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"COMO NASCEM OS HERÓIS"
Os
duelos em Alcântara e Bagdá
Esse
título me faz lembrar os antigos faroestes
que passavam repetidas vezes nas sessões
da tarde dos canais de televisão do Brasil.
Me lembra John Ford e John Wayne, Sergio Leone e
Clint Eastwood ou ainda, os spaghetti-westerns italianos
que permitiram a sobrevivência desse clássico
gênero cinematográfico quando os estúdios
de Hollywood se desinteressaram (por motivos financeiros)
em produzir novos filmes de faroeste.
Neles,
era comum que tivéssemos duelos ao por do
sol. De um lado o xerife (ou "mocinho",
como queiram) e, do outro, o vilão que havia
roubado bancos, seqüestrado donzelas ou ainda,
matado vários vaqueiros inocentes. Invariavelmente
os representantes da lei (e dos bons costumes),
ganhavam um embate tecnicamente muito equilibrado.
Detalhes costumavam tornar a disputa muito emocionante
e nos fazer crer que, o vilão teria alguma
chance (pelo menos dessa vez).
Por
mais que soubéssemos que o "mocinho"
iria ganhar, assistíamos as sessões
com grande interesse. Raramente perdíamos
a oportunidade de acompanhar os passos de nossos
heróis, desses valentes, destemidos e durões
cowboys.
O
"Velho Oeste" parecia indomável
e sem lei. Os assaltos de bancos e trens (ou diligências)
ocorriam a partir de explosões, que detonavam
pontes, estradas de ferro ou derrubavam árvores
e pedras que impediam a passagem dos veículos
(no caso de trens e diligências); para assaltar
bancos, os vilões utilizavam a pólvora
dos explosivos para abrir os cofres.
Nesse
ponto a história dos bons e velhos westerns
parece ter cruzado com a recente e trágica
semana vivida pelos brasileiros, quando ocorreu
a explosão de um foguete na base de Alcântara
e um atentado terrorista a bomba vitimou o alto
comissário da ONU para os Direitos Humanos,
Sérgio Vieira de Mello.
As
explosões são apenas o primeiro indício
de que a bárbarie e a selvageria do mundo
sem lei apresentado nos westerns continua a existir.
Quando
vemos homens da ciência e da tecnologia perecerem
por conta de problemas técnicos, presenciamos,
como nos westerns, o surgimento dos heróis
que transcenderam os limites e buscaram novas fórmulas
que permitissem a todos, uma vida mais qualificada.
Os "cowboys" que caíam nos filmes
morriam por defenderem ideais, por se posicionarem
a favor da lei, por se mostrarem valentes em momentos
em que muitos de nós teríamos "tremido
nas bases".
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Nossos
cientistas, como autênticos representantes
de um grande ideal (a ciência, o
progresso, a tecnologia), dentro de uma
lei que nos parece a mais sensata desde
que nos percebemos como "Sapiens"
(a da |
evolução,
do investimento na pesquisa, da busca do
conhecimento), jamais arredaram pé
de seus comprometimentos, sabiam que eventualidades
poderiam ocorrer ao longo do caminho (inclusive
acidentes desse porte), e, mesmo assim,
sempre acreditaram em seus propósitos
e em seu trabalho. Por isso, atingiram
o status de heróis, de mártires
de uma causa que nunca se esgota, que agora
e para sempre, nos mobiliza e nos mobilizará. |
Representantes
da ONU, em missão de paz, visitando países
devastados pela guerra, por epidemias ou pela fome
(entre tantas desgraças), deixam para trás
a tranqüilidade de seus países de origem,
suas famílias e profissões nas quais,
muitas vezes, poderiam até ganhar mais (dinheiro,
status, projeção pessoal ou profissional),
em prol de populações que carecem
de tudo. Faltam comida, remédios, roupas,
calçados, educação, lazer,
segurança,... Falta-lhes o essencial, a dignidade.
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Sérgio
Vieira de Mello era um desses abnegados
que, tal qual autênticos "xerifes"
(somente portando os distintivos; sem se
utilizar de armas de fogo), cruzavam os
oceanos buscando levar a esperança
e consolidar a transição
da miséria e do medo para a segurança,
a paz e a prosperidade. Havia se saído
muito bem em suas missões anteriores
(na África e no Timor Leste). Trabalhava
com seriedade em favor do Iraque. Foi abatido
pelo mais covarde e vil dos atos vilanescos
que existem no |
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planeta, uma explosão promovida
em um atentado terrorista. Com ele, tombaram
outros semeadores de esperança que
trabalhavam pelos Direitos Humanos, na
ONU. |
Cabe
aqui, a nossa homenagem a esses brasileiros notáveis,
que tombaram em seus duelos, travados em Alcântara
(RN) e Bagdá (Iraque). Persistem seus exemplos
e memórias na certeza que seus trabalhos
não podem e não serão interrompidos.
A Ciência e a Paz no Mundo, com certeza, lhes
agradecem.
João Luís Almeida Machado
Mestre em Educação,
Arte e História da Cultura (Universidade
Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo); Professor
universitário atuando na Faculdade Senac
em Campos do Jordão; Professor de Ensino
Médio e Fundamental em Caçapava, SP;
escreve semanalmente na coluna Cinema e Educação
do Portal Planeta Educação
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