| O
Diário de Anne Frank

Anne Frank em 1940 “Espero poder confiar inteiramente
em você, como jamais confiei em
alguém até hoje, e espero
que você venha a ser um grande apoio
e um grande conforto para mim.”
Anne Frank, 12 de junho de 1942
Poucos relatos ficaram
tão conhecidos
como o diário escrito por uma menina
judia, recém-saída da infância,
que não chegaria a maioridade por
se tornar mais uma vítima da intolerância
e da brutalidade do nazismo alemão.
Muito mais que um
simples diário,
os escritos de Anne Frank se tornaram
um documento histórico. São
registros de uma época de dor e
profunda amargura em toda a Europa, principalmente
entre os judeus que viviam na Alemanha
e na Polônia. O medo de serem aprisionados
e transportados para campos de concentração
não permitia a Anne e seus familiares
nem ao menos se deslocar livremente nos
estreitos espaços nos quais haviam
se escondido.
Havia uma grande
expectativa por parte de toda a família Frank quanto
aos movimentos da guerra e as eventuais
vitórias dos aliados. Essa grande
ansiedade era suprida com notícias
da guerra, transmitidas pelas rádios
européias, como a BBC inglesa.
“A maior surpresa foi dada pelo
sr. Van Daan ao anunciar, à uma
hora, que os ingleses haviam desembarcado
na Tunísia, Argélia, Casablanca
e Oran. – Este é o começo
do fim – diziam todos, mas Churchill,
o primeiro-ministro britânico, que
provavelmente ouvira o mesmo em Londres,
disse:- Isso não é o fim.
Nem mesmo é o começo do
fim. É talvez o fim do começo. – Você percebe
a diferença? É claro que
não há razão para
otimismo. A cidade russa de Stalingrado,
que há três meses está se
defendendo, ainda não caiu nas
mãos dos alemães.”
Anne Frank, 9 de Novembro de 1942

Em 1996 foi lançado o documentário “Anne
Frank Remembered” em
que se tentava apresentar um pouco
da vida dessa jovem notável.
Entretanto, Anne
Frank foi uma exceção,
num período de grande hostilidade,
preservada em sua integridade pelo esconderijo,
tendo a seu dispor parcos recursos, pôde
escrever a respeito daquilo que estava
acontecendo na guerra e relatar, passo
a passo, momento a momento, as dificuldades
pelas quais seu pequeno grupo passava.
Há passagens surpreendentes em
que o estado de espírito do grupo
se mostrava melhor, motivado por situações
corriqueiras, do cotidiano, como a celebração
de aniversários ou a obtenção
de alimentos. Em outras passagens do texto,
notamos a apreensão de todos quanto
aos destinos dos judeus e as vitórias
do Eixo.
De suas janelas, às escondidas,
conseguiam acompanhar alguns dos acontecimentos
que ocorriam na Holanda, ocupada pelos
alemães.
“Assisti a uma tremenda batalha
aérea entre aviões alemães
e ingleses. Infelizmente alguns dos aviadores
aliados tiveram de saltar de seus aviões
em chamas. Nosso leiteiro, que mora em
Halfweg, viu quatro canadenses sentados à beira
da estrada, sendo que um deles falava
holandês fluentemente. Pediu ao
leiteiro que lhe acendesse o cigarro e
contou que a tripulação
constava de seis homens. O piloto morrera
queimado e o quinto deveria estar escondido
em algum lugar. A polícia alemã veio
e levou os quatro homens perfeitamente
sãos. Fico a imaginar como é que
podiam estar com a cabeça fria
e a mente clara, depois daquele apavorante
salto de pára-quedas.”
Anne Frank, 18 de Maio de 1943
Como alternativa
para o tédio que,
muitas vezes parecia tomar conta do pequeno
mundo em que haviam se estabelecido, os
Frank aproveitavam para ler e se informar.
Lia-se de tudo, a respeito de assuntos
os mais diversificados possíveis.
Depositavam nas leituras a esperança
de que no futuro, esse conhecimento pudesse
lhes ser favorável. Ao mesmo tempo,
queriam se sentir úteis e integrados
as parcas noções de humanidade
que lhes restavam naquele período
de nuvens negras que demoravam a se dissipar...

Essa sequência de fotos de Anne
Frank nos mostra sua
evolução a partir de 1935
até 1942, pouco antes de sua família
se esconder no Anexo Secreto das perseguições
dos nazistas.
“No momento, estou lendo O
imperador Carlos V, escrito por um professor da
Universidade de Göttingen; trabalhou
neste livro durante quarenta anos. Em
cinco dias, li cinquenta páginas;
mais é impossível. O livro
tem quinhentas e noventa e oito páginas,
calcule agora quanto tempo vou levar para
terminar. Há ainda um segundo volume.
Mas é muito interessante!
Quanto uma menina de escola aprende num
só dia! Primeiro traduzi um trecho
do holandês para o inglês,
sobre a última batalha de Nelson.
Depois percorri, por alto a guerra de
Pedro, o Grande, contra a Noruega (1700-1721).
Carlos XII, Augusto, o Forte, Stanislau
Lezinski, Mazeppa, Von Görz, Brademburgo,
Pomerânia, Dinamarca e mais as datas
de costume.
Depois fui parar no Brasil, li coisas
sobre o tabaco da Bahia, a abundância
de café e o meio milhão
de habitantes do Rio de Janeiro, Pernambuco
e São Paulo, sem esquecer o rio
Amazonas...”
Anne Frank, 27 de Abril de 1944
Em agosto de 1944,
mais precisamente no dia 4, denunciados
a holandeses nazistas, os ocupantes
do Anexo Secreto, todos judeus, entre
os quais Anne Frank e seus familiares,
foram presos pela Polícia de Segurança
Alemã e enviados para Auschwitz...

Esse é o prédio de escritórios
onde Anne Frank
e sua família se esconderam entre
1942 e 1944.
Apesar disso, prevalecem
ainda hoje, as palavras marcantes daquela
menina-moça,
no esplendor de seus 15 anos, como um
marco de resistência ao Nazismo
e todas as violências representadas
por esse regime. Como no trecho que segue...
“Realmente, é de admirar
que eu não tenha desistido de todos
os meus ideais, tão absurdos e
impossíveis eles são de
se realizar. Conservo-os, no entanto,
porque apesar de tudo ainda acredito nas
pessoas, no fundo, são realmente
boas. Simplesmente não posso construir
minhas esperanças sobre alicerces
formados de confusão, miséria
e morte. Vejo o mundo transformar-se gradualmente
em uma selva. Sinto que estamos cada vez
mais próximos da destruição.
Sofro com o sofrimento de milhões
e, no entanto, se levanto os olhos aos
céus, sei que tudo acabará bem,
toda essa crueldade desaparecerá,
voltarão a paz e a traquilidade.”
Anne Frank, 15 de Julho de 1944
João Luís
Almeida Machado
Mestre em Educação, Arte
e História da Cultura (Universidade
Presbiteriana Mackenzie, em São
Paulo); Professor universitário
atuando na Faculdade Senac em Campos do
Jordão; Professor de Ensino
Médio
e Fundamental em Caçapava, SP;
escreve semanalmente na coluna Cinema
e Educação do Portal Planeta
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