Efeitos
Colaterais da Guerra
A Inflação na Alemanha no início dos
anos 1920

selos utilizados pelos alemães
durante a República de Weimar. Notem que os
valores dos selos são representados em milhões.
Ao
final da 1ª Guerra Mundial, combalida pela destruição
material e humana que havia ocorrido no país, endividada
até o pescoço em virtude das indenizações
devidas aos países vencedores (que acarretaram pagamentos
em dinheiro e a concessão de territórios,
de acordo com os direcionamentos do Tratado de Versalhes)
e com a auto-estima em baixa, à Alemanha da República
de Weimar ainda teve que enfrentar uma feroz crise econômica
interna, onde sobressaíam os índices de desemprego
e inflação altíssimos.
Para se ter uma noção mais clara dos estragos
causados pela inflação na economia alemã,
vale lembrar que em 1921 eram necessários 64 marcos
alemães para comprar um dólar. Passados apenas
dois anos, em 1923, para se obter um dólar seriam
necessários 4 quatrilhões e 200 trilhões
de marcos!
Os efeitos na vida cotidiana foram desastrosos. A quantidade
de desempregados aumentava a cada dia. As pessoas que tinham
emprego ganhavam cada vez menos, pois o dinheiro perdia
o valor a cada minuto (literalmente). Há depoimentos
notáveis que nos colocam em sintonia com aquilo que
viviam os alemães, como o de Agnes Smedley que em
carta a Florence Lennon, em 21 de Dezembro de 1921 disse:
"Em um hotel, a camareira que estava preparando a lareira
desmaiou em nosso quarto. A causa era a exaustão.
Nós conversamos com ela depois e descobrimos que
ela trabalhava 17 horas por dia e ganhava 95 marcos por
mês - aproximadamente 50 centavos de dólar.
Ela mora no hotel, dorme em um quarto com todas as outras
camareiras - um lugar sujo e pequeno. Elas também
recebem alimentação, as roupas elas mesmas
compram, tudo com apenas 95 marcos por mês! Isso significa
que todas elas se tornaram prostitutas e andam pelas ruas
quando tem tempo. Ou então conseguem 'clientes' no
hotel."
Os salários eram tão reduzidos que as pessoas
não tinham condições reais de comprar
mercadorias. Mesmo produtos essenciais ou básicos
na rotina diária das pessoas eram suprimidos nas
compras ou substituídos por outros, mais acessíveis.
Um exemplo disso pode ser visto na declaração
da Sra. Frieda Wunderlich, em entrevista concedida em 1960:-
"Logo que recebi meu salário eu corri para comprar
os produtos básicos. Meu salário diário,
como editora do periódico Soziale Práxis,
era suficiente apenas para comprar um pão e um pequeno
pedaço de queijo ou ainda um pouco de aveia. Um de
meus conhecidos, um pastor (clérigo), veio para Berlim
de um subúrbio com seu pagamento mensal para comprar
um par de sapatos para seu bebê, ele só pode
comprar uma xícara de café."
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As
péssimas condições de vida
da Alemanha no início dos anos 1920 e
as humilhantes condições do Tratado
de Versalhes levaram os alemães a considerar
a República de Weimar e seus representantes
no governo como responsáveis pela calamidade
verificada em virtude das altas taxas de desemprego
e inflação.
Charges, como a apresentada ao lado, mostram
a República de Weimar como um governo
fraco, ausente, desprovido de autoridade.
Essa desconfiança abriu espaço
para o crescimento das alas radicais a esquerda,
como os partidos socialistas e a direita, com
o crescimento do Nazismo. |
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O endurecimento das condições era tão
notável que abria-se espaço para o surgimento
de epidemias. Além disso a dieta das pessoas ficava
cada vez mais restrita, prevalecendo nas refeições
vegetais como nabos, repolhos e batatas. A desgraça
do povo alemão virou motivo de especulação,
com a qual algumas pessoas tentavam ganhar um pouco mais
de dinheiro. Isso pode ser percebido em outro trecho da
carta de Agnes Smedley:-
"A Alemanha se encontra em terríveis condições
esse ano. Isso é particularmente verdadeiro para
as massas de trabalhadores, que estão tão
desnutridos que a tuberculose está tendo uma rica
colheita, particularmente de jovens adolescentes. Apostar
no marco alemão tem sido um dos grandes esportes
dos capitalistas a meses, e como conseqüência
os alimentos aumentaram de 25 a 100 por cento. Eu vivi em
casas de trabalhadores; eles se alimentam de batatas cozidas,
pão preto com banha ao invés de manteiga e
cerveja estragada."
Algumas situações causadas pela inflação
galopante que tomou contra da Alemanha nesse início
dos anos 1920 acabaram se tornando bisonhas e cômicas,
como podemos ver em relação à história
publicada no jornal Daily Express, em 24 de fevereiro de
1923:-
"Um casal de Berlim que estava prestes a celebrar suas
bodas de ouro recebeu uma carta oficial avisando que o prefeito,
de acordo com os costumes prussianos*, os chamava para presenteá-los
com uma doação em dinheiro. Na manhã
seguinte, o prefeito, acompanhado de vários vereadores,
chegaram na casa do casal de idosos e solenemente entregou-lhes,
em nome do estado da Prússia, (o prêmio de)
1 quatrilhão de marcos ou ... menos de 5 centavos
de dólar."
A turbulenta situação interna da Alemanha
forçou os Estados Unidos e a Inglaterra a interferirem
revendo os prazos e termos de pagamentos das dívidas
de guerra, auxiliando na reorganização do
Banco da Alemanha para estabilizar a moeda e concedendo
empréstimos pra recuperar a produção.
As medidas resultaram em melhorias e estabilidade, a taxa
de desemprego voltou a índices considerados normais
em 1928 (aproximadamente 8% da população economicamente
ativa estava desempregada).
Infelizmente as medidas foram tardias e abriram espaços
para os radicais nazistas comandados por Adolf Hitler...
Os depoimentos disponíveis nessa página foram
traduzidas do site
http://www.spartacus.schoolnet.co.uk/
João Luís Almeida Machado
Mestre em Educação, Arte e
História da Cultura (Universidade Presbiteriana Mackenzie,
em São Paulo); Professor universitário atuando
na Faculdade Senac em Campos do Jordão; Professor
de Ensino Médio e Fundamental em Caçapava,
SP; escreve semanalmente na coluna Cinema e Educação
do Portal Planeta Educação (www.planetaeducacao.com.br).
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críticas para:
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