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Pelo
surgimento de mentes brilhantes
Numa
dessas manhãs em que me sento sozinho para tomar café,
pouco antes de ir para a escola ou para a universidade, lia
algumas das colunas do jornal de Domingo, entre as quais destaco
sempre, como uma de minhas preferidas, a do jornalista Gilberto
Dimenstein (publicada pela Folha de São Paulo no dia
31 de março do presente ano de 2002).
Jornalista idôneo, sério, respeitado no Brasil
e no exterior, Dimenstein dá um espaço importante
para temas relacionados a educação em muitos
de seus escritos; defende, com ênfase, uma maior (muito
maior, diga-se de passagem) responsabilidade do Estado e da
Sociedade Civil no que se refere ao estabelecimento de escolas
mais qualificadas, a dotação das escolas com
os recursos materiais necessários para uma pronta inclusão
dos educandos as comunidades as quais pertencem (uma de suas
mais relevantes brigas nessa área diz respeito
a necessidade de adoção rápida dos computadores
nas redes públicas de ensino, o que permitiria, segundo
ele, a alfabetização digital e a concessão
de elementos que levariam os brasileiros a integrar-se ao
mundo virtual!), que as escolas contem com grupos de funcionários
qualificados para prestar os serviços que o universo
educacional de hoje depreende e, principalmente, entre outras
propostas, que os professores estejam preparados para entrar
em sala de aula e, muito mais que ensinar conteúdos,
que estejam prontos para fazer com que seus alunos aprendam
a aprender.
Pois bem, no último dia de março, Dimenstein
destacou duas recentes pesquisas, uma comentada em artigo
do mesmo jornal pelo médico Dráuzio Varella
sobre as raízes biológicas da violência
e outra, acerca do Alfabetismo Funcional.
O artigo de Dimenstein, no todo, versa sobre a questão
dos estímulos, como sendo essenciais para o pleno desenvolvimento
das crianças em sua fase pré-escolar, dos 0
aos 3 anos e, utiliza como fundamento para uma analogia, das
colocações de Dráuzio Varella sobre recentes
descobertas da neurociência, que atestam que uma criança
recém-nascida, ao ter um de seus olhos tampados por
um período de um mês, pela conseqüente ausência
de estimulação relativa as luzes e sombras,
ficaria cega, não desenvolveria a visão.
Na outra ponta da comparação apresentada no
artigo, estão os dados que nos permitem saber que no
Brasil, aproximadamente ¼ da população
alfabetizada sabe ler mas estaciona no sentido literal das
palavras, sendo incapaz ou pouco afeita (para não se
referir a essa incapacidade como uma nulidade total) a analisar,
comparar, criticar com profundidade (atitude própria
de quem aprofundou seus estudos, leu muitos livros, assistiu
filmes, informou-se através de jornais e revistas,
conversou com muitas outras pessoas a respeito de vários
temas, viajou,...), interpretar e, especificamente, compreender
nas entrelinhas o que está sendo lido.
Ir além do que foi lido e criar, propor releituras,
novas interpretações, estimular discussões,
aprofundando as idéias apresentadas, participando-as
a partir de diferentes pontos de vista então, apesar
de não termos dados relativos a isso a partir dessa
pesquisa, deve se restringir a um grupo ínfimo, extremamente
reduzido, bem próximo de 1 ou 2% da população
brasileira alfabetizada (num país, que diga-se de passagem,
possuí um grande contingente de analfabetos! Neles,
nem estamos pensando, não por não serem importantes,
pelo contrário, pelo fato de não estarem inclusos
nas referências da pesquisa em análise na presente
coluna).
Dimenstein centra sua atenção ao descaso do
governo em relação aos baixos (ou, na maior
parte dos casos, nenhum) investimentos públicos no
que deve ser considerado essencial para a formação
de futuros cidadãos, conscientes de seus direitos,
respeitosos no tocante a seus deveres, estudantes interessados
e de bons resultados na vida escolar, profissionais competentes,
ou seja, o desembolso de verbas para as áreas de pré-escolas
e creches.
Lembra que é nessa fase da vida (dos 0 aos 5 anos),
que desenvolvemos as habilidades de aprendizagem, a curiosidade,
o gosto pelo conhecimento, a desenvoltura para as atividades
físicas e intelectuais. Plenamente estimuladas, é
claro, nossas crianças poderiam fazer muito mais do
que tem feito. A falta de escolas para crianças nessa
faixa etária, a oferta reduzida de vagas nas creches
(que faz com que os pais de famílias carentes acabem
deixando suas crianças em casa, muitas vezes orientadas
por irmãos mais velhos ou sob a guarda de vizinhos,
o que, convenhamos constitui situação de grande
risco), o baixo nível de estudos das pessoas que trabalham
nessas instituições, as instalações
indevidas e a reduzida preocupação em relação
a concessão de subsídios (meios, recursos, ferramentas)
que estimulem a formação dessas crianças
como jogos, atividades ao ar livre, vídeos, músicas,
esportes, leituras ou mesmo o carinho e a atenção
(a educação emocional, dos sentimentos, da preocupação
com os outros e consigo mesmo) são de certa forma,
apresentados como fatores que atrasam ou condenam a formação
de muitas crianças pelo Brasil afora.
Expandindo a discussão, poderia dizer que, mesmo nas
escolas particulares que atendem a referida clientela pré-escolar
(dispondo inclusive de berçários) , ou ainda
em creches ou instituições governamentais que
possuam uma estrutura de atendimento considerada adequada,
perguntaria sobre a forma como tem sido feito o estímulo
ao desenvolvimento de cada uma das crianças atendidas.
Os recursos existentes tem sido utilizados com freqüência
e de forma correta? Os professores estão preparados
para o exercício das competências que lhes são
atribuídas? Que papel é dado a música
nessa pré-educação? Que música
é trabalhada, no caso das instituições
que se utilizam desse importante recurso? Animações
e filmes tem espaço nessa formação? Os
jogos que estimulam o raciocínio, a criatividade, a
atenção e a noção de equipe e
coletividade são aplicados? É comum que sejam
feitas leituras ou contadas histórias para as crianças?
Esportes e práticas ao ar livre são cotidianas?
Brincar é uma das prerrogativas da infância?
Iria além e perguntaria sobre a família. Ela
é participativa no processo de formação
dos filhos? Preocupa-se em perguntar e participar (os pais
não devem fazer as tarefas dos filhos porém,
devem acompanhar, incentivar, ajudar em caso de dúvidas,
orientar ou seja, estar por perto!) dos afazeres escolares?
Brinca com as crianças ao final de suas atividades
diárias? (sei que normalmente estamos cansados, com
vontade de encarar um sofá, de ver televisão
ou mesmo de ir dormir, mas e o custo do abandono e da pouca
atenção para nossos filhos, como iremos lidar
com ele mais para a frente? Há certos erros que dificilmente
poderão ser reparados depois!) Lê livros infantis
para os filhos? Conta histórias inventadas? Joga bola
ou anda de bicicleta com as crianças? Tem paciência
diante das dificuldades do mundo infantil, que são
por muitos pais consideradas como tolices ou problemas que
não existem, sendo muitas vezes desprezadas? Conversa
regularmente sobre assuntos do dia-a-dia da família?
Se apresenta como amigo disposto a escutar e partilhar com
a criança novos conhecimentos? Procura acompanhar os
programas de televisão assistidos por seus filhos?
Tudo isso me lembra uma propaganda que passava na televisão
em que se dizia não basta ser pai, é preciso
participar. Apesar das mudanças pelas quais passa
a sociedade que fizeram com que a mulher assumisse novos papéis
e viesse a luta, enfrentando jornadas de trabalho extensas
e cansativas, tendo ainda que cuidar da casa e dos filhos
ao final do expediente. Mesmo levando-se em conta que os homens,
por seu lado, continuam num ritmo incessante de trabalho e
responsabilidades, preocupados com o orçamento doméstico
e com as contas a pagar. Ainda por cima, tendo em vista que
as crianças passam cada vez mais tempo diante da babá
eletrônica, a televisão ou, quando podem,
jogando vídeo-games ou navegando pela internet, é
fundamental interagir, relacionar-se com os filhos, estimular
atividades dos mesmos, essencialmente, diria (filosofando
um pouco), amando-os todos os dias através de atos,
gestos, atitudes, palavras e considerações que
não temos valorizado muito nesse louco e estressado
mundo no qual estamos inseridos. Se não podemos fazer
isso, que significado pode ter a possibilidade de estarmos
ao lado deles?
Um dos filmes que marcou minha vida tratava justamente desse
compromisso de vida, dessa relação entre pais
e filhos fundada num amor profundo, numa cumplicidade sem
igual que se espera seja desenvolvida entre pessoas tão
próximas, trata-se do belíssimo e poético
A Vida é Bela (sei que alguns o consideraram
piegas ou sentimentalista demais, lembro que outros criticaram
a forma branda como Begnini tratou o tema dos campos de concentração
da 2ª Guerra, no entanto, para mim, o mais importante
foi o sentimento forte que uniu os destinos de pai e filho
naquela trama), não devemos esperar que catástrofes
como as guerras abram os nossos olhos para o valor de nossas
crianças e o potencial que há em cada uma delas,
penso que devemos arregaçar as mangas e realizar já
alterações que permitam que essas capacidades
sejam desenvolvidas desde o presente momento!
Observação:- Quando falamos, no título
do artigo, sobre mentes brilhantes, não
estamos nos referindo ao filme estrelado por Russell Crowe
e dirigido por Ron Howard, recentemente agraciado com alguns
Oscar (inclusive de melhor filme), que tem como personagem
central o matemático norte-americano John Nash. Não
pretendemos fazer com que nossas crianças se tornem
gênios em uma das várias áreas
de atuação acadêmica ou profissional da
humanidade, mas que elas tenham possibilidades de aprender,
que se interessem pelo conhecimento e que venham a entender
o mundo em que vivem para que usufruam do mesmo de forma mais
justa, equilibrada e inteligente.
João Luís Almeida Machado
Mestrando em Educação, Arte e
História da Cultura (Universidade Presbiteriana Mackenzie,
em São Paulo); Professor universitário atuando
na Unitau (Universidade de Taubaté) e na Faculdade
Senac em Campos do Jordão; Professor de Ensino Médio
e Fundamental em Caçapava, SP; escreve semanalmente
na coluna Cinema e Educação do Portal Planeta
Educação (www.planetaeducacao.com.br).
Envie
e-mails de comentários, sugestões e críticas
para: profjoaoluis@planetaeducacao.com.br

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