De
Herbívoros a Carnívoros
A
alimentação nos primórdios da Pré-História

A imagem acima faz parte da seqüência
inicial do filme "2001, Uma
Odisséia no Espaço", do cineasta Stanley
Kubrick.
As
imagens iniciais do filme "2001, Uma Odisséia
no Espaço", de Stanley Kubrick nos colocam diante
de animais com os quais dificilmente nos identificaríamos.
Se parecem muito mais com os gorilas atuais do que com os
seres humanos. Provavelmente a intenção do
cineasta fosse causar um certo desgosto, um desconforto
e uma sensação de estranheza nos espectadores.
Em determinados casos inclusive, gerar uma dúvida
tão grande que levasse um grande número de
pessoas a ignorar o fato de que aqueles animais pudessem
ser verdadeiramente identificados como parentes do Homo
Sapiens.
O
que podemos observar, a princípio, é que esses
hominídeos caminhavam apoiando-se sobre os quatro
membros (braços e pernas), tinham o corpo coberto
por uma pelugem considerável, possuíam um
maxilar protuberante, tinham braços alongados e,
aparentemente, eram herbívoros (se alimentavam de
vegetais).
Se
nos detivermos mais atentamente às imagens apresentadas
e aos hábitos auferidos entre os hominídeos
que desfilam pela tela, perceberemos que, pelo fato de se
locomoverem apoiados nos membros dianteiros e traseiros,
passavam a ter uma visão de mundo reduzida e limitada,
concentrando sua atenção aos caminhos por
onde circulavam e, especificamente, ao solo e ao que estava
no chão ou próximo a ele.
A
dieta de base herbívora passa então a ser
entendida como uma repercussão das limitações
impostas pela locomoção desses hominídeos;
junte-se a isso o fato desses seres viverem num período
onde os outros animais eram consideravelmente mais fortes
e robustos que eles e, passamos a compreender a predileção
de nossos antepassados, nos primórdios de sua existência
pela alimentação herbívora.

O quadro da evolução
humana apresentado acima faz parte do acervo do
Smithsonian Museum of Natural History.
Há registros escritos por estudiosos (antropólogos,
paleontólogos) que adicionam animais rasteiros (pequenos
roedores), insetos e moluscos a dieta humana nessa fase
inicial de nossa existência. Vale ressaltar, que não
se tratavam, esses alimentos (roedores, insetos, moluscos),
de recursos consumidos com regularidade, diferentemente
das diversas espécies de raízes, folhas, gramíneas,
frutas e leguminosas coletadas regularmente.
Há,
no entanto, um momento específico do filme, onde
surge um totem (na forma de uma pedra escura, totalmente
lisa, projetando-se do solo em direção ao
céu), metaforicamente utilizado para representar
a transição dos hominídeos de seu estado
animalesco para uma situação na qual podemos
distinguir o uso de ferramentas (ossos, paus, pedras).
A
modificação mais expressiva é a alteração
na locomoção dos hominídeos, que deixam
de ser quadrúpedes e se tornam bípedes, passando
a andar apoiados apenas nas pernas. Essa alteração
libera as mãos permitindo que elas possam manusear
os elementos disponibilizados pela natureza com maior regularidade,
apropriando-se de noções a respeito do mesmo
(peso, tamanho, resistência), verificando utilizações
possíveis, adaptando a suas necessidades e constituindo,
dessa maneira, suas primeiras ferramentas.
A
alteração na locomoção promove,
também, uma alteração sensível
quanto ao alcance da visão desses hominídeos.
Os horizontes da humanidade se expandem consideravelmente.
Os olhos dos homens, antes voltados para o restrito espaço
do solo que os circundavam, desloca-se para áreas
amplas, abertas, por onde trafegam outros seres, semelhantes
ou diferenciados em relação a ele. Sua compreensão
de mundo se amplia, lenta e gradualmente, em passos constantes
e seguros.

O processo evolutivo promoveu alterações
significativas
no cotidiano dos hominídeos. Um exemplo típico
refere-se
as alterações dos hábitos alimentares,
com a superação de uma
dieta de base herbívora para uma outra, de base carnívora.
Essas
alterações implicam novidades no cotidiano
e nas relações entre os hominídeos
e o mundo que os cerca. Os ciclos de fome não desaparecem
por completo, o que obriga os homens pré-históricos
a continuar procurando alimentos em todos os espaços
pelos quais circula, inclusive no chão. Não
há o abandono do rastreamento no solo, por raízes,
animais rasteiros, insetos ou folhas e frutos. O que ocorre
é um remanejamento de funções, sendo
que o trabalho de coleta passa a ser atribuição
das mulheres, cabendo aos homens a caça e a pesca.
É
fundamental que possamos perceber que esses acontecimentos
se desenvolveram ao longo de milhares de anos e que, cada
nova alteração nos hábitos dos homens
pré-históricos se consolidam apenas depois
da repetição dessas práticas ao longo
de algumas gerações. Igualmente importante
torna-se a percepção de que os acontecimentos,
conjuntamente, forjaram o surgimento de comunidades cada
vez mais organizadas e desenvolvidas.
A
carne, por exemplo, a princípio era consumida crua.
Era natural que, com o passar do tempo, tendo o homem descoberto
as alterações promovidas pelo fogo nas carnes
(ficavam mais macias, apresentavam um sabor mais agradável,
tornavam-se mais fáceis de serem rasgadas pela dentição
durante a mastigação) e, tendo se apropriado
das técnicas que permitiam a produção
do fogo, se regularizassem ações de cozimento.
Mas
os homens pré-históricos descobriram as propriedades
do fogo sobre os alimentos (mais especificamente as carnes),
antes de propriamente dominarem o fogo?
Sim,
de acordo com pesquisas divulgadas nos mais recentes trabalhos
de História da Alimentação, os hominídeos
daquele período teriam descoberto essas reações
promovidas pelo fogo em relação aos alimentos
ao encontrarem carcaças de animais mortos durante
incêndios nas florestas e terem se alimentado desses
restos. Outra explicação relacionada ao fato
apresenta os alimentos sendo cozidos em regiões que
apresentavam águas quentes (fontes termais ou gêiseres).
Outras
incorporações importantes que acompanharam
a transição de uma alimentação
herbívora para uma carnívora referem-se a
revolução agrícola (que acabou com
o nomadismo), a domesticação de animais, a
produção e utilização de utensílios
cerâmicos, de pedras lapidáveis ou mesmo de
madeira para realizar o cozimento, o surgimento dos fornos
para a produção de pães e assados e
o surgimento de vilas, aldeias e cidades. Estávamos
cruzando os limites entre a Pré-História e
a História...
João
Luís Almeida Machado
Mestre em Educação, Arte e
História da Cultura (Universidade Presbiteriana Mackenzie,
em São Paulo); Professor universitário atuando
na Faculdade Senac em Campos do Jordão; Professor
de Ensino Médio e Fundamental em Caçapava,
SP; escreve semanalmente na coluna Cinema e Educação
do Portal Planeta Educação
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