Pesadelo
1964
A tortura nos porões da ditadura militar brasileira

A imagem acima, do filme "O
que é isso, companheiro?" expressa o sentimento
de indignação da sociedade brasileira dos
anos 1960 com a ditadura militar que
se estabeleceu no país. Passeatas e manifestações
como essa geravam reações
duras e violentas, além de perseguição
aos líderes, encarceramento e tortura.
Cirilo?
Juvenal? Antônio? Foram tantos os nomes que usei que
mal consigo me lembrar daquele que foi registrado em cartório.
Por vezes me esqueço que me chamo Pedro. Pedro Luís
de Almeida e Silva.
Escutava
ao fundo a voz que gritava nos meus ouvidos pelo tal Juvenal
e que alternava esse grito por um ainda mais estridente
chamando pelo Cirilo ou pelo Antônio.
Não
ouvia direito apesar do tom de voz muito alto e dos plenos
pulmões utilizados por esses homens para me atingir,
me ferir, me intimidar...
Havia
levado tanto "telefone" nos ouvidos que acredito
que meus tímpanos foram estourados, o que me levava
a ter dificuldades para escutá-los mesmo que estivessem
a meu lado, atingindo meu pobre corpo, cheio de hematomas,
a jorrar sangue pelo nariz ou pelos cortes e pontos do corpo
queimados com bitas de cigarro.
Já
haviam passado alguns dias desde que chegara lá.
Estava nas dependências de uma das várias áreas
utilizadas pelo DOI-CODI para torturar e reprimir violentamente
(e com crueldade) os inimigos do governo militar que domina
o Brasil desde 1964.
Já
tinha ouvido falar das coisas horríveis que eram
feitas com os "terroristas" (estudantes, professores,
jornalistas, artistas, políticos, operários,...)
que ousavam desafiar o sistema com suas organizações
clandestinas. Sabia que eram depoimentos verdadeiros, pois
alguns dos "companheiros" que haviam ido para
os cárceres da repressão haviam sobrevivido
para contar suas histórias, outros tantos não
tiveram a mesma sorte...
Eu
mesmo era apenas um estudante secundarista quando ocorreu
a tal "Revolução de 64" que, logo
de cara, percebemos ser um golpe de estado dado pelos militares
apoiados pelas forças mais conservadoras e retrógradas
de nossa sociedade (descobrimos depois que os Estados Unidos
também haviam favorecido o estabelecimento dos governos
militares).
Ativo
como estava no movimento estudantil e, tendo em seguida
ingressado na universidade, vim me juntar aos estudantes
que compunham a UNE, participei de movimentos e passeatas,
de congressos (como o de Ibiúna!) e estive presente
nos confrontos da rua Maria Antônia, entre estudantes
da USP e do Mackenzie.
Meus
crimes nessa guerra eram, até então, lutar
pela liberdade de expressão, admirar Che Guevara
e a Revolução Cubana, marchar contra a censura,
pedir a libertação de presos políticos
e contestar a aprovação de leis brutais e
totalmente repressivas como as que foram estabelecidas a
partir dos atos institucionais (em particular as do AI-5).
Inconformado
com o silenciamento dos opositores e o progressivo desaparecimento
de diversos ativistas desses movimentos clandestinos, acabei
me juntando a uma das várias facções
libertárias que existiam no país naquela época.
Percebemos
que com a imprensa sendo obrigada a estampar receitas de
bolo em seus editoriais ou imprimindo páginas em
branco, dificilmente o povo ficaria sabendo o que estava
acontecendo nos porões, nas salas de tortura.
Para
atingirmos nossos objetivos, elaboramos planos de seqüestros
de autoridades nacionais e estrangeiras para que pudéssemos
trocá-las por companheiros que estivessem presos
nos quartéis ou nas cadeias controladas pelo regime
repressivo.
Em
algumas oportunidades fomos bem sucedidos, em outras nem
tanto. Invariavelmente éramos delatados por agentes
da repressão que se infiltravam em nossos movimentos.
Vimos alguns de nossos maiores expoentes, como Marighella
e Lamarca serem mortos impiedosamente. Éramos caçados
e tínhamos que mudar constantemente; migrávamos
de um "aparelho" para outro, de um estado para
outro, de uma cidade para outra como quem troca de roupa.
Tínhamos
que assaltar bancos para poder sustentar nossas ações
e para divulgar nossas causas. Organizávamos nossas
ações em detalhes para que causássemos
grande repercussão no país através
das notícias veiculadas pelo rádio, pela TV
e pelos grandes jornais. A ditadura jamais permitia que
os acontecimentos fossem divulgados na íntegra, principalmente
nossas pichações e incitações
a revolução, a luta contra a ditadura.

O jornalista Vladimir Herzog foi
uma entre várias vítimas das torturas cometidas
Contra presos políticos durante a ditadura militar
de 1964. Como era freqüente
Naquela época, a morte de Vlado foi divulgada como
suicídio. Muitos foram os
Casos em que os prisioneiros morreram e desapareceram ou
foram dados como
Mortos por outras causas e não pelas violências
que sofreram.
Acabei
sendo capturado.
Sofri
como pude, da forma mais corajosa e brava a todo e qualquer
castigo que me fosse imputado para não delatar meus
companheiros, seus esconderijos e nossas ações
futuras. Não sabia até quando poderia resistir.
Desde
que fui capturado passei por várias humilhações.
Fui espancado até que tivesse ossos quebrados, hematomas
por todo o corpo e sangue a escorrer de meus ouvidos e de
meu nariz. Deixaram-me nu e me deram um banho com mangueira
de alta pressão (daquelas usadas pelos bombeiros).
Fraco como estava cambaleei e acabei caindo no chão
várias vezes.
Arrancaram
as unhas de meus pés e de minhas mãos. Me
colocaram em um "pau de arara" e amarraram meu
corpo (nos meus dedos sem unhas, no meu pênis, nos
ouvidos e na língua) a fios que estavam ligados a
uma máquina que produzia eletrochoques. Faziam tudo
isso e mantinham meu corpo molhado para que a corrente pudesse
correr e "queimar" meu corpo com maior intensidade.

O desenho acima é uma representação
de como os presos
políticos eram amarrados no pau de arara, para que
fossem
espancados, levassem choques e sofressem afogamentos.
Fui
queimado com cigarro e, enquanto estava no "pau de
arara" era submetido ao que os torturadores chamavam
de afogamento. Isso consistia em colocar uma mangueira em
minha boca sem que eu pudesse retirá-la, provocando
sufocamento e me levando várias vezes a desmaiar.
Depois
desses acontecimentos, fui levado a "geladeira".
Uma câmara frigorífica onde fui mantido sem
roupas e com o corpo molhado, cheio de queimaduras, escoriações
e ferimentos das mais variadas espécies e envergaduras.
Fiquei lá por algumas horas (perdi a noção
de tempo, não sei se fiquei lá por 15 minutos
ou por 3 horas, tudo parecia uma eternidade).
Quando
voltei a cela, meio alquebrado, fui colocado em companhia
de uma jovem, de aproximadamente 24 anos. Que também
havia sido violentamente torturada. Ela me contou que havia
sido violentada por três torturadores, que seus seios
haviam sido beliscados até sangrarem e que ficara
durante horas com os pés apoiados em cima de latas
de leite condensado (abertas e vazias) que lhe causaram
grandes dores. Era obrigada a fazer isso e não podia
perder o equilíbrio senão seria castigada
com choques por seus algozes.
Rosana,
segundo me dissera ser seu nome, era operária e fora
capturada junto com seu marido, de nome Samuel. Nunca pude
saber se esses eram realmente seus nomes. Não tive
a oportunidade de revê-la. Não sei se escapou
viva desse martírio. Ela foi levada de minha cela
poucas horas depois de termos conversado.
Em
determinados momentos de meu infortúnio fui submetido
à "cadeira do dragão", em outros
a injeções de pentotal. Fiquei durante dois
dias com uma enorme cascavel em minha cela, fui arrastado
por uma corda amarrada a meus órgãos genitais
e, para completar, vítima da palmatória (também
no pênis).
Escapei
por interferência de um pedido do Cardeal de São
Paulo e de autoridades políticas que tinham amizade
com meus pais. Estou indo para o Chile. Quem sabe nas terras
de Allende eu consiga um pouco de paz! Afirmo, porém,
que não perdi meus ideais. Apesar dos olhos roxos,
das costelas quebradas e dos pesadelos que tenho todas as
noites, desde aquele tenebroso período de minha vida.
Pedro
Luís de Almeida e Silva
Viña Del Mar, Abril de 1970
(A
história apresentada acima é fictícia,
mas poderia ser real; ela se baseia em depoimentos e pesquisas
do projeto "Brasil: Nunca Mais", que gerou um
livro-documento sobre o período de ditadura militar
no Brasil, dando ênfase ao funcionamento dos órgãos
de repressão e aos métodos de tortura institucionalizados
durante o período mais duro e brutal desse triste
momento de nossa história, vivido entre 1967 e 1976).
Foram
apresentados alguns termos típicos do jargão
dos porões da ditadura, onde se realizavam regularmente
sessões de tortura, por isso, apresento abaixo uma
breve explicação sobre cada um deles: