Travessia
Infernal

A
jornada pela qual passavam os escravos embarcados
nos navios negreiros misturava fome, falta de higiene, doenças
e morte.
Alguns
milhares de quilômetros separam a América do
Sul da África. A viagem entre os continentes africano
e americano levava apenas algumas semanas, no entanto, nela
aconteceram alguns dos piores momentos vividos pela humanidade
ao longo de toda a sua existência.
O
princípio dessa triste história ocorria ainda
em portos africanos, quando os negros eram comercializados
como qualquer outra mercadoria disponível nos grandes
centros de comércio das maiores cidades locais. Haviam
sido aprisionados em guerras tribais ou caçados por
grupos de brancos especializados na obtenção
de mão de obra escrava para as regiões coloniais
da América. Tinham um valor consideravelmente alto
no mercado da época, pois eram considerados mais
aptos e disciplinados para o trabalho no campo e nas minas.
Eram
propositalmente separados de suas famílias e dos
membros de suas tribos. Procurava-se com isso evitar a possibilidade
de rebeliões em alto mar. Os prisioneiros muitas
vezes não conseguiam se comunicar, pois falavam dialetos
diferentes. Além disso, a separação
causava-lhes imensa dor e provocava danos consideráveis
na estrutura psicológica dos prisioneiros.

Essa figura nos mostra como ficava o interior
de um navio negreiro carregado de escravos. Havia uma clara
preocupação dos transportadores de alojar
o maior número possível de negros para recompor
as perdas (de aproximadamente 20 a 40% dos cativos transportados),
por isso, normalmente transportavam-se mais pessoas do que
o porão podia realmente alojar.
Embarcados como carga animal nos porões dos navios,
atravessavam a viagem de algumas semanas acorrentados e
apertados, sem possibilidades de se movimentarem para ao
menos "esticar a musculatura". O espaço
era tão restrito que muitas vezes tinham que se alternar
entre ficarem sentados ou em pé. As correntes marcavam
seus braços e pernas, causando-lhes ferimentos pela
quantidade de dias que ficavam aprisionados.
No
local onde ficavam não havia a mínima preocupação
com higiene (não existiam banheiros ou qualquer tipo
de instalação sanitária). As fezes
e a urina dos cativos era feita no mesmo local onde estavam
acorrentados. Isso causava um enorme fedor, além
de aumentar as possibilidades de enfermidades pelo contato
com os excrementos ou com animais que por ali circulavam
(como ratos e baratas).
Os
alimentos eram "jogados" uma ou duas vezes por
dia para que os negros pudessem se alimentar. Não
havia qualquer preocupação quanto a quem ia
comer, se alguém deixava de comer, se a partilha
dos alimentos era feita de forma justa e abastecia todos
os cativos,...
Outro
problema com os alimentos refere-se ao fato de que aquilo
que era disponibilizado para os negros era a sobra, ou sejam,
os alimentos que não eram bem aceitos ou eram mesmo
rejeitados pelos marinheiros. Portanto, a parte que cabia
aos escravos era de qualidade duvidosa, muitas vezes, a
eles eram dados os alimentos deteriorados ou apodrecidos.
Entre
os negros que compunham a "carga" do navio eram
encontrados adultos (homens e mulheres numa faixa etária
média de 17 a 25 anos) como maior parte do "carregamento"
(eram mais caros na relação de troca que se
estabelecia nas Américas por estarem com a força
e a saúde necessárias para o serviço
da lavoura), assim como crianças, adolescentes e
idosos de ambos os sexos.
O
espaço em que ficavam era, além de apertado,
muito escuro e mal ventilado, isso acabava tornando ainda
pior a condição de vida e provocava grande
número de mortes. Como já se sabia que isso
aconteceria, os navios negreiros sempre viajavam com uma
quantidade muito maior de cativos do que realmente deveria
acomodar em seus porões. O excesso de "carga"
tinha como propósito repor as perdas causadas pelas
mortes que ocorriam ao longo da viagem e tornar a viagem
o mais lucrativa possível.

O filme "Amistad", do diretor Steven
Spielberg, nos mostra um pouco do drama vivido pelos escravos
em suas travessias infernais entre a África e a América.
(Na foto o ator Morgan Freeman examina o barco Amistad,
em busca de informações sobre a viagem dos
escravos).
Os
escravos que morriam ao longo da viagem eram jogados ao
mar. Até que seus corpos fossem retirados poderia
demorar algum tempo (horas ou, até mesmo, um ou dois
dias). Isso causava problemas relativos ao cheiro do cadáver
e a contaminação dos demais pelas doenças
que tivessem vitimado o morto.
Como
os navios negreiros eram caravelas, feitas de madeira, a
força dos oceanos pelas quais passavam acabava fazendo
com que chacoalhassem intensamente durante ventanias ou
tempestades. Isso fazia com que tanto os escravos quanto
os tripulantes acabassem passando mal e vomitassem. No caso
dos negros a situação era pior, pois não
podiam liberar o resultado de sua náusea para lugar
algum senão o próprio porão onde estavam...
Os
que resistiam a essa travessia infernal chegavam a América
esquálidos ou doentes. Poucos eram aqueles que conseguiam
completar a viagem em boas condições. O que
os esperava, no entanto, não era muito melhor...
João
Luís Almeida Machado
Mestre em Educação, Arte e
História da Cultura (Universidade Presbiteriana Mackenzie,
em São Paulo); Professor universitário atuando
na Faculdade Senac em Campos do Jordão; Professor
de Ensino Médio e Fundamental em Caçapava,
SP; escreve semanalmente na coluna Cinema e Educação
do Portal Planeta Educação (www.planetaeducacao.com.br).
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