Notícias
da Grande Guerra (1914-1919)
A
vida nas Trincheiras
"De
ratos e homens"

A
vida nas trincheiras era marcada por privações
como
a escassez de recursos (alimentos, roupas, munição)
e
pela falta de higiene que ocasionava o surgimento
de ratos
e insetos e as conseqüentes doenças
e ferimentos
As
trincheiras se tornaram ao longo dos anos da
1ª Guerra Mundial um dos palcos principais
por onde passaram as tropas. Estacionados em
virtude de um grande equilíbrio no confronto
entre os países envolvidos no conflito,
os exércitos se estabeleciam nas trincheiras
por longos períodos. Conseqüentemente
as trincheiras acabaram se tornando cenário
de muitas histórias de sobrevivência
e de morte. Entre as principais causas de morte
se encontram a falta de higiene e o contato freqüente
com ratos e insetos, além do frio e de
todo o stress provocado pelo longo período
em que ficavam parados nas trincheiras e pela
possibilidade de serem alvejados por seus inimigos.
Muitos
homens que morriam nas trincheiras eram enterrados
onde caíam. Se a trincheira ficava muito
cheia eram feitos novos buracos para que fossem
colocados os corpos. Eventualmente, quando se
iniciavam preparativos para a ampliação
do espaço de circulação
dos soldados nas trincheiras, era comum que alguns
dos corpos fossem encontrados, em avançado
estado de decomposição. Outro problema
sério encontrado nas trincheiras eram
os ratos, atraídos pelos cadáveres
e pelos alimentos estocados nas guarnições.
A quantidade de ratos aumentava enormemente (cada
casal de ratos podia ter até 880 filhotes
ao longo de um ano) e, conseqüentemente,
as trincheiras acabavam contando com esse inconveniente.
Alguns
desses ratos cresciam muito, atingindo tamanhos
consideráveis. Como haviam muitos feridos
nas trincheiras, não era incomum que eles
fossem atacados pelas ratazanas e, tivessem dificuldades
para se proteger. Outra situação
corriqueira nas trincheiras nessa estranha e
desagradável relação entre
homens e ratos ocorria quando os roedores se
escondiam nos bolsos dos casacos dos soldados
ou ainda nos sacos de dormir, causando enormes
sustos, fora mordidas e infecções
(o primeiro lugar que os ratos costumavam atacar
eram os olhos, partindo posteriormente para o
interior do corpo).

As trincheiras atingiam dimensões consideráveis,
onde se permitia
Não apenas a circulação
dos soldados mas também o surgimento de
"buracos" que se tornavam "instalações"
onde eram construídos alojamentos
para os soldados, os oficiais e, até mesmo,
para suprimentos e cozinhas.
Esses
ataques eram tão freqüentes que há
vários depoimentos de soldados a respeito
do "convívio" entre eles e os
ratos, como os que seguem:
"Ratos.
Havia aos milhões!! Alguns eram enormes,
tão grandes quanto gatos. Vários
de nossos homens acordavam e encontravam um rato
se enfiando embaixo de cobertores empilhados
logo ao seu lado!" (Depoimento do Major
Walter Vignoles, Fuzileiros de Lancashire, Inglaterra).
"Eu
não posso dormir em minha trincheira,
ela está cheia de ratos. Pullman dormiu
aqui uma manhã e acordou para encontrar
um deles sentado em seu rosto. Eu não
consigo encarar isso então eu durmo na
trincheira do Newbery." (Carta do Capitão
Lionel Crouch para sua esposa, sobre a vida nas
trincheiras em 1917)
"Eu
vi alguns ratos correndo debaixo dos casacos
dos soldados, ratazanas, gordas por causa da
carne humana. Meu coração ficou
apertado assim que subimos para ver um dos corpos.
Seu capacete caiu e rolou. O homem apresentava
um rosto deprimente, com tiras de carne arrancadas;
o crânio descoberto, os olhos devorados
e da boca aberta apareceu um rato. " (Autor
desconhecido)
"Os
ratos apareciam aos milhares e viviam da riqueza
da terra. Quando estávamos dormindo nas
trincheiras aquelas coisas corriam sobre nós,
circulavam, se reproduziam e procuravam restos
de comida, com os filhotes gritando incessantemente.
Não havia sistema apropriado para lidar
com o lixo nas trincheiras. Milhões de
latas ficavam a disposição dos
ratos na França e na Bélgica em
centenas de milhas de trincheiras. Durante alguns
momentos da noite, podia-se escutar um tilintar
contínuo das latas se movendo uma contra
a outra. Os ratos as estavam vasculhando. O que
acontecia com os ratos debaixo do tiroteio era
um mistério, mas o seu poder de sobreviver
se mantinha mesmo com as novas armas, inclusive
com os gases venenosos." (Depoimento do
soldado George Coppard, extraído do livro
"With a Machine Gun to Cambrai").

O cineasta inglês
Stanley Kubrick registrou a vida nas
Trincheiras da 1ª Guerra Mundial em seu
filme
"Glória Feita de Sangue" (Paths
of Glory) de 1957,
estrelado por Kirk Douglas.
"Se
você deixasse sua comida de lado os ratos
logo a atacariam. Os ratos não tinham
medo. Às vezes nós atirávamos
nos nojentos roedores. Mas você poderia
ser punido por desperdício de munição
se o sargento o pegasse." (Entrevista concedida
em 1983 pelo militar Richard Beasley)
João Luís Almeida Machado
Mestre em Educação,
Arte e História da Cultura (Universidade
Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo);
Professor universitário atuando na Faculdade
Senac em Campos do Jordão; Professor de
Ensino Médio e Fundamental em Caçapava,
SP; escreve semanalmente na coluna Cinema e Educação
do Portal Planeta Educação
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