Um
Gênio na Cozinha
Leonardo Da Vinci e a Alimentação
no Renascimento

Auto-retrato do artista,
cientista, pensador,
arquiteto, engenheiro, inventor e dono de
restaurante vegetariano, Leonardo Da Vinci.
Em
1980 foi descoberto o Codex Romanoff
ou, para simplificar, os "Cadernos de Cozinha"
de Leonardo Da Vinci. Não há, evidentemente,
comprovação total de que os registros
anotados nesse documento tenham sido produzidos
pelo gênio maior do Renascimento. Entretanto,
existem vários indícios nos escritos
que nos permitem supor que essa relíquia
seja autêntica.
Entre
eles poderíamos citar nomes de personalidades
da época com as quais Leonardo teve contato,
locais nos quais viveu ou pelos quais passou,
hábitos típicos do período
renascentista, alimentos próprios da região
onde vivia o artista e inventor,...
Uma
outra informação que nos coloca
em sintonia com a descoberta dos "Cadernos"
refere-se ao fato de que Da Vinci anotava sistematicamente
tudo aquilo que acontecia em sua vida. Mantinha
total regularidade em relação a
seus apontamentos e tinha como prática
detalhar todos os acontecimentos, mesmo aqueles
que faziam parte de um cotidiano que a maioria
das pessoas parece viver, mas não perceber
e saborear.
A
partir da descoberta desse precioso arquivo pessoal
de Da Vinci está sendo possível
perceber que seus conhecimentos avançaram
não apenas na área das artes plásticas
e da ciência, da engenharia ou da filosofia.
Atingiram também as artes da mesa. Essa
passagem de Leonardo pela gastronomia foi significativa.
Nos legando desde alguns artefatos considerados
básicos (e essenciais) na área,
como os guardanapos e as tampas de panelas e
repercutindo também pelo fato do artista
ser vegetariano, numa época em que as
carnes eram consideradas essenciais para a composição
de uma alimentação farta e um indicativo
de posição e status social.
Leonardo
não parecia muito interessado em firmar-se
dentro desse universo social das elites de Milão
e Florença a partir de concessões
que lhe fizessem ser reconhecido como parte do
grupo. Por isso, pouco parecia se importar com
a idéia de que comer carne era como um
quesito fundamental para participar desse seleto
"clube". Privilegiava os legumes e
as verduras por acreditar se tratarem de alimentos
mais leves e saudáveis, numa época
em que poucas pessoas pareciam se importar com
a relação entre alimentação
e saúde.

Além de trabalhos
notáveis em arquitetura e anatomia humana,
sempre descritos minuciosamente e desenhados
com detalhes, Leonardo Da Vinci também
contribuiu para a gastronomia ao inventar os
guardanapos e as tampas de panelas.
Um
outro dado esclarecedor dessa relação
de proximidade entre Da Vinci e a Gastronomia
refere-se ao fato de que o inventor (em sociedade
com o amigo Sandro Botticelli) chegou a abrir
um restaurante. Foi um verdadeiro e retumbante
fracasso comercial, especialmente pelo fato de
que não se serviam pratos com carnes.
O estabelecimento, se antecipando em aproximadamente
500 anos, era vegetariano.
Além
de trabalhar com verduras e legumes numa época
em que as pessoas estavam mais interessadas em
saborear um bom e suculento filé, Da Vinci
e Botticelli preparavam pratos ornamentados,
uma tendência que se celebraria no período
contemporâneo, para a qual as pessoas comuns
do Renascimento não estavam preparadas.
Outro
feito de Leonardo na área gastronômica
foi trabalhar como mestre de cerimônias
para os banquetes do poderoso Ludovico Sforza,
governante da poderosa cidade italiana de Milão.
Não tinha como incumbência a organização
do cardápio, mesmo por conta de suas preferências
vegetarianas, cabendo-lhe ordenar os banquetes
quanto aos serviços, os instrumentais
utilizados, a programação artística,
a ornamentação dos locais onde
se realizariam as refeições,...
No
período renascentista a alimentação
tinha o intuito de definir as bases sociais,
especialmente na Itália, das poderosas
e ricas cidades que controlavam o acesso de especiarias
provenientes do Oriente, através do Mar
Mediterrâneo. Por isso, as tradicionais
e poderosas famílias que reinavam em Florença,
Milão, Veneza ou Gênova organizavam
suas refeições cotidianas, e especialmente
suas grandes recepções, com o intuito
de comprovar sua riqueza e seu poder.
Outra
informação importante refere-se
ao fato de que, a composição básica
da alimentação cotidiana era feita
com produtos típicos de cada região.
Especialmente no que se refere aos alimentos
que estragam com maior rapidez. Por isso, os
produtos importados do Oriente eram caros demais
para o povo e, dificilmente atingiam os pratos
daqueles que estivessem longe das cidades (caso
da maioria esmagadora da população,
que vivia no campo).

Além de pinturas
famosas no mundo todo, como a Mona Lisa, o registro
de
suas receitas no documento "Codex Romanoff"
nos permite afirmar que
Leonardo Da Vinci sintetizou toda a genialidade
do Renascimento Cultural
dos séculos XV e XVI, se tornando seu
maior expoente.
Nesse
momento histórico tão específico
que é o Renascimento, floresce o gênio
de Da Vinci, inclusive na gastronomia, como podemos
conferir com algumas receitas disponibilizadas
em seus "Cadernos", das quais selecionamos
duas, apresentadas a seguir.
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Sopa
de Folhas de Nabo
Há
quem afirme que as folhas de nabo e
repolho, em qualquer de suas formas,
são comida apropriada apenas
para aqueles de forte compleição
(lavradores, carregadores de pedras,
açougueiros) e que os inválidos,
bibliotecários, pessoas pequenas
ou de digestão delicada deveriam
manter-se afastados deles.
Eu, por outro lado, afirmo que as folhas
de nabo e os repolhos tornam forte uma
digestão fraca, por causa da
propriedade de suas folhas, as quais
já vi reviver uma vaca moribunda
e alegrar uma vaca doente.
Aqueles que crêem na primeira
dessas teorias devem provar a sopa.
Deve-se fazer molhos com as folhas de
nabo e os repolhos e amarrá-los
com crina de cavalo. Em seguida, mergulhe-os
em água fervente e sal e deixe-os
ali por uma hora. O líquido obtido
pode ser um prato leve para a Quaresma.
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Pudim
de Mosquito Branco
Moa
amêndoas descascadas e sem pele
junto com um pouco de flores de sabugueiro
e passe tudo pela peneira. Cozinhe lentamente
por meia hora, junte peito de capão
cozido com um pouco de mel e moa tudo.
Regue a mistura com água de rosas
e sirva de imediato. Este prato é
de digestão muito lenta e não
aconselhável para aqueles que
têm a Peste e para aqueles que
querem saber por que tem este nome,
questão à qual não
posso responder.
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Obs.: "Os Cadernos de Cozinha
de Leonardo Da Vinci" viraram um pequeno
e charmoso livro, editado no Brasil pela Editora
Record. Aconselho sua leitura, extremamente agradável
e curiosa para os estudiosos da história,
da gastronomia e para todos que tem interesse
no assunto e no período. Trata-se, verdadeiramente,
de uma obra imperdível.
João Luís Almeida Machado
Mestre em Educação,
Arte e História da Cultura (Universidade
Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo);
Professor universitário atuando na Faculdade
Senac em Campos do Jordão; Professor de
Ensino Médio e Fundamental em Caçapava,
SP; escreve semanalmente na coluna Cinema e Educação
do Portal Planeta Educação
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