Vampiros
de Auschwitz
(Histórias do Holocausto na 2ª Guerra Mundial)

(Depoimento
de Gisella Perl, judia que trabalhou como médica
no campo de concentração/extermínio
de Auschwitz durante a 2ª Guerra Mundia).
A
visão que tivemos ao entrar no Bloco VII é
uma das que nunca esqueceremos. Das jaulas ao lado das paredes,
aproximadamente seiscentas jovens mulheres em estado de
pânico, tremendo, olhavam para nós, silenciosas
e suplicando. Outras cem estavam deitadas no chão,
pálidas, desmaiadas, sangrando. O pulso delas era
inaudível, suas respirações tensas
e forçadas e poças fundas de sangue estavam
ao lado de seus corpos. Homens fortes e grandes da SS (soldados
nazistas) iam de um a outro corpo, enfiando enormes agulhas
nas veias das prisioneiras e roubando as últimas
gotas de sangue dos corpos inanimados.
Os
alemães precisavam de sangue para transfusões!
As cobaias de Auschwitz eram as pessoas ideais para fornecer
o plasma. A idéia de raça inferior ou de contaminação
com "sangue judeu inferior" haviam sido esquecidas.
Nós (os judeus) éramos muito inferiores para
continuar vivendo, mas não tão inferiores
para manter o exército alemão vivo com o nosso
sangue. Além do mais, ninguém nunca saberia.
Os doadores de sangue nunca sobreviveriam para contar a
sua história. Lá pelo final da guerra o trigo
cresceria sobre as nossas cinzas e o sabão feito
de nossos corpos seria usado para lavar a roupa dos heróis
alemães retornando para casa.
Nós
fomos mandados para colocar aquelas mulheres de pé
antes que elas retornassem para o campo de concentração,
dessa forma estaríamos arrumando lugar para outras
pessoas. O que poderíamos fazer sem desinfetantes,
remédios e outros líquidos? Como poderíamos
repor o sangue brutalmente roubado? Tudo o que tínhamos
eram palavras, encorajamento, ternura. E mesmo nessas condições,
sob os nossos cuidados, essas pessoas desafortunadas, vagarosamente,
retornavam a vida e até sorriam quando diziam: "Isso
é ainda melhor que o crematório".
O
Bloco VII estava sempre cheio. Às vezes eram mulheres
com belos olhos, que eram mandadas para cá, outras
vezes aquelas que tinham mãos bonitas. E as pobres
desgraçadas sempre acreditavam nas histórias
que lhes contavam, vinham e, para a diversão dos
SS davam suas últimas e preciosas gotas de sangue
para os soldados alemães que utilizavam a força
roubada delas para matar seus amigos, parentes ou aliados.

Um
dos objetivos básicos dos nazistas era desmoralizar,
humilhar e arruinar os judeus, não apenas fisicamente,
mas também, espiritualmente. Eles fizeram de tudo
que estava a seu alcance para nos empurrar no poço
sem fundo da degradação. Seus espiões
estavam constantemente entre nós para mantê-los
informados a respeito de cada pensamento, cada sentimento,
toda reação que tivéssemos e, nunca
sabíamos quem era o agente deles.
Havia
apenas uma lei em Auschwitz - a lei da selva - a lei da
sobrevivência (da autopreservação).
Mulheres que em suas vidas normais eram seres humanos decentes
e respeitáveis, agora roubavam, mentiam, espiavam,
batiam nas outras e, se necessário, matavam para
salvar suas próprias vidas. Roubar tornou-se uma
arte, uma virtude, algo para se ter orgulho. Nós
chamávamos isso de "organização".
Aqueles que trabalhavam perto dos crematórios tinham
a oportunidade de "arrumar" (obter, conseguir,
roubar) uma ocasional lata de comida, um par de sapatos,
um vestido, uma panela, um pente, que elas vendiam no mercado
negro (que funcionava nas latrinas) por comida, em troca
de favores especiais, e - se os compradores fossem homens
- por "amor".
Mas
entre as trabalhadoras do crematório que não
estabeleciam conexões havia muitas que "arrumavam"
(obtinham, conseguiam, roubavam) o pedaço de pão
de suas vizinhas, mesmo sabendo que elas podiam morrer de
fome por isso, ou "arrumavam" os sapatos de suas
parceiras de beliche, sem se importar que os pés
delas, em sangrias, as condenariam para o crematório.
Ao roubar pão, sapatos, água, você roubava
uma vida para você, mesmo que fosse a custa de outras
vidas. Apenas as fortes, as cruéis, as impiedosas
sobreviviam. Os SS estavam, é claro, muito espantados
com estas práticas e as encorajavam ao concederem
favores especiais a algumas, para fazer com que surgisse
o ciúme, o ódio e a ambição
entre as outras.
As
informações disponíveis nessa página
foram traduzidas do site
http://www.spartacus.schoolnet.co.uk/
João
Luís Almeida Machado
Mestre em Educação, Arte e
História da Cultura (Universidade Presbiteriana Mackenzie,
em São Paulo); Professor universitário atuando
na Faculdade Senac em Campos do Jordão; Professor
de Ensino Médio e Fundamental em Caçapava,
SP; escreve semanalmente na coluna Cinema e Educação
do Portal Planeta Educação (www.planetaeducacao.com.br).
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