos nessa etapa de formação
de nossos adolescentes e jovens, para um nível
de preparação para a cidadania, a
ética, a capacidade de interação
social, a consciência crítica e uma
adaptação mais fácil ao mundo
do adulto (no qual se insere, com grande importância,
o mundo do trabalho).

Infográfico da Revista
Época usado na Redação do ENEM
2003.
Na
prova desse ano, por exemplo, o tema da redação,
relacionado à questão dos investimentos
(cada vez maiores) em segurança pública,
contou com a disponibilização para
os estudantes, de um infográfico publicado
pela revista Época (em edição
de Junho de 2003); além disso, teve como
elementos de argumentação e análise
os comentários produzidos por uma jornalista
da Folha de São Paulo (Maria Rita Kehl) e
por Jurandir Freire Costa, estudioso dos efeitos
que a violência urbana e a corrupção
têm causado no imaginário do brasileiro,
em seu texto "O
Medo Social".
Os
enunciados pediam, claramente que os estudantes
desenvolvessem um texto "dissertativo-argumentativo"
e que, se pautassem nos "conhecimentos adquiridos
e (n)as reflexões feitas ao longo de sua
formação". Definia ainda que
os estudantes deveriam selecionar, organizar e relacionar
argumentos "para defender o seu ponto de vista".
Estabelecia ainda que o texto deveria ser escrito
dentro das normas da língua portuguesa culta
e que, não seria aceito se fosse redigido
como poema ou narrativa.
Fica
patente, a partir do exemplo da redação,
que há uma preocupação grande
do ENEM, de verificar se o aluno consegue ultrapassar
os limites ínfimos definidos pela educação
bancária (que se preocupa apenas com os simples
acumulo de informações) e ser capaz
de deduzir, criticar, analisar e compor textos enriquecidos
e sustentados por boa argumentação
e por uma sólida formação cultural.
Nas
questões há a mesma preocupação.
Vejam, por exemplo, o caso da questão de
número 62, na qual é apresentada uma
tira da personagem Mafalda, do cartunista argentino
Quino. Faz-se necessário que o estudante
analise o uso da palavra "indicador" ao
longo do Cartum. Não se trata apenas de uma
averiguação do sentido da palavra
nos conformes da língua portuguesa (também
isso), mas sua compreensão dentro do universo
das idéias, especificamente, da questão
social, relacionada ao desemprego.

Quadrinhos
da personagem Mafalda, do cartunista
Argentino Quino, utilizados na questão 62
do ENEM 2003.
Para responder a questão de número
51, na qual são disponibilizadas imagens
da antropofagia indígena (pintura de Theodor
De Bry) e de Tiradentes esquartejado (pintura de
Pedro Américo), o estudante teria que perceber
que as duas retratavam períodos históricos
diferenciados, ser capaz de entender o significado
dos termos "Selvagem" e "Civilizado",
lembrar-se que a antropofagia era refutada e condenada
pelos portugueses e que, esses mesmos europeus se
utilizavam das punições exemplares
para impedir os brasileiros de se revoltarem contra
o domínio metropolitano (isso me faz lembrar
que, também seria necessário sintonizar-se
quanto ao Pacto Colonial). Parece pouco? Certamente
que não.
O
fato de trabalhar com imagens remonta a uma máxima
dos tempos atuais, cuja compreensão é
fundamental para os educadores, segundo a qual nossos
estudantes (e a sociedade de forma generalizada
também) têm uma relação
muito mais intensa com as imagens do que com os
textos. Isso não significa que devamos abandonar
as palavras (por favor, sou totalmente contrário
e advogo constantemente a necessidade da leitura
como mais efetivo entre todos os meios de aprendizagem
e divulgação de conhecimentos), pelo
contrário, mas que devemos, por outro lado,
integrar as diferentes linguagens e mídias.

Esq. (Pedro Américo - Tiradentes
esquartejado, 1893)
Dir. (Theodor de Bry - Século XVI)
Imagens
utilizadas na prova do Enem 2003 para a composição
da questão 51.
É
claro que os resultados obtidos nesses primeiros
anos de aplicação da prova do ENEM
ainda não são aqueles que gostaríamos
de ver. Diga-se de passagem, que as médias
obtidas no ano passado mostraram uma queda de rendimento
geral. O que se espera é que, o aperfeiçoamento
do Exame Nacional do Ensino Médio seja acompanhado
de uma melhoria considerável na qualidade
da educação de Ensino Médio
no país. E que os objetivos de estímulo
a criação de uma clientela mais esclarecida
e atuante, se tornem a realidade do amanhã.
João
Luís Almeida Machado
Mestre em Educação,
Arte e História da Cultura (Universidade
Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo); Professor
universitário atuando na Faculdade Senac
em Campos do Jordão; Professor de Ensino
Médio e Fundamental em Caçapava, SP;
escreve semanalmente na coluna Cinema e Educação
do Portal Planeta Educação
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