Ódio
Irracional
As Origens da Ku Klux Klan

Cerimônia de iniciação
de novos integrantes da Klan (1954)
O Fim da Guerra Civil Americana, em 1865, parecia
prenunciar paz e prosperidade para os Estados
Unidos. Apesar do grande número de baixas
verificadas durante a guerra (aproximadamente
600 mil pessoas), a convicção dos
vitoriosos nortistas em relação
a seus propósitos econômicos (investimentos
na ampliação do mercado interno;
desenvolvimento da estrutura industrial) e a
libertação dos escravos (que permitiria
maior justiça social e a ampliação
do mercado consumidor), pareciam ser as mudanças
fundamentais para consolidar o país na
condição de maior potência
continental e, num segundo momento, permitir
alcançar a primazia mundial.
Não contavam os norte-americanos com uma
outra "guerra" que se iniciaria em
seu território. Realizada, como a anterior,
por motivos raciais. Não chegaria a atingir
a condição de verdadeira batalha,
mas faria um enorme estrago e inúmeras
vítimas. Baseava-se no incontido ódio
e desprezo dos brancos sulistas pelos negros,
com os quais, de acordo com as novas leis que
vigoravam no país, teriam que conviver
em pé de igualdade.
Não que isso tenha se estabelecido plenamente,
apesar dos esforços constantes de membros
do Congresso norte-americano. Entre suas iniciativas,
logo após o final da Guerra de Secessão,
ainda no ano de 1865, destacou-se o surgimento
de um departamento governamental chamado de "Escritório
da Liberdade" (Freeman's Bureau). Tinha
por objetivo auxiliar os ex-escravos a conseguir
emprego, educar-se e ter acesso a serviços
de saúde. Chegou a gastar, apenas no seu
primeiro ano de funcionamento o equivalente a
U$ 17 milhões para criar 100 hospitais,
4000 escolas, fornecer alimentos e abrigo para
os ex-escravos.

Capuz tradicionalmente
usado por membros da KKK
Sofreram com os vetos impostos pelo presidente
Andrew Johnson, em 1866, dificuldades para ampliar
suas atividades. Johnson, inclusive, vetou a
Lei de Direitos Civis (Civil Rights Bill) que
tinha por objetivo evitar que os estados do sul
aprovassem leis estaduais discriminatórias,
conhecidas como Black Codes (através dessas
leis, os sulistas proibiam os negros de participar
de pleitos eleitorais, vetavam sua participação
como jurados em tribunais, os impediam de carregar
armas em lugares públicos e, além
disso, restringiam seu acesso a certas profissões
e trabalhos).
Em 1866, devido às novas eleições,
a quantidade de congressistas favoráveis
a defesa dos direitos civis aumentou. Foi votado
o Reconstruction Act através do qual,
os homens negros passavam a ter direito de votar
e novas eleições foram convocadas
em cada um dos estados sulistas. Essas leis também
incluíam o direito dos novos governadores
voltarem a ter representantes no Congresso caso
ratificassem a 14ª Emenda Constitucional
e dessem garantias ao voto dos negros. Apesar
da tentativa de veto de Andrew Johnson, a lei
foi aprovada pelo Congresso.
Como reação às medidas favoráveis
a integração dos negros a sociedade
sulista, surgiu em 1866 a Ku Klux Klan, no estado
do Tennessee. Um ano depois a organização
já havia crescido e atingia outras regiões.
A maior parte dos líderes eram ex-soldados
do exército sulista que haviam lutado
contra a abolição na Guerra de
Secessão. Já adotando, desde então,
as vestes pelas quais ficariam mundialmente conhecidos,
com seus rostos e corpos cobertos por lençóis
brancos até o tornozelo. Iniciava-se uma
história de violências e atrocidades
sem igual nos registros norte-americanos. Perseguições
aos negros e, posteriormente, a ampliação
de seu raio de ação, com ações
radicais e covardes contra outras minorias como
os judeus, católicos, socialistas, comunistas,
simpatizantes dos direitos civis e hispânicos.
As primeiras ações da KKK, como
passou a ser chamada, estabeleceram como prioridade
combater o direito de voto dos negros (maior
símbolo de acesso à cidadania e
aos direitos); no desenvolvimento de suas ações,
os membros da Klan contaram com o auxílio
de outras instituições racistas
norte-americanas, como a Irmandade Branca (White
Brotherhood), os Homens da Justiça (Men
of Justice), os Guardiões da União
Constitucional (Constitutional Union Guards)
e os Cavaleiros da Camélia Branca (Knights
of White Camelia).

Como forma de intimidação,
os membros da Klan
queimavam cruzes em frente as casas das pessoas
que pretendiam ameaçar.
Os ataques violentos prosseguiram com enforcamentos,
incêndios em casas de negros, mortes por
espancamento,...
O governo federal norte-americano, através
de investigações e leis criadas
pelo Congresso e pelo presidente Ulysses S. Grant,
ainda nos anos 1870, tentaram inviabilizar as
ações da Ku Klux Klan. Descobriram
que a organização já tinha
um código de leis próprias, através
das quais definia que todo o membro da Klan teria
que providenciar seus próprios trajes
e, no mínimo, possuir uma pistola; o governo
descobriu ainda que as ações violentas
ocorriam preferencialmente à noite e que
as vítimas eram retiradas de suas próprias
casas, arrastadas para locais pouco aprazíveis,
torturadas de forma desumana e mortas com crueldade.
O Surgimento da lei conhecida como Ku Klux Act,
em 1871, deu ao presidente autonomia para intervir
nos estados sulistas. Isso permitiu que a Klan
fosse extinta (se não totalmente, ao menos,
parcialmente) até 1915.
O retorno da organização nos anos
1910 e, seu espetacular crescimento nos anos
1920, entretanto causaram enorme preocupação
as autoridades. Foi a partir desse momento histórico
específico que a Klan passou a perseguir
pessoas de outras origens (inclusive estrangeiros),
além dos negros. Em 1925, a KKK chegou
a ter 4 milhões de filiados. E o pior
de tudo, a impunidade continuava. Dificilmente
um membro da Ku Klux Klan era preso ou, ainda
mais raro, condenado.
O final da década de 1920, no entanto,
não foi dos mais felizes para a Klan.
Abalada por escândalos envolvendo alguns
de seus principais membros, relacionados a denúncias
de corrupção (como o prefeito de
Indianápolis); tendo sofrido a perda de
seu líder máximo, preso por assassinato
e, numa época de terrível crise
social e econômica (em decorrência
do Crack da Bolsa de Nova Iorque, em 1929), o
número de "associados" da KKK
baixou para 30 mil.

O Movimento dos Direitos Civis enfrentou a Ku
Klux Klan sem se deixar
Intimidar pela violência ou pelas frequentes
provocações dos racistas.
A força do grupo retornou a partir dos
anos 1950, com o crescimento a nível nacional
do Movimento de Direitos Civis (Civil Rights
Movement). Prevalecia no Sul do país a
lógica perniciosa que dizia que os negros
eram "iguais" mas que teriam que ter
acesso aos direitos "separadamente".
Isso significava na prática que os negros
teriam acesso à educação,
ao transporte público ou a saúde,
desde que, em locais diferenciados em relação
aos brancos. Não só separados,
mas também, de qualidade inferior.
Apesar de, legalmente, terem direito de votar,
os negros não se registravam como eleitores
por medo das violentas reações
da Klan, entre as quais, a mais comum nessa época
era o linchamento.
Somente a partir das décadas de 1970 e
1980, quando os tribunais sulistas (pressionados
pela opinião pública e pelo governo
federal), se dispuseram a julgar de forma imparcial
os crimes cometidos pelos brancos, a Ku Klux
Klan sofreu fortes abalos que fizeram com que
ela, inclusive, para pagamento de indenizações,
tivesse que desembolsar montantes equivalentes
a 7 milhões de dólares e perdesse
boa parte de seu patrimônio e sua base
de sustentação e sobrevivência.
João Luís Almeida Machado
Mestre em Educação,
Arte e História da Cultura (Universidade
Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo);
Professor universitário atuando na Faculdade
Senac em Campos do Jordão; Professor de
Ensino Médio e Fundamental em Caçapava,
SP; escreve semanalmente na coluna Cinema e Educação
do Portal Planeta Educação