Vamos brincar no museu?
Pelo
resgate da infância

A
Folha de São Paulo de ontem, dia 9
de novembro, publicou artigo em que noticia
a criação do Museu do Brinquedo
na capital paulista (http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff0911200318.htm).
Já deram inclusive nome ao rebento que
deve nascer em breve, irá se chamar Quintal
da Luz, ficará numa área de 7.500
m², próximo ao Jardim da Luz, no
centro de São Paulo.
Pretende-se com o surgimento
desse espaço
que as brincadeiras e os brinquedos simples
e comuns de outrora sejam preservados, senão
no cotidiano das crianças, ao menos no
espaço sacramentado de um museu. Atitude
mais que louvável do Ministério
da Cultura e da Secretaria Municipal de Cultura
de São Paulo, o museu nos chama a atenção
para algo que é irremediável,
a mudança dos hábitos e costumes.
Olhamos saudosos para o passado
em busca dos campinhos de “terrão” onde
podíamos jogar bola com nossos amigos,
instalado precariamente num terreno baldio,
inutilizado por seus proprietários (ao
menos temporariamente), onde traves de madeira
desmontavam ao serem sacudidas por um potente
petardo desferido por um dos “craques” de
plantão.
Procuramos marcas no chão a indicar o
lugar onde nossas irmãs brincavam animadamente
de amarelinha ou onde jogávamos bafo
(tentávamos “rapelar” a coleção
de figurinhas de nossos amigos/oponentes) e
pião. Empinar pipas e brincar de bonecas
(ou de casinha) também eram freqüentes
e animados motivos para as reuniões da
criançada.
Esses tempos passaram e, infelizmente
para nós,
que nos divertimos muito as custas dessas brincadeiras
e de muitas outras (jogo de taco, queimada,
pega-pega, esconde-esconde, siga o mestre, cabra
cega,...), não irão retornar.
Nesse caso a idéia de preservar todas
essas práticas em um museu torna-se pertinente
e nos parece muito boa. Entretanto, se olharmos
para nossos filhos, sobrinhos ou mesmo netos,
veremos que possuem mais brinquedos do que pudemos
ter ao longo de toda a nossa infância;
são reféns da babá eletrônica
(a televisão) durante 3 ou 4 horas por
dia; gastam uma boa parcela de seu tempo plugados
na internet ou jogando em seus videogames; lêem
muito pouco e, o pior, desconhecem praticamente
todas as brincadeiras e muitos dos jogos que
fizeram parte de nossas infâncias...

Logo
que nossos filhos nasceram, minha esposa
e eu, que já trabalhávamos com
tecnologia na educação, decidimos
que não deveríamos dar videogames
a nossos filhos e, nem tampouco permitir que
utilizassem computadores antes de aprenderem
a brincar, a jogar jogos de tabuleiro, a montar
quebra-cabeças, a pintar e desenhar,
a ler histórias em quadrinhos,...
Deu certo. Nosso casal de filhos,
que atualmente tem 6 e 7 anos de idade, começaram a
brincar com videogames e computadores a partir
dos 5 anos. Antes disso, curtiram bolas, bonecas,
jogos, massinhas, pinturas, quadrinhos e tantas
outras coisas importantes para estimular um
crescimento saudável e criativo. Sofremos
algumas “pressões” de amigos
ou mesmo da mídia (TV, revistas, jornais,...)
que a todo o momento bombardeavam informações
e diziam que as crianças tinham que ser
inseridas nesse universo “internético” o
quanto antes possível.
Resistimos bravamente. Tenho
orgulho em dizer que nossos filhos gostam
de brincar. Apreciam jogar bola ou montar
quebra-cabeças.
Ensinam alguns coleguinhas a brincar de casinha
ou criar histórias em que seus personagens
(bonecos em miniatura) enfrentam dragões,
apostam corridas, fazem viagens espaciais ou
voltam no tempo e encontram os dinossauros.
Culpamos constantemente o progresso,
o crescimento das cidades, a quantidade de
compromissos e projetos com os quais nos
envolvemos, a falta de tempo e tantas outras
coisas (meras justificativas) para explicar
por que nossas crianças
desaprenderam a brincar. Esperamos que a escola,
muitas vezes, possa suprir nossa ausência
e falta de paciência para brincar com
nossos filhos, sobrinhos, netos...
Esquecemos como foi bom ser criança e
poder brincar. Perdemos em algum lugar do caminho
o espírito de Peter Pan. Deixamos de
ser crianças para atender a demanda acelerada
de reuniões, consultas, aulas, vendas
e tantos outros compromissos. Temos menos filhos
por que eles atrapalham o desenvolvimento de
nossas carreiras (a coluna de Gilberto Dimenstein,
publicada também na Folha de ontem fala
sobre “A geração dos filhos únicos”,
vale a pena conferir)...

O
que nos restará depois
de toda essa correria?
Já temos que conviver com um enorme stress
diariamente. São comuns e constantes
as dores de cabeça, as úlceras,
os problemas de coluna,...
Quem sabe depois de aposentados
possamos dar algum tempo a nossos filhos.
Resta saber se eles estarão interessados
em aprender todas essas brincadeiras depois
de terem completado 18 ou 21 anos...
Que memórias teremos do tempo em que
nossas crianças tinham menos de 10 anos
de idade? Sentaremos com eles e lembraremos
os mais “transados” jogos de videogame?
Falaremos sobre os seriados e desenhos da televisão?
Lembraremos de toda a diversão de navegar
na internet? Que brincadeiras iremos resgatar?
Quanto tempo teremos perdido? Quantas oportunidades
teremos desperdiçado?
Bato palmas para o projeto do
Museu do Brinquedo, mas ele me faz lembrar
de uma lição
importante contida no desenho animado “Toy
Story 2”. Um dos brinquedos, o cowboy
Woody, é roubado por um vendedor de brinquedos
antigos e vai ser mandado para um museu de brinquedos
no Japão. Ele faz parte de uma coleção
e, como peça mais importante, era fundamental
para que a venda do conjunto se efetivasse.
Numa determinada passagem do
diálogo
entre o cowboy de brinquedo e os outros bonecos
dessa coleção, ele diz que o mais
importante é fazer a alegria de alguma
criança. Muito mais que ficar atrás
de uma vitrine, sendo admirado a distância
por milhares de pessoas, o fundamental é que
as crianças possam brincar com seus brinquedos...
O primordial, portanto, é que voltemos
a pular amarelinha, jogar bola, brincar de pião,
jogar jogos de tabuleiros, empinar pipa, brincar
de bonecas, criar os mais malucos seres com
massinhas ou desenhar e pintar. O essencial é que
nossas crianças reaprendam a brincar
(para que isso aconteça é necessário
que nós, adultos, façamos nossa
parte e possamos ensinar-lhes), e não
só viajem na internet, assistam tv ou
joguem videogames. Não gostaria de pensar
que meus netos descobrirão as brincadeiras
ao visitarem o Museu do Brinquedo sem jamais
terem brincado...
João Luís Almeida
Machado
Mestre em Educação, Arte e História
da Cultura (Universidade Presbiteriana Mackenzie,
em São Paulo); Professor universitário
atuando na Faculdade Senac em Campos do Jordão;
Professor de Ensino Médio e Fundamental
em Caçapava, SP; é colunista e
pesquisador do Portal Planeta Educação
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