Livros,
Sedução
e prazer garantidos.

“Leitura” (1892), de Almeida Jr. Óleo
sobre tela (95x141 cm).
Pinacoteca do Estado de São Paulo, São
Paulo, Brasil.
Comecei
a ler muito cedo, para ser mais exato, logo
que aprendi, na transição
entre a educação infantil e a
1ª série. Desde então, não
consegui mais parar. De vez em quando olho as
estatísticas que apontam a média
de livros lidos por habitante em várias
partes do planeta e fico decepcionado com os
resultados brasileiros. Não consigo imaginar
que o país possa melhorar sem que um
número cada vez maior de pessoas tenha
acesso a bibliotecas, a literatura, ao sabor
dos livros, as possibilidades do saber contido
em cada uma das páginas...
Mas
como estimular a leitura numa época
tão marcada pela presença da tecnologia?
O que fazer para que nossos jovens troquem os
computadores por livros ao menos durante algumas
horas? Com todos os seus encantos, o cinema
pode em algum momento ceder espaço para
a leitura?
A
Folha de São Paulo, em seu caderno
especial “Folhateen”, no último
dia 17 de novembro, resgatou o tema, no artigo “Como
seduzir usando apenas livros”.
Estive
envolvido no último final de semana
num seminário de educação,
onde organizei e desenvolvi um workshop intitulado “Escolhendo
a pílula vermelha ou a pílula
azul”. Como se pode perceber, há uma
relação entre o título
da oficina e o filme dos irmãos Wachowski, “Matrix”.
Apesar de falar sobre tecnologia e educação
deixei bem claro aos participantes que sem leitura,
não há trabalho bem feito, não
há realização efetiva.
Alguns
leitores, cientes de minha coluna “Cinema
e Escola”, atualizada semanalmente, assim
como, do meu envolvimento com internet, mais
especificamente com o Planeta Educação,
devem estar receosos de minhas afirmações
e posicionamentos nesse artigo sobre leitura.
Um workshop como o que foi mencionado anteriormente
também deve gerar desconfiança...
Talvez
por isso mesmo, abro esse texto alertando
para o fato de que, muito antes de me envolver
com computadores e mesmo com cinema, já era
um leitor voraz.

Povoar
a infância com bons livros e autores
como “A arara e o guaraná” de
Ana
Maria Machado, “O Mágico de Óz” de
L. Frank Baum ou “A Reforma da Natureza”
de Monteiro Lobato é essencial para cultivar
a leitura entre as crianças desde cedo.
Percorri
um trajeto nas letras que se iniciou com
as histórias em quadrinhos e com
os livros infantis de Ana Maria Machado e Maria
Claro Machado. Passei pelos contos de Grimm,
as fábulas de Esopo, “O Mágico
de Óz” e tantas outras pérolas,
companheiros inseparáveis de horas inesquecíveis...
Na
adolescência passei pelo suspense de
Conan Doyle e seu fantástico Sherlock
Holmes, pelos casos aparentemente insolúveis
dos detetives Hercule Poirot e Miss Marple da
inesquecível Agatha Christie. Júlio
Verne foi outro ícone dessa época,
com “A volta ao mundo em 80 dias”, “Viagem
ao centro da terra” e “Vinte mil
léguas submarinas”.
Paralelamente
aos clássicos internacionais
(“As Viagens de Gulliver”, “Os
três mosqueteiros”, “Oliver
Twist”, “Huckleberry Finn”,...),
a escola me colocava em contato com Machado
de Assis, Monteiro Lobato, Clarisse Lispector,
Rachel de Queiróz, José de Alencar,...
Ao
entrar na faculdade, vieram os livros relacionados à área
em que me graduei, a história. Filósofos,
economistas, historiadores, sociólogos,
antropólogos e tantos outros especialistas
das ciências humanas se tornaram leitura
de cabeceira. Eric Hobsbawn, Gilberto Freyre,
Karl Marx, Rousseau, Claude Levi-Strauss, Umberto
Eco e muitos outros grandes autores e pensadores
foram fundamentais para minha formação
intelectual e acadêmica.
Minha
pós-graduação e meu
mestrado me levaram as leituras relacionadas à educação.
Novas leituras, novas referências. Paulo
Freire, Matthew Lippman, Phillipe Perrenoud,
Daniel Goleman, Edgar Morin, Jean Piaget e Lev
Vigotsky passaram a povoar meu imaginário,
a incentivar minha ação pedagógica,
a renovar minha prática de aula,...

Visitas freqüentes a bibliotecas promovem
a aproximação entre
as crianças e os livros e consolidam
a prática da leitura.
Se
hoje posso e consigo escrever, sem dúvida
devo muito a todos esses grandes colaboradores
com os quais em vários momentos de minha
vida pude trocar idéias.
Escuto
regularmente de muitas pessoas que lidam
com tecnologia e educação que,
a despeito de todas as qualidades dos computadores
e da internet, incluindo as possibilidades dos
e-books, nada substitui a leitura tranqüila,
corriqueira e atenta de um bom livro. Os puristas
falam da textura do papel, do cheiro das páginas
dos livros, das eventuais imagens que componham
as obras, da cadeira confortável onde
podemos nos instalar para degustar uma boa leitura,...
Aonde quero chegar com esse texto?
Quero
incutir no educador a necessidade latente
de iniciarmos nossas crianças na leitura
o mais cedo possível.
Pretendo
que leitura e prazer se tornem sinônimos
para todas as pessoas como se tornaram para
mim.
Sonho
que crianças, jovens, adultos e
idosos também tenham a possibilidade
de encontrar Borges, Shakespeare, Dante, Cervantes,
Machado, Sun Tzu, Rosseau e tantos outros.
Imagino
que a justiça, o equilíbrio
e a harmonia existam muito mais facilmente num
mundo de leitores, gente crítica, argumentativa,
analítica e transformadora...
João Luís
Almeida Machado
Mestre em Educação, Arte e História
da Cultura (Universidade Presbiteriana Mackenzie,
em São Paulo); Professor universitário
atuando na Faculdade Senac em Campos do Jordão;
Professor de Ensino Médio e Fundamental
em Caçapava, SP; é colunista e
pesquisador do Portal Planeta Educação
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e-mails de comentários, sugestões
e críticas para:
profjoaoluis@planetaeducacao.com.br
Obs. O
artigo da Folhateen sobre leitura está disponível
no link http://www1.folha.uol.com.br/fsp/folhatee/fm1711200305.htm.