Upgrade humano
Trabalho
infantil, exclusão digital,
violência promovida por menores e os resultados
do ENEM, uma semana desanimadora... Como superá-la?

A
exclusão digital é considerada
por muitos
especialistas como o novo analfabetismo.
Os
jornais da semana passada estamparam manchetes
preocupantes para todos aqueles que imaginam
que o Brasil pode ser um país muito mais
justo e, especialmente, para todos os que têm
acompanhado os esforços feitos pelo país
na última década para pagar a
enorme dívida social acumulada com sua
população mais humilde, mais pobre.
Na quarta-feira, por exemplo, divulgou-se que
houve um aumento expressivo na quantidade de
crianças que estão trabalhando
(“Trabalho infantil cresce 50% no ano”,
estampou a Folha de São Paulo).
Entre
quinta e sexta-feira os jornais publicaram
os resultados do ENEM (Exame Nacional do Ensino
Médio) e, novamente pudemos perceber
a distância que separa ricos e pobres
nesse país. A média obtida pelos
estudantes das escolas públicas foi bem
inferior àquela conseguida pelos alunos
das instituições particulares.
A desproporção aumenta na medida
em que o nível de rendimentos dos estudantes
for menor, ou seja, quanto mais reduzida a renda
familiar, pior o resultado obtido no ENEM.
Outro
acontecimento que sacudiu o país
foi à passeata ocorrida em São
Paulo favoravelmente à redução
da idade penal no país, dos atuais 18
para 16 anos. Motivada por crimes ocorridos
no curto espaço de duas semanas em que
assassinatos bárbaros foram cometidos
por jovens que tem (ou tinham) aproximadamente
16 anos, teve enorme repercussão e reabriu
discussões acerca do trabalho da Febem,
da necessidade de se estabelecer à pena
de morte no país e da proposta de redução
da idade penal.
Aparentemente
tão distantes os acontecimentos,
mas na realidade tão próximos...
Comentando
os acontecimentos que motivaram as manifestações contra a violência
e favoráveis a alterações
no código penal brasileiro, o colunista
Gilberto Dimenstein destacou em sua coluna (no
texto “Os seres humanos que viraram lingüiça”)
que devemos perceber que toda essa violência
por parte de adolescentes poderia ser evitada
se tivéssemos programas de cultura, lazer,
educação e oportunidades de trabalho.

Os
resultados do Enem refletem as desigualdades
sociais marcantes de nosso país.
Análises dos resultados obtidos no ENEM
por estudantes de diferentes camadas sociais
também servem como indicadores da imensa
diferença que faz na vida de uma criança
e de um adolescente o acesso a oportunidades
tais quais acesso a bibliotecas, aulas interessantes,
professores estimulados e em constante atualização,
escolinhas de esportes, oficinas culturais (de
teatro, dança, música,...).
Sem
qualquer sombra de dúvidas podemos
afirmar que os alunos que marcaram os melhores
resultados na média, provenientes de
escolas particulares, contam com opções
como essas. Além disso, em geral, dispõem
de suporte familiar, se alimentam bem, tem acesso
a internet, lêem jornais e revistas,...
Isso
me faz recordar que, apenas para referendar
a afirmação anterior, a revista
Educação publicou em sua edição
desse mês reportagem em que destaca que
apenas 1% das escolas possuem laboratórios
de informática que tem acesso a internet.
No que tange a escolas particulares e sua clientela,
os dados são completamente diferentes.
Fiz um rápido levantamento na escola
em que leciono e num universo de aproximadamente
60 alunos, não chega a 5% o número
de alunos que não contam com computadores
e internet em casa.
Considerando-se
que a escola disponibiliza um bem equipado
laboratório e computadores
conectados a rede, podemos dizer que nem mesmo
esses 5% estão à margem do processo
de integração ao universo virtual
da internet...
Isso
faz uma enorme diferença!

Artes
e esportes fazem grande diferença
na formação de uma criança
e de um jovem, é fundamental que sejam
feitos investimentos em atividades relacionadas
as duas áreas.
Livros,
computadores, internet, laboratórios,
quadras, aulas de arte, visitas a exposições,
contato freqüente com filmes e tantos outros
recursos disponíveis nas boas escolas
particulares realizam um autêntico “upgrade” desses
estudantes.
Em
contrapartida, a rede pública, apesar
de todos os esforços, continua tendo
enormes dificuldades para promover uma aprendizagem
plena e uma total inserção de
um enorme contingente de estudantes a cidadania
e ao mercado de trabalho.
Como
podemos diminuir sensivelmente a quantidade
de crianças que estão trabalhando,
na zona rural, nas esquinas das grandes cidades,
em locais insalubres, sendo exploradas sexualmente
e tantas outras situações totalmente
irregulares se as escolas não atendem
satisfatoriamente as necessidades da sociedade?
De
que forma podemos integrar socialmente nossos
adolescentes e jovens e dessa forma evitar que
caiam na marginalidade se existem poucas oportunidades,
as exigências são cada vez maiores
e a qualidade da preparação está aquém
do que requisita o mercado?
O
que fazer para que o fosso que separa os
resultados obtidos no ENEM, como um autêntico reflexo
da sociedade brasileira, indicador da péssima
distribuição de renda nacional,
deixe de ser um diagnóstico que cada
vez mais nos mostra como um dos países
socialmente mais injustos do mundo?
O
upgrade humano só atingiu verdadeiramente
uma pequena parcela da população,
totalmente elitizada, descrita com perfeição
na matéria sobre exclusão digital
da revista Educação como sendo
constituída por brancos, com mais de
12 anos de escolaridade, renda superior a média
nacional e moradores do sudeste/sul.
“Esta na hora dessa gente bronzeada mostrar
seu valor...” já nos dizia Moraes
Moreira, para isso acontecer, temos que dar
oportunidades...
João Luís
Almeida Machado
Mestre em Educação, Arte e História
da Cultura (Universidade Presbiteriana Mackenzie,
em São Paulo); Professor universitário
atuando na Faculdade Senac em Campos do Jordão;
Professor de Ensino Médio e Fundamental
em Caçapava, SP; é colunista e
pesquisador do Portal Planeta Educação
Envie
e-mails de comentários, sugestões
e críticas para:
profjoaoluis@planetaeducacao.com.br
Obs. A semana
passada marcou a estréia
de duas novas revistas voltadas a educação,
a ciência e a pesquisa, mais especificamente
na área de história. “História
Viva” e “Nossa História” são
importantes reforços para professores,
pesquisadores e estudantes. Bem-vindas!