Ontem e Hoje
Um
Retrato do Brasil no século XX

Na semana passada o IBGE (Instituto Brasileiro
de Geografia e Estatística) divulgou
um importantíssimo documento intitulado “Estatísticas
do Século XX”. Pelos dados disponibilizados
nesse trabalho podemos verificar mudanças
notáveis em diversos segmentos da realidade
nacional:- da educação a renda
nacional, da quantidade de hospitais que existem
no país a participação
das mulheres no contingente populacional brasileiro,
da quantidade de museus existentes no país
a porcentagem de lares que tem acesso à luz
elétrica ou água encanada. O que
faremos a seguir é desenvolver uma reflexão
a respeito de alguns desses dados para que possamos
entender o ontem e o hoje de nosso país.
- Se
a expectativa de vida de nosso país
fosse a mesma de 1900, equivalente há 33
anos em média, o escriba que lhes remete
essas linhas não poderia estar dividindo
idéias, informações e abrindo
um canal de comunicação via internet
com vocês. Já teria sido enterrado
há alguns anos. Felizmente, para todos
nós, a média nacional subiu para
68 anos. Por esse dado percebemos que nossas
linhas do tempo mais do que dobraram. Sobra
mais tempo para se divertir, estudar, desfrutar
da companhia dos amigos, trabalhar, praticar
esportes, ler, assistir filmes,...

- Segundo os cálculos médios
de nossos pesquisadores nossa economia cresceu
o equivalente a 100 vezes. Passamos de um PIB
(Produto Interno Bruto) de 9 bilhões
de reais em 1901 para uma economia que atinge
hoje a casa dos trilhões, para ser mais
exato, 1 trilhão de reais anuais. Infelizmente
só aprendemos a “fazer” mais dinheiro
(nos serviços, na indústria, na
agro-pecuária e no comércio) e
não conseguimos nos sair bem nas lições
quanto a dividir melhor a renda nacional. Tanto é verdade
que à distância que separa a renda
dos ricos e dos pobres cresceu de 34 vezes em
1960 para 47 vezes em 2001.
- A “fome” do governo por novos recursos
ao longo do último século só fez
aumentar. Suas despesas subiram de um expressivo
montante de 10% do PIB em 1900 para astronômicos
36% em 2001. Para compensar essa necessidade
crescente de recursos, nossa carga tributária
passou de 10% em 1900 para 33% em 2001. Passamos
a produzir muito mais e a pagar taxas e impostos
em patamares incompatíveis com a média
mundial (muito superiores). E o pior de tudo é constatar
que a utilização dessa arrecadação
não tornou a vida do brasileiro mais
justa, mais harmoniosa. As filas continuam nos
hospitais, as escolas ainda apresentam sérias
mazelas a resolver, os transportes se mostram
insuficientes para atender toda a demanda, sofremos
com a crise energética e com a falta
de água,...

- Vemos a agro-pecuária bater recordes
mundiais de produtividade e a população
se tornando cada vez mais urbana (a população
das cidades em 1940 equivalia a 31% do total
nacional e, atualmente, 81% dos brasileiros
estão vivendo em cidades). Esse assombroso
crescimento das cidades tem ocasionado o surgimento
de bolsões de pobreza em áreas
de risco e inviabilizado o planejamento racionalizado
que permitiria evitar problemas de saneamento,
saúde, educação, lazer,
transportes e habitação que deixam
nossos administradores públicos de cabelo
em pé!
- Apesar dos ganhos de produtividade e
rendimento da agricultura nacional, a participação
da agropecuária na economia nacional
baixou de 45% em 1900 para 11% em 2000. Nos
tornamos mais diversificados quanto aos produtos
que oferecemos no mercado internacional. Além
do Café e da Soja, dos frangos ou da
carne bovina, exportamos aviões, programas
de computador, automóveis, tecidos, calçados,
suco de laranja,...
- Melhoramos de forma excepcional os índices
de municípios que dispõem de luz
elétrica e água encanada (no primeiro
quesito atingimos 100% e no segundo, 90%). Tivemos
um crescimento expressivo também no que
se refere a cidades que disponham de uma eficiente
rede de esgoto (passamos de 14% em 1960 para
47% em 2000). Insuficiente esse último
dado para evitar que epidemias (de dengue, febre
amarela ou malária, por exemplo) continuem
infernizando a vida de nossos habitantes, especialmente
dos idosos e das crianças.
- Nem mesmo o grande crescimento na quantidade
de hospitais (passamos de 296 hospitais em 1908
para 48.800 no ano 2000, um aumento equivalente
a 164 vezes) tem sido capaz de aplacar as enfermidades
que regularmente acometem os brasileiros. O
ideal seria que tivéssemos investimentos
maciços em saneamento básico (esgoto
e limpeza pública) para que as filas
nos postos de saúdes, santas casas e
hospitais públicos pudessem diminuir
ao invés de aumentar...

Museu de Petrópolis
- Aumentou a quantidade de museus (passamos
de 100 em 1934 para 1300 em 1988). Na direção
contrária, porém estão
os cinemas, que diminuíram de quantidade
e restringiram-se especialmente as cidades maiores
e as áreas nobres, particularmente aos
shoppings centers. O ideal seria que pudéssemos
saber se o aumento no número de museus
significou crescimento expressivo na quantidade
de pessoas que os visitam e se os acervos são
mantidos e atualizados constantemente.
- Como você já deve ter percebido,
deixei para o fim os dados referentes à educação.
Todos bastante expressivos e positivos. Deixamos
de ter uma população em que quase
2/3 dos habitantes eram analfabetos (65% dos
brasileiros em 1900 não sabiam ler, escrever
ou fazer cálculos simples) e passamos
a ter um índice de 13,6% no ano 2000
(o equivalente a 1/8 dos brasileiros).
- De 1933 para cá a quantidade de
crianças matriculadas e efetivamente
cursando o Ensino Fundamental passou de 2 milhões
para 36 milhões de crianças. Multiplicamos
os nossos efetivos em 18 vezes num prazo de
70 anos!
- Tínhamos apenas 108 mil alunos
matriculados no Ensino Médio em 1933.
Em 1998 chegamos a um patamar superior a 6 milhões
de alunos nesse nível de ensino.
- Nos aproximamos de 2 milhões de
estudantes universitários. Em 1933 eram
apenas 23 mil!
- Apesar disso, não custa lembrar
que a qualidade de nossas escolas ainda está muito
distante daquela que esperamos e sonhamos. Ela
ainda está distante da realidade, tem
dificuldades para incorporar novas tecnologias
e metodologias, é conservadora e não
fala (muitas vezes), a língua dos alunos
e das comunidades que serve.
João Luís
Almeida Machado
Mestre em Educação, Arte e História da Cultura (Universidade
Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo); Professor universitário
atuando na Faculdade Senac em Campos do Jordão; Professor de Ensino
Médio e Fundamental em Caçapava, SP; escreve semanalmente na
coluna Cinema e Educação do Portal Planeta Educação
Envie e-mails de comentários,
sugestões e críticas para:
profjoaoluis@planetaeducacao.com.br
Obs. Na semana passada comemorou-se o aniversário
de 50 anos de surgimento da mais importante
empresa brasileira, a Petrobrás. Os meios
de comunicação deram grande importância
ao fato (com toda a razão). Voltaremos
a falar sobre esse importante acontecimento.
Links
-
http://www.ibge.gov.br
-
http://www.terra.com.br/istoe
-
http://www1.folha.uol.com.br/folha/arquivos (assinantes)