Psicologia
 

Viver junto a adolescência

A família vai bem, obrigado.

A formadora de identidade


Viver junto a adolescência

Como é difícil adolescer. Esta é uma verdade tanto para aqueles que estão atravessando esta fase quanto para seus próprios pais. Aquele mundo harmônico, previsível e belo, onde tudo se encontrava no seu devido lugar, começa a desmoronar feito um castelo de areia.

Todas as regras, tudo no que se acreditava, todas as fantasias parecem não ter mais lugar no cotidiano dos adolescentes. A casa se transforma num inferno, o quarto antes todo "ajeitadinho" toma novas e estranhas feições, suas roupas não refletem mais o gosto de seus pais, mas expressam um desejo de definir valores mais pessoais, ainda que com contornos instáveis.

O ambiente saudável dá lugar a um palco por onde circulam infindáveis discussões, na qual cada um dos lados procura fazer prevalecer a sua opinião, mesmo que ela seja radical.

Os pais também denominam este período de "aborrescência", procurando com isso desconsiderar sua importância e a dor que existe no outro lado. A incompreensão e os problemas só existem em seus filhos, pois aquela criança adorável, que quase não dava trabalho, acatava ordens, estava sempre "bem vestida", hoje parece um ser de outro planeta.

Alguma coisa mudou e é muito penoso aceitar mudanças. Geralmente os pais desejam que aquela "paz", antes existente, perdure por toda uma eternidade, pouco percebendo que nesta fase o indivíduo está buscando uma identidade própria, um modelo pessoal, mesmo que em alguns momentos tenha ares de instabilidade e indefinição.

Quando os filhos entram na adolescência, alguns pais até procuram a ajuda de um psicoterapeuta, sempre no sentido de fazer com que o profissional conserte seu filho, pois tudo o que se deveria fazer não deu o resultado esperado. O ambiente familiar encontra-se num caos e, talvez, com uma ajuda de fora, aquele alienígena possa voltar ao normal. Poucos são os pais que percebem a necessidade de uma orientação para lidar com uma situação que é muito nova também para eles. De regra, o problema é sempre o outro, nunca de nós mesmos.
Não se apercebe de que, muitas vezes, a inflexibilidade está no outro extremo.

A rigidez, em boa parte, se encontra nos próprios pais ao não aceitarem serem questionados em suas posturas. As relações, antes verticalizadas - pais têm o poder e filhos simplesmente obedecem - vão exigindo, de ambos os lados, a abertura para um diálogo de concessões, que permita o desenvolvimento de uma estrutura emocional básica para uma expressão madura e adulta no jovem.

O olhar do indivíduo, na adolescência, se desloca de sua pequena constelação familiar, onde os pais têm grande importância, para uma visão mais globalizante, que lhe permitirá perceber outra realidade de mundo, mais rica em variações que sua família. Daí a importância em vivenciar novas atitudes, não no sentido de incorporá-las, mas, sim, de experimentá-las para perceber até que ponto são viáveis para si.

Quando o diálogo preexiste nesta relação pais-filhos, acontecendo o respeito pela individualidade de cada um, quando a fala apresenta nuances de amorosidade e os papéis de cada membro da família estão bem definidos, os conflitos podem ser mais amenos e solucionáveis.

Não se deve esperar uma época específica para observar como estão indo os filhos. Nas estruturas onde sempre aconteceram encontros, onde os relacionamentos foram pautados com afeto e atenção, os valores transmitidos tinham certa coerência quanto à postura dos pais, a passagem do mundo da criança para o do adulto se dará com revoluções pouco críticas.

Não é o liberal ou o rígido que necessita ser questionado, mas o que é coerente com o estilo de vida de uma família. Adotar um procedimento contrário aos valores pessoais irá transmitir uma fragilidade e falsidade nas convicções. Ser verdadeiro com os próprios princípios, no mínimo, dá mais segurança - só posso falar daquilo que sei e vivenciei, nada mais.

Muitas vezes, a orientação necessita, isto sim, ser dada aos pais. São eles que necessitam ser auxiliados a reverem seus próprios valores, sua inflexibilidade, sua rigidez frente a novas posturas. Não somente a sabedoria e a experiência fazem parte do mundo adulto, mas também o endurecimento interior e a necessidade de demonstrar poder. Talvez esteja aí parte do conflito entre as gerações.

José Gino Dinelli
Psicoterapeuta Junguiano ..................

 

A família vai bem, obrigado.

Vive-se atualmente um período repleto de transformações. O mundo parece estar num ritmo muito acelerado, sempre dando a sensação de que jamais poderemos acompanhar os seus passos. O tempo parece correr a tal velocidade que, num piscar de olhos, vemos mais um ano terminar. Todas essas revoluções atingem principalmente o núcleo que representa a sociedade, ou seja, a família. Nela vemos representado, em pequena escala, o mundo tal como ele é, cheio de contradições, revoluções e frustrações.

É assim que procuramos enxergar a família, de um ponto de vista muito pouco otimista e prazeroso. Observamos uma estrutura caótica se movimentando ao sabor dos ventos e mal nos perguntamos por que assume tal configuração.

Culpamos a falta de tempo, de dinheiro, a extrema violência do mundo atual, e procuramos uma justificativa qualquer que nos exima de responsabilidade em relação a ela.

Entende-se por família o núcleo formado por um casal e seus filhos, morando num mesmo local. Essa estrutura é relativamente recente, não tem mais do que três séculos de existência. As sociedades pré-industriais eram duras, lá ninguém era gentil. Havia muito sofrimento, morria-se muito cedo, o casamento era um contrato de conveniências.

A criança era o que havia de mais mal amado na sociedade e morria mais facilmente do que os adultos. Até o final da Idade Média, a intimidade entre os membros de uma família era inexistente. As pessoas, na maioria das vezes, viviam juntas em grandes casas. Havia todo um universo de vizinhos, parentes, criados etc, que freqüentavam e habitavam o mesmo espaço, em condições promíscuas. Na mesma sala todos comiam, dormiam, dançavam, faziam amor, trabalhavam e recebiam visitas. Era impossível se isolar.

Tal ilustração serve para nos mostrar que a estrutura familiar, assim como o ser humano, passou e passa por muitas transformações na sua evolução. Ela é um produto do sistema social e reflete o estado de cultura da sociedade em que está inserida. Ela se amolda às condições de vida dominantes num determinado espaço e tempo.

Para a psicologia, a família é como um sistema, ou agrupamento, sempre em transformação, recebendo e emitindo comunicação para o mundo externo e se adaptando às mais diversas vicissitudes. A família é a formadora de identidade do ser humano. E cada família desenvolve uma forma particular de ser. Cada uma tem sua forma particular de se comunicar, sua própria estratégia para resolver dificuldades, uma determinada maneira de responder às necessidades afetivas de seus membros e uma forma de lidar com perdas, mudanças e conflitos.

Como temos medo dos conflitos, procuramos sempre que possível evitá-los, pois eles nos apontam para algo que o tempo todo não queremos enxergar: alguma coisa vai mal em nossa família. Quando não podemos mais esconder tal fato, procuramos o responsável pela desarmonia, elegemos um bode expiatório, o indivíduo que vai carregar toda a culpa da família. Quando não somos maduros o suficiente para nos responsabilizarmos pelos nossos erros, elegemos alguém para cumpri-los. O restante da família, geralmente aliviado, termina por jogar para tal membro os outros compromissos.

O conflito, normalmente, tem a função de fazer com que as pessoas percebam que a estrutura familiar a que pertencem perdeu, num determinado ponto, seu equilíbrio, e encerra nele mesmo a sua solução. Nesse ponto, é sempre muito importante que cada elemento dessa estrutura consiga ter sensibilidade suficiente para ouvir as necessidades individuais, não-cumpridas, de cada um.

O caminho sempre apontado é o de uma transformação na estrutura, tornando-a mais apta e satisfatória para todos os seus membros.
Em boa parte das vezes, regras e normas necessitam ser revistas e adaptadas às novas exigências da família. Por exemplo, não se pode exigir que eduquemos adolescentes com as mesmas normas utilizadas quando ainda eram crianças. Normas necessitam ser transformadas a todo instante.

José Gino Dinelli
Psicoterapeuta Junguiano.................


A formadora de identidade

Apesar de muitas pessoas tecerem inúmeras críticas à família, esta estrutura de relações humanas é a responsável direta pela formação e evolução da identidade de seus membros. Existem diversos modelos, cada qual adaptado à cultura em que está inserido, bem como correspondendo aos valores e expectativas de seu tempo.

Tem-se a idéia errônea de que a família é uma célula estática, sofrendo poucas alterações durante o seu tempo de vida. Como um ser humano, ela apresenta sua história de desenvolvimento e vários estágios de transformações: ela nasce, cresce, desenvolve seus membros, espalha-os, se retrai e morre. Em cada um dos estágios, ela troca e altera códigos e normas internas no intuito de provocar mudanças positivas nos seus componentes.

A família, como formadora de identidade, aquela que molda a individualidade de seus participantes, tem duas funções básicas: a de desenvolver um sentimento de pertencer, isto é, de fazer parte de alguma coisa, e o sentimento de estar separado, ser único e poder ser, algum dia, independente. Estes dois elementos são misturados, dosados e distribuídos, desde muito cedo, a partir dos primeiros processos de socialização do indivíduo.

À forma particular que cada família utiliza para estruturar suas relações, trocar afetos, definir funções, resolver conflitos, delegar responsabilidades, provocar mudanças, dá-se o nome de padrão de interação. Esses padrões são constituídos de laços, limites, papéis. Não são estáticos, pois diversos padrões acontecem ao mesmo tempo, como numa dança. A forma de interação é resultado de anos de negociações, explícitas e implícitas, entre os membros de uma família em torno dos acontecimentos do dia-a-dia.

Para a criança, assim como para o adulto, é muito importante saber que faz parte de uma família, que tenha uma referência externa do que ela representa, e se sinta amada e valorizada. O conceito de si mesma vem daquilo que, primeiramente, a família lhe aponta. Pais que acreditam, incentivam e amam seus filhos, desenvolverão neles sentimentos de auto-estima e amor próprio, gerando indivíduos melhor inseridos na sociedade. Geralmente, adultos violentos e egoístas vêm de lares onde os sentimentos de baixa estima e desvalorização faziam parte do cotidiano.

Porém, tão importante quanto desenvolver o sentimento de "pertinência", de auto-referência, é o amadurecimento do sentimento de independência.

Aprende-se a viver saudavelmente no mundo através de uma estrutura familiar que permita que seus componentes percebam-se como indivíduos, seres únicos, separados e com identidade própria. Famílias que não permitem que seus filhos cresçam e adquiram independência, impedem sua evolução nas relações sociais, criando seres frágeis e inseguros.

Como em qualquer organização social, na família há regras, política e padrões de comportamento. As regras são potentes e servem de guia, e estão a serviço dos esforços para o crescimento de seus membros. Um dos componentes básicos na estrutura da família, em bom funcionamento, é a clara separação de gerações, oferecendo a cada indivíduo a experiência de ser parte de um todo seguro e acolhedor.

Questões conflituosas podem ser discutidas sem, necessariamente, ameaçar a continuidade e a coesão da unidade. A geração mais nova (filhos) pode estar envolvida com a geração mais velha (pais), sem maiores problemas.

Todos podem olhar para o futuro sem medo de que isso leve para longe do presente. Todos os intercâmbios, interações familiares, são percebidos como sendo parte de uma cultura emergente. Para tudo isso serve a família, o que não é pouco.

José Gino Dinelli
Psicoterapeuta Junguiano.......................


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