Juventude Extraviada...
O Perfil da Juventude Paulistana (Um retrato
do Brasil)
Há
algumas semanas atrás, para ser mais preciso
no dia 24 de Agosto, a Folha de São Paulo
publicou em sua Revista da Folha, uma matéria
intitulada "O Mapa da Juventude" através
da qual procurava traçar um perfil da
juventude paulistana¹.
Esse trabalho foi feito a partir de uma pesquisa
da Coordenadoria da Juventude e desenvolvido
pelo Cedec (Centro de Estudos de Cultura Contemporânea);
foram percorridos os bairros da capital paulista
e feitos levantamentos nas escolas, nas áreas
de lazer e em casas de família; as perguntas
padronizadas foram feitas para jovens de 15 a
24 anos, de ambos os sexos; a base para o levantamento
foi o IDH (Índice de Desenvolvimento Humano)
da ONU (Organização das Nações
Unidas) e tinha como objetivo perceber as condições
de vida da juventude paulistana quanto aos quesitos
escolaridade, trabalho, inclusão digital,
hábitos de lazer e situação
familiar.
Os
resultados?
Auferidos
todos os dados, foi constatado que apenas 1/3
dos jovens seriam "aprovados". Mesmo
assim, a maioria desses felizardos teria passado
"na casca" ou "raspando".
Ser aprovado significaria ter educação
de boa qualidade, praticar esportes com uma certa
regularidade, poder ir ao cinema com alguma freqüência,
ler livros, interagir com outros jovens e com
adultos, ter acesso a áreas de lazer,
não sofrer os efeitos da violência,
e por aí afora. Na prática significa
ter acesso a direitos consagrados internacionalmente
desde a Revolução Francesa e, aperfeiçoados
muito mais recentemente, com o advento da Declaração
dos Direitos Humanos, da Organização
das Nações Unidas.
E
o que constatamos com essa "aprovação"
ínfima ou com essa reprovação
em massa?
Se
estivéssemos numa sala de aula, com certeza
seriam feitos muitos questionamentos quanto ao
trabalho dos professores ou em relação
à metodologia aplicada. Uma das alternativas
viáveis para resolver o problema (adotada
por algumas Secretarias de Educação)
seria criar um mecanismo de "aprovação
automática" ou "progressão
continuada"².
Isso
serviria, sem sombra de dúvidas, para
evitar a evasão e a repetência em
níveis elevados, o que permitiria aos
políticos apresentarem índices
satisfatórios de eficiência na educação
em sua prestação de contas a sociedade
(e que poderiam garantir, posteriormente, bons
resultados nas urnas).
Que
garantias teríamos, entretanto, de que
nossos alunos estariam (verdadeiramente) aprendendo
alguma coisa?
Há
vários registros de estudantes que concluíram
o ensino fundamental com enormes dificuldades
para se expressar corretamente, para escrever
um texto, ler com fluência e plena compreensão
ou fazer cálculos elementares.
E
o que ocorre com nossa juventude quando os planos
para a educação, a cultura, o lazer
e os esportes tem como finalidade real apenas
garantir aos políticos uma aprovação
popular e não, verdadeiramente, permitir
aos adolescentes e jovens que tenham a possibilidade
de aprender, interagir, preparar-se adequadamente
para o mundo adulto, educar-se para uma profissão,
exercer sua cidadania (conhecer seus direitos
e deveres), partilhar experiências, trabalhar
em grupos,...
Tudo
indica, em situações como aquelas
descritas na reportagem, que estamos tentando
matar a sede de uma pessoa dando a ela água
salgada. Ou ainda que nossos doentes sofrem de
uma moléstia aguda e tentamos socorrê-los
com aspirinas...
As
reclamações dos jovens e o cruzamento
dos dados permitiram aos pesquisadores perceber
que as políticas sociais não tem
sido efetivas na sua disposição
de permitir ao jovem uma integração
tranqüila, gradativa e plena a sociedade
(e mais especificamente ao mercado de trabalho).
Se
prestarmos atenção nos indicadores
resultantes da pesquisa com os jovens, perceberemos
que um dos maiores problemas indicados pelos
entrevistados foi a violência³
e que, além disso, as escolas em que estudam
estão, em muitos casos, sucateadas; a
qualidade do trabalho desenvolvido não
atende as expectativas por conta da falta de
atualização dos professores a partir
de novos cursos; os investimentos em projetos
esportivos são praticamente nulos; não
existem oficinas culturais (artesanato, artes
plásticas, música, teatro),...
Tudo,
talvez pudesse ser evitado se existissem atividades
programadas para as áreas da educação,
cultura, lazer e esportes, nas quais esses jovens
participassem e nas quais se envolvessem.
E
que tipo de atividades?
Apesar
de parecer tão simples, de ser uma resposta
certamente banalizada, o ideal é que fossem
feitos investimentos efetivos em escolinhas de
esporte, oficinas culturais, grupos de teatro
amador, ateliês de artes plásticas,
aulas de artesanato, escolas de música
e muitas outras, a serem pensadas ou mesmo copiadas
de projetos bem-sucedidos, desenvolvidos em algumas
cidades e estados, pela iniciativa privada (ONGs,
Associações de Amigos de Bairros,
Igrejas, Escolas,...) ou pelos governos estaduais
e municipais.
Se
funciona?
Tive
a oportunidade de ler, na revista Veja dessa
semana, um artigo escrito ("Itabirito não
tem Fome Zero") pelo economista Cláudio
Moura Castro sobre a cidade mineira de Itabirito4.
Trata-se de um relato sobre os fatores que permitiram
a essa pequena cidade ter um alto Índice
de Desenvolvimento Humano, coincidentemente,
as causas desse sucesso...
¹
A reportagem da Revista da Folha, de 24 de Agosto
de 2003, pode ser encontrada no link http://www1.folha.uol.com.br/revista/inde24082003.shl.
² Sobre a aprovação
automática ou progressão
continuada dê uma olhada na reportagem
da revista Educação, no link http://www.revistaeducacao.com.br/apresenta2.php?pag_id=169&edicao=41.
³ Quanto a violência,
leia matéria da revista Educação
disponível no link http://www.revistaeducacao.com.br/apresenta2.php?pag_id=422&edicao=266.
4
Disponível no site da Revista Veja, no
link http://veja.abril.com.br/100903/ponto_de_vista.html,
somente para pessoas cadastradas.
João Luís Almeida Machado
Mestre em Educação,
Arte e História da Cultura (Universidade
Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo);
Professor universitário atuando na Faculdade
Senac em Campos do Jordão; Professor de
Ensino Médio e Fundamental em Caçapava,
SP; escreve semanalmente na coluna Cinema e Educação
do Portal Planeta Educação
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