| "A
Revolução dos Bichos"
"OS
SETE MANDAMENTOS
Qualquer
coisa que ande sobre duas pernas é inimigo.
O que ande sobre quatro pernas, ou tenha asas, é
amigo.
Nenhum animal usará roupa.
Nenhum animal dormirá em cama.
Nenhum animal beberá álcool.
Nenhum animal matará outro animal.
Todos os animais são iguais."
A opressão, tema tão discutido durante
as revoluções burguesas e uma das questões
abordadas na Declaração dos Direitos do
Homem e do Cidadão, criada em agosto de 1789,
durante o fervor inicial do movimento que havia derrubado
a Bastilha e que, algum tempo depois levaria Luís
XVI a guilhotina, se tornou uma das bases que justificam
o levante dos animais da Granja do Solar contra seu
proprietário, o nefasto e violento Sr. Jones.
Indubitavelmente
toda e qualquer revolução legítima
tem como dínamo que mobiliza suas forças
o uso da violência de forma repressiva invariavelmente
associado a situações de penúria
e escassez a que são submetidos os populares.
Remexendo os escritos de Karl Marx podemos nos lembrar
de um de seus mais célebres conceitos como definidor
dessa ação, a clássica definição
de "Luta de Classes".
Mas,
desde quando podemos considerar os animais como seres
que constituem um grupo capaz de afrontar o domínio
sobre eles exercido pelos seres humanos? Seriam a humilhação,
a miséria e as opressões, combustíveis
capazes de tornar os animais conscientes e os levar
a insurreições que virariam a situação
de cabeça para baixo, fazendo dos animais os
gestores de uma propriedade agrícola de bases
coletivistas?

Na
perspectiva do escritor inglês George Orwell,
é possível perceber que sim. Que os animais,
sejam eles porcos, patos, cabras, cavalos ou cachorros,
de tanto apanharem ou serem submetidos a condições
degradantes de existência, poderiam se levantar
e derrotar seus algozes.
Trata-se,
é claro, de uma alegoria através da qual
Orwell nos remete a uma feroz crítica aos totalitarismos
e as desigualdades reinantes tanto no sistema capitalista
quanto no socialismo dos soviéticos (em sua época
mais dura, de maior fechamento, de grande controle da
sociedade pelos órgãos governamentais,
durante o governo de Stálin).
Orwell
retorna ao tema em outra obra prima, "1984".
Critica a postura do estado que admite as incoerências
de discursos contraditórios desde que sirvam
para, num momento embasar as conquistas do governo e,
em outro, criticar posicionamentos e políticas
administradas por estados rivais, de ideologia frontalmente
oposta. Contesta, através de seu personagem principal
a existência do "grande irmão",
a onipresença que acompanha a tudo e a todos
através dos olhos eletrônicos (suprimindo
de forma inconteste as liberdades). Ironiza a sociedade
que se submete ao comando do governo de tal forma que
tem que viver o prazer do amor e do sexo de forma controlada,
desprovida de satisfação e sentimento,
monitorada por um "Ministério do Amor"...
Em
"A Revolução dos Bichos", promove
a revolução que alça os bichos
da Granja do Solar a subversão da ordem e a instalação
da Granja dos Bichos.
Coloca
os porcos Bola de Neve e Napoleão, orientados
em seus princípios e ações pelo
líder Major, no comando dessa nova sociedade.
Os suínos constituiriam a elite intelectual entre
os bichos da fazenda; sendo, portanto, capazes de entender
e racionalizar a sociedade em seu modo de operação
antes da revolução (a ponto de questionar
as orientações vigentes) e de, posteriormente,
encabeçar as transformações e estipular
os objetivos que deveriam ser alcançados por
todos.
Promove
o porco Major a condição de líder
máximo mesmo que postumamente, já que
o porco perece poucos dias depois da vitória
do movimento contra o tirano Jones.
Seu
legado passa a ser disputado, palmo a palmo, por Bola
de Neve e Napoleão. Cada qual com suas opiniões
e planos políticos a serem implementados. A história
dessa disputa define os rumos da experiência vivida
pelos animais submissos, entre os quais o cavalo Sansão,
a égua Quitéria, o burro Benjamin e todos
os outros, menos dotados intelectualmente que confiam
suas vidas a seus 'engajados' líderes.
Bola
de Neve se entusiasma com a possibilidade de uma revolução
sem fronteiras, que ultrapasse os limites da Granja
dos Bichos. Articula transformações que
possam tornar a fazenda independente dos homens e, ao
mesmo tempo, um centro de articulação,
com o auxílio dos pombos e de outras aves, de
movimentos de rebelião em muitas outras fazendas
da Inglaterra e dos países vizinhos.
Napoleão
preza as conquistas locais. Diz que quer consolidar
o espaço objetivamente conquistado pelos animais
e, almeja (secretamente) o poder, a autoridade suprema
sobre os outros bichos, custe o que custar...
O
embate entre os dois porcos tem desfecho trágico.
Em tom tragicômico e irônico, a revolução
deixa de ser legítima e, em seu lugar se estabelece
o ferro e o fogo de quem esquece os "Sete Mandamentos"
ou os altera deliberadamente em favor de privilégios
específicos de uma casta, de uma classe social.
Perde-se a oportunidade de firmar um espaço de
conquista definitiva da solidariedade e do coletivismo,
da cooperação e do socialismo.
Em
seu lugar, os porcos se corrompem e se vendem em busca
do prazer material que seduziu muitos homens de bons
princípios alçados ao poder...
Substituem
seus mandamentos por apenas um, verdadeiro slogan dos
novos tempos na recém renomeada Granja do Solar,
onde se pode ler, em letras garrafais:-
"TODOS
OS ANIMAIS SÃO IGUAIS
MAS ALGUNS ANIMAIS SÃO MAIS IGUAIS
QUE OS OUTROS"
Obs.
Qualquer semelhança entre o enredo de "Revolução
dos Bichos" e os acontecimentos da Revolução
Russa e do período Stalinista na União
Soviética não são mera coincidência.
O autor George Orwell, socialista de carteirinha, era
crítico mordaz de Stálin e das falsidades
proferidas em favor de um sistema que considerava muito
distante do verdadeiro socialismo. Se o leitor associar
o velho Major a Lênin, Bola de Neve a Trotsky
e Napoleão a Stálin entenderá a
referência com perfeição!
João
Luís Almeida Machado
Mestre em Educação, Arte
e História da Cultura (Universidade Presbiteriana
Mackenzie, em São Paulo); Professor universitário
atuando na Faculdade Senac em Campos do Jordão;
Professor de Ensino Médio e Fundamental em Caçapava,
SP; escreve semanalmente na coluna Cinema e Educação
do Portal Planeta Educação
Envie e-mails de comentários, sugestões
e críticas para:
profjoaoluis@planetaeducacao.com.br
Links:
- http://www.turnerlearning.com/tntlearning/animalfarm/
(em inglês)
- http://www.mundocultural.com.br/biblioteca/georgeorwell-revolucao.pdf
- http://www.litteris.com.br/estante.htm
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